Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

006 - O PEDIDO DE NOIVADO

=   O  PEDIDO  DE  NOIVADO   =

- Não adianta, Romário, você não consegue nunca entrar pra aquela família, o comendador é muquirana demais. só casa suas filhas com os sobrinhos, pra conservar a fortuna na família.
- Pode ser. Mas estou por aqui (e passou a mão aberta pela própria garganta)  com essa história, eu e Margarida estamos namorando – escondidos, é claro – e qualquer dia desses vou enfrentar a fera.
Conversavam conversa de amigos íntimos, Leandro querendo  prevenir o amigo da besteira que era pretender casar com a última  das sete filhas  do comendador Juca Lemos.
Rafael se achou no direito de dar seu palpite:
- Também acho. Juca Lemos já casou as seis filhas mais velhas  dentro da própria família.  Não vai ser a última, a mais dengosa, mais caprichosa e enjoada a contrariar.
- Olha como fala, Rafa ! O Romário não gosta que a gente fale assim da sua namoradinha, né mesmo ? E depois, eles também são gente de posses. A fazenda do velho Clarismundo é um bom dote. E Romário, sendo filho único, já sabe, tem chance de agradar o Juca Lemos.
Romário continuava bebericando sua cervejinha, ouvindo sem querer escutar as opiniões dos companheiros de bar. Preocupado, pensava como chegar até o  pai de  Margarida.
Não era de hoje que namorava a filhinha predileta, sempre avisado, primeiro pelo próprio pai, depois pelos amigos e até mesmo pela moça, de que o pai era pessoa difícil.
Comendador Juca Lemos: nome respeitado  na cidade e na região. Proprietário de inúmeras fazendas de café e de gado leiteiro,  milhares de alqueires,  milhões de  cafeeiros e  mil cabeças de gado  em suas fazendas. Sempre ávido por terras, a cada ano acrescentava uma nova propriedade ao seu patrimônio. Começou do nada, sempre econômico – ou miserável, como diziam os invejosos – foi construindo sua fortuna pouco a pouco. Estava bem de vida quando casou com Clarinda, filha do Coronel Herculano, moça esquisita, recatada. Só saia de casa para a missa das 8, diariamente.  Nunca usava roupa da moda , baton  ou rouge. Dona Clarinda foi pródiga na geração de filhas. E somente filhas.
Animados pelos muitos copos de cerveja , os companheiros de mesa aconselhavam e  aporrinhavam Romário.
- Claro que o Romário não tem medo  do Comendador, mas deve ir com calma...
- Qual o quê, com esse tipo de gente tudo tem de ser como eles querem. Vê lá se o velho Juca Lemos, cada vez mais ambicioso e miserável, agora vai abrir mão de casar a filha como ele fez com as outras seis.
O namoro durava alguns meses. Margarida, mesmo sabendo estar destinada a um dos primos, encontrava-se furtivamente com Romário  todas as quartas-feiras (depois da novena das sete na Igreja de São Matias) , aos sábados e domingos. Talvez a mãe já soubesse. Nunca podia ter certeza de nada que passava pela sua  cabeça. Sempre muito calada, matutando.
- Tenho de  ir lá, custe o que custar. Também, o comendador não é nenhum bicho papão. Vou lá, falo com ele.  Se concordar, concordou, se não, eu e Margarida casamos assim mesmo. Somos maiores.
- Você sabe que as coisas não funcionam assim, Romário. O homem, além de miserável, é mau. Pode deserdar a filha se vocês fizerem alguma burrada. E tem mais, cê não vai querer fazer um escândalo, fugir com a noiva.  Coisa assim não existe mais.
-Todo cuidado é pouco. O comendador ainda tem nas suas fazendas alguns jagunços. Gente que já matou a seu mando, faz tempo, é verdade, mas ele pode mandar esses bandidos atrás de vocês, se vocês fizerem qualquer coisa à revelia.
O grupo continuou ainda por horas nesse papo-furado, dispersou-se e cada qual tomou seu rumo.
Romário continuava preocupado. Sabia de todos os prós e contras do seu namoro secreto e prestes a se tornar conhecido dos pais de Margarida.
Se para muitos pais era situação de desgosto, para o ambicioso Juca Lemos as filhas foram, cada qual na sua vez, motivo de muita satisfação. Informando-se daqui, observando dali, lançando entre as moças palpites e observações sobre os pretendentes a namoro e noivado, o comendador (ainda quando não tinha nem mesmo esta patente ) foi insinuando nas filhas a necessidade de se casarem com os primos. Não deixava claro as razões desse dever, mas todo mundo sabia que a cada casamento aumentava as chances de incorporar ao seu patrimônio as terras do Coronel Herculano e de outros grandes proprietários, todos aparentados de Dona Clarinda, a mãe.
Deste modo, todas as seis filhas estavam “bem casadas”. Comendador Juca Lemos exercia uma forte influência sobre toda a família. Mandava e desmandava até mesmo onde jamais poderia exercer o poder. Chegava a ser maquiavélico, premiando os genros mais dóceis com favores e aborrecendo os renitentes com picuinhas e agravos.
Romário conversou com o pai.
- Não sei não, este namoro é uma grande besteira. Tem tanta moça bonita por aí, você vai escolher logo a Margarida, que nem bate bem da cabeça.
-Gosto dela, a gente  combina . E vou me casar com ela.
-Não conte comigo para conversar com o Comendador. Sabe que somos inimigos políticos. O que, aliás, é mais um empecilho para que as coisas entre você e Margarida cheguem a um final feliz.
-Não me interessa. Vou me casar com Margarida, custe o que custar.
- Pense bem, filho. Naquela família todo mundo obedece ao comendador. Se você botar banca  de independente, nunca vai conseguir nada.
- Acho um jeito, o senhor vai ver.
Mas estava difícil, tudo conspirava contra: Romário vinha de uma família liberal. Seu pai e ele mesmo eram pessoas abertas para a sociedade, para a política, freqüentavam a maçonaria, usavam de suas posses para ajudar a tudo e a todos.
O pai de Margarida contrariava : econômico, chegava a ser miserável. Sua vida era para suas fazendas, nas quais exercia o poder de forma mais absoluta. Pouco se importava com as necessidades alheias. Ia às missas aos domingos e só. Um  caipira endinheirado. Só usava ternos de brim cor de cinza, tanto para ir às fazendas como para assistir à missa. Jamais ia a uma reunião social. Na política, exercia seu poder manipulando uns 500 votos de seus empregados e famílias.
Era intransigente. Filha sua só casava com quem ele queria. E pronto.
Romário pensava, pensava. Como chegar até o comendador e pedir a mão da filha?
Um dia, teve um estalo . Uma idéia ! Convenceria o comendador. Decidiu-se, seria naquela noite. Ou vai ou racha, ou rebenta a tampa da caixa. Jogaria tudo num lance só. Um ataque frontal. Nem avisaria Margarida. Tudo sozinho, ele contra o Comendador, vamos ver quem ganha esta !
Encheu-se de coragem, vestiu sua melhor roupa e  foi, à noite, cerca das sete horas, bater na porta do Comendador. Foi o próprio que atendeu à porta.
-Boa noite, Comendador. Queria ter uma conversa, um particular com o senhor.
-Boa noite, vamos entrando e sentando.
Sentaram-se os dois, frente à frente, na imensa sala de visitas, parcamente mobiliada, e mal iluminada por uma fraca luz que vinha duma lâmpada de 25 volts, acima de suas cabeças.
-É conversa demorada ? perguntou o Comendador.
-Sim, vai ser conversa comprida –  (“e difícil”, pensou).
O coronel se levanta e dirige-se ao interruptor da luz, apagando-a.
- Como  já nos conhecemos, não precisamos de luz para conversar. Vamos economizar a energia elétrica, que tá cara, atualmente.
Conversaram e conversaram. A abordagem foi lenta, Romário era escolado e educado, foi levando a prosa com cuidado, envolvendo o  Comendador. Elogia aqui, faz observações agradáveis por ali, entremeia a conversa séria com algumas observações jocosas, ao gosto caipira do Comendador. Chega finalmente ao clímax, ao ponto crucial, ao pedido da mão de Margarida.
- Olha, pra dizer a verdade, eu já sabia desse namoro da Margarida. Dona Clarinda minha mulher me tinha avisado. Não gosto nem desgosto. Com as outras filhas foi fácil, elas eram mais obedientes, me escutavam. Mas a Margarida... moça difícil. O senhor sabe, “seu” Romário, este pedido tem que ser avaliado. Não posso dar uma resposta agora. Tenho que consultar Dona Clarinda e falar com a Margarida, saber se ela quer mesmo casar com o senhor. Sabe como é.
- Sim, senhor Comendador, compreendo perfeitamente. Fico agradecido por ter me ouvido durante tanto tempo, e espero seu chamado, sua resposta. Agora, devo ir.
- Deixa eu acender a luz, pro senhor não errar a porta.
Ao acender a luz, o coronel observa que Romário está freneticamente enfiando as faldas da camisa dentro da calça,  ajeitando a cinta, apertando a fivela.
- Uai, que é isso, seu Romário?
- Num é nada não, Comendador. Como a gente ia conversar muito tempo,  o senhor apagou a luz, pra economizar energia elétrica, só nós dois aqui na sala – então abaixei as calças, pra não gastar os fundilhos.
Seis meses após o pedido , Romário e Margarida casaram-se na Igreja Matriz, com toda a pompa e circunstância, as bênçãos do Comendador, que não se cansava de elogiar o genro:
— Econômico e  sabido  , esse Romário! Vai ser o meu braço direito daqui pra frente.


Antonio Roque Gobbo  --- Belo Horizonte,13-novembro, 1999 ---
Antonio Roque Gobbo
Enviado por Antonio Roque Gobbo em 24/02/2014
Reeditado em 10/05/2014
Código do texto: T4703983
Classificação de conteúdo: seguro
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Antonio Roque Gobbo
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 79 anos
623 textos (11769 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 22/12/14 21:28)
Antonio Roque Gobbo



Rádio Poética