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Pé de coelho

A casa branca, os muros carcomidos pelo tempo, o tempo parado. Nem nos fundos, nem ao centro. Chamava atenção mesmo pelo número de gatos. Do parque, olhinhos apertados, lhe prendia o lambe-lambe do banho dos bichanos. O futebol mais interessante. A bolinha de meia rolou; de pé aos dois de idade: atrás dela. Os passinhos trôpegos nem se deram conta da investida felina. A unha afiada fincada na maçã, rastilho pra cicatriz e ódio eterno – guerra declarada. E apelido ganho.

                        *  *  *

Na sinuca da esquina, o farfalhar das notas contadas anunciam sucesso recente. E dá-lhe cervejas pagas e mulheres, os credores que esperem. Gato Manso demora mas paga, assim diz o povo. E quem vai ter coragem de cobrá-lo? Do acidente, a marca funda na cara ossuda, um lembrete, como placa de cão raivoso.

Higino não faz a menor idéia de onde está. Por falta de gasolina e imprudência mesmo, enguiçou frente ao salão imperial, império de Gato Manso e sua turma. Viciado inveterado, de longe avistou as mesas de “bola oito”. Os braços compridos, finos, chacoalhando em direção ao outro lado da rua. As orelhas, de lá, sintonizadas no estranho. Disse-me-disse peculiar às novidades, periferia de grande cidade, o clima do bairro de pequena. O dono dela presente.

Acostumado a jogatina propõe uma aposta, aceita de pronto. Primeira partida e, de lavada, perde humilhado. Outra. Pior que a primeira. Gasto o dinheiro, quase sem pra gasolina. Mais duas rodadas de rabo de galo e três fichas ao rapaz do balcão. O justo Gato, aconselhando-o a ir embora - quem não ouve conselho: escuta coitado.

Alminha pequena, fora de casa. Sorte de principiante ou amuleto no bolso, começa a ganhar. Animado, acena pras meninas assistindo, e encaçapa mais uma. Gato Manso, agora quieto. Quase o dinheiro pra abastecer mais o do mês. Sorriso escancarado, louros da vitória. Faltam duas bolas e, o cordão de prata do adversário reluzindo contra o sol, ofusca a tacada. Vai-se todo lucro.

Sai do salão cabisbaixo. Ao entrar no carro, os olhos voltados para o assoalho a procurar maneira de ir embora, surpreendido por um bater no vidro. Um moleque de recados, mandado, lhe dá o dinheiro do combustível. Nunca soube o quanto esteve perto de morrer.

Douglas Evangelista
Enviado por Douglas Evangelista em 03/09/2005
Código do texto: T47373
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Sobre o autor
Douglas Evangelista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
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Douglas Evangelista