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Sultão virtual

Rosa Pena


Quando criança a mãe fazia ele usar o cabelo à Príncipe Danilo, aquele cortado com a cuia de queijo, redondinho na cabeça, deixando as “orebas” de fora. Filho único, de uma viúva, virou o reizinho.Ia para as festinhas dos amiguinhos todo enfarpelado, gravatinha borboleta, sempre com a dona Aurora, sua mamãe, que vivia preocupada com as maldades que as outras crianças poderiam cometer com seu neném. Aprendeu a ser vítima bem cedo.
Na hora das fotos o pequeno burguês era encaixado sempre, lindo de morrer, tinha que aparecer em todas.

Dá-lhe papagaio de pirata!
Cresceu debaixo das saias dela e a galera garantia que ele ia usar saia também. Unhas sempre bem-feitas, joelhos sem arranhões, merendeira até os quatorze, indicava que a mamadeira devia ter ido até os dez pelo menos.Dionísio cresceu só tomando suco, e não experimentou nem uma cervejinha, contradizendo a origem de seu nome, Deus grego do vinho e da embriaguez. Não era o primeiro da classe, pois Aurora fazia todos os trabalhos dele, impedindo-o de exercer o supremo direito do erro (só assim se aprende), mas sempre ficou bem na fita, pois presenteava adoidado as professoras. Penso que o Didi (não o dos Trapalhões, mas sim o falso Deus), foi quem inventou
de chamar professora de tia, coisa que acho um saco. Não sou tia, sou a professora, a amiga, mas tia não! Tia significa ser bacana? Tenho uma tia má!
Aliás acho realmente que o Di, (não o Cavalcanti), foi pioneiro num monte de coisa.
Não se revelou gay, porém o primeiro metrossexual.Aurora adorava ver seu menino já com trinta anos, todo bonitinho, não querendo ter pelos no corpo, adorando comprar incenso com cheiro de patcholi.Ela sempre fez questão de exaltar-se como “a mãe”, continuamente crucificava as outras todas, que permitiam o uso de biquínis, minissaias, namoros, viagens em grupo.
- Libertinas!Era taxativa.
Os rapazes de cabelos grandes e jeans, eram ameaças à sociedade!
-Desgarrados, pulhas!

Qualquer movimento estudantil, ele ficava contra os colegas e a favor da direção, ou em cima do muro.Aprendeu com a mãe que exercício de cidadania é fazer compras.Aliás, tem um montão de gente só que exerce essa!Tome de shopping!

Di, não casou e não tivemos conhecimento de outra mulher em sua vida, enquanto sua mother viveu. Ela reinou sozinha, com os olhos sempre lacrimejantes e o avental sujo de ovo, na vida dele. Afirmava que só viveu para ele. Ser boa mãe é só padecer?
Quando a Aurora "escureceu", já no enterro conhecemos a primeira Sherazade, que já estava com ele há mil e uma noites no MSN. Depois conhecemos a Virgínia, a Deise, a Sarita, a Jane, a Shira ! Dá-lhe He-Man!

Conheceu todas na net, enquanto mamãe dormia. Sultão no Hotmail desde de 2000.
Atualmente anda de camiseta toma injeção (músculos em evidência), vive do pecúlio da mãe, totalmente improdutivo, ta sempre de porre (fazendo jus ao nome), virou anarquista (parasita mudou de nome), se acha avançado, mas ainda imagina que teve uma boa educação e tenta dar lição de moral no mundo.

Escreve sobre auto-ajuda, tipo “Sem medo de ser feliz". Deus nos acuda!


- Mãe, o Bruno vai dormir aqui hoje, ta legal?
- Bruno real ou virtual?
- Fala sério mamãe! Real, pô!

- Acabou a pesquisa da faculdade?
- Lógico! Já está impressa e com capa.
- Vou comprar uma pizza antes de sair. Deixo na geladeira.

Não vivo de avental, poeto de forma liberal, mas tenho o maior orgulho de minha filha ter escolhido direito penal, sem que eu tenha padecido em demasia.Trocamos igual.

2005

livro PreTextos
Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 16/02/2005
Reeditado em 17/10/2008
Código do texto: T4532
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 25/09/16 16:06)
Rosa Pena

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