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VENDETTA, MINHA CARA

Depois de muitos anos de convivência as duas velhas conhecidas finalmente se encaram. Durante todos os anos em comum, foram passando ao largo uma da outra, eventualmente um esbarrão, um cruzamento, uivos sibilantes de um lado, rosnados de outro e cada uma seguia seu rumo. E neste ponto do caminho as duas se postam, olho no olho, cada uma de seu lado do espelho.
A primeira, num tique tipicamente felino, remexe os bigodes e as narinas, aperta os olhos e lança um olhar desdenhoso para a companheira em frente.
- Olá, amiga velha...quanto tempo sem aparecer. Coisas da idade, né? Vai se ficando num canto, sem muita disposição pra vida social.
Lança um olhar disfarçado, pelos cantos dos olhos felinos, para as pontas das garras afiadas, aguardando a reação da companheira. A outra, por sua vez, emite algo que parece um suspiro de tédio, mexe rapida e quase imperceptivelmente as orelhas lupinas, sacode os bigodes e responde com um “pode ser” em voz baixa e num tom que deixa passar uma certa piedade para com a felina.
Felinos são sutis, persistentes e dissimulados por natureza. Ela volta a olhar as garras, coça os bigodes e retoma o ataque.
- Mas apesar da idade, a gente até pode dizer que você está razoável...Nada mal, velhinha, nada mal.
Um sorrisinho malicioso aparece levemente nos cantos do focinho. Um olhar de “vejamos se agora você mantém a classe” é lançado para o outro lado do espelho.
A loba dá uma lambida nas patas, pensativa, como se ponderasse sobre a relevância da conversa. Relembra dos muitos anos em comum com a companheira, dos anos na sombra enquanto ela caminhava altiva, cauda levantada, cabeça igualmente erguida, sempre arrogante, como quem desfila. Pensa nas inúmeras vezes em que teve vontade de fincar os dentes na jugular daquela criatura frívola, vitrine que atraía para si todo o tipo de figuras masculinas, desejadas e indesejadas, feito animais no cio, com aquele andar sinuoso, aqueles miados aveludados e aquela carinha tão angelical e ao mesmo tempo insinuante. Pesados os prós e os contras, achou que já estava de bom tamanho o silêncio de tantos anos.
- Você tem razão. Nada mal, minha amiga. Pra ser sincera, nunca estive melhor. Mas vejo que você anda passando maus pedaços. Noto algumas ruguinhas ali, bem na beiradinha dos seus olhos...Parecem meio caidinhos. Tem chorado muito, garota?
A outra não esperava por essa. “Loba miserável, bem no meu ponto fraco”, pensa rapidamente. Disfarça a raiva sob um riso sarcástico e devolve o tiro.
- Minha velha, a coisa está feia...você está enxergando mal. A idade realmente tem feito estragos. E olhe que tenho te dado uma mãozinha. Não fosse o meu charme, você além de velha, estaria sozinha, esquecida...
A loba não tem paciência para joguinhos. Esta é a especialidade da outra. E começa a pensar que aquela criança crescida e impertinente precisa de um bom corretivo. “Vendetta”, pensa ela. “Esta felina já me cansou”. Lambe as patas, alisa o pelo das orelhas, dá meia volta e antes de virar as costas definitivamente para o espelho, desfere a última pancada:
- Você tem razão. Você ajudou muito. Você me trouxe as companhias, mas com a sua inteligência eu teria continuado sozinha, ou pior, mal acompanhada. Vendetta, garota. Eu tenho a mim. Isso é mais do que você jamais terá.







Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 13/09/2005
Código do texto: T50184

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai