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Um dom, um sonho e uma certeza


Danielle estava sentada com a cabeça apoiada nas mãos e uma angústia a lhe corroer o íntimo.  Havia uma semana que ela tinha tomado uma decisão: iria se libertar das amarraras que a sociedade lhe impusera e sairia em busca da realização de seus sonhos.

Ela contava agora vinte e cinco primaveras, era morena, de estatura mediana, cabelos longos e cacheados, olhos verdes, dona de um sorriso que cativava a todos e uma alma cheia de anseios, de sonhos. Danielle escrevia poemas, estava com um livro estruturado e precisava de patrocínio para o lançamento do mesmo. Sabia que seria difícil no lugar onde ela morava. Trabalhava, mas o seu salário mal dava para seu sustento e para ajudar com as despesas de casa. Danielle queria mais, sabia que não conseguiria se acostumar com uma vida igual à da sua avó, da sua mãe, das suas amigas que já eram casadas e mães. Ela não queria só aquilo, queria mais, queria ganhar o mundo com seu talento, escrever para as pessoas, encantar as pessoas com seus sentimentos, tornar-se uma grande escritora.

Porém, no grupo social em que Danielle vivia – uma cidade do sertão de Pernambuco – isso que ela almejava era algo totalmente fora da realidade. Quando ela falava para as pessoas do que ia em seu coração, dos seus sonhos, dos seus projetos, as pessoas simplesmente riam ou então a olhavam como quem olha para uma criança que sonha em visitar o castelo de Deus, lá nos céus. Petrolina não era uma cidade que dava muito apoio à cultura. As pessoas não tinham incentivo nenhum, e a população desconhecia o hábito da leitura. E depois, diziam as pessoas, existem coisas mais sérias com as quais se preocupar, a poesia fica para aqueles que querem viver no mundo de sonhos.

Naquele dia, ali na faculdade, Danielle decidiu: iria fazer o que fosse preciso para que seu sonho se tornasse realidade. À noite ela orou antes de dormir e pediu a Deus que lhe desse força suficiente para que ela não fraquejasse no seu propósito. Logo pela manhã comunicou aos pais o que tinha em mente: iria levar seu livro para a editora, assumiria o compromisso de quitar com os custos sessenta dias após o lançamento do livro. D. Lourdes e Seu Vicente ficaram apreensivos, sabiam que o orçamento do livro dela girava em torno de R$ 2.000,00. Danielle tentando acalmá-los explicou que venderia duzentos livros no intervalo de dois meses e que assim arrecadaria o dinheiro de cobrir os custos com a editora. Porém, seus pais sabiam que vender uma quantia tão grande de livros de poesias numa cidade onde as pessoas não davam a mínima importância para a arte, era algo tão difícil que só mesmo o espírito sonhador de sua filha para acreditar em tal proeza. De tudo fizeram para tentar impedi-la, mas ela estava decidida.

Um mês depois Danielle estava na noite de autógrafos de seu livro. E para espanto de todos, muitas pessoas compareceram. A sociedade se fez presente, sensibilizada que ficou com as visitas que a menina os fez durante todo o mês. Ela levou para as pessoas o seu projeto e falava com tanta pureza dos seus sonhos, do prazer de estar lançando seu livro, de como gostava de escrever que todos ficaram comovidos. Muitas pessoas compareceram mais por pena do que por interesse, mas ao terem em mãos o trabalho da escritora puderam então perceber que realmente se tratava de um talento.

Na noite de autógrafos Danielle vendeu 195 livros e ficou radiante, seus pais então começaram a ver que a filha tinha razão, iria conseguir chegar à meta que sempre sonhara.

Ela foi convidada para fazer o lançamento do livro em outras cidades vizinhas, inclusive na sua cidade natal, onde vendeu mais uma centena de livros. No final de tudo, Danielle teve que pedir uma nova remessa de livros na editora, pois a procura se fez grande.

Através de um conhecido, Danielle enviou seu trabalho a uma personalidade da música brasileira e ele tanto gostou que quis conhecer a menina. Em Salvador, ao lado de Gilberto Gil, Danielle estava  que era só sorrisos. Mostrou para o Gil algumas composições suas e saiu de lá como compositora da GG Produções.

Sua sensibilidade a fez compor músicas belíssimas que agradaram a outros tantos cantores brasileiros e dois anos depois Danielle estava chegando pra morar em Salvador com a família na casa que ela havia conseguido comprar com o seu trabalho.

Na primeira noite na casa, antes de dormir, ela lembrou daquele dia lá na faculdade quando tomou a decisão de correr atrás de seus sonhos e ir contra sua família e amigos. Danielle ficou aliviada em ter tido coragem para buscar o que sonhava. Agora ela estava feliz e realizada.
Cinthya Danielle dos Reis Leal
Enviado por Cinthya Danielle dos Reis Leal em 24/02/2005
Código do texto: T5078
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Sobre a autora
Cinthya Danielle dos Reis Leal
Petrolina - Pernambuco - Brasil, 40 anos
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Cinthya Danielle dos Reis Leal