MINHA RUA

Reencontrei este meu conto que me fez lembrar de algumas personagens que povoaram minha infância no "Barrerão".

MINHA RUA

Sentado à beira da piscina, volto ao tempo de criança e percebo o quanto fui feliz naquela rua de uma cidadezinha do interior do Pará. Era uma casa grande com um terreno imenso, onde podia fazer as mais variadas estripulias. Havia muitas árvores e muitas delas frutíferas. Eram mangueiras, cupuaçuzeiros, goiabeiras, pupunheiras, cafeeiros, taperebazeiros, entre outras. Mas as que mais me chamavam a atenção eram as mangueiras e os cafeeiros, isto porque costumava, junto com outras crianças, subir nessas árvores ora para tirar mangas, ora para jogar-me, como se fosse o Tarzan, em direção aos galhos dos cafeeiros, que costumam ser fortes e flexíveis. Aquilo era uma diversão, mas a razão de dores de cabeça de meus pais, que, de vez em quando, tinham que me dar uma peia para que não fizesse aquela arte.

Lembrei-me também de algumas personagens daquela rua. A primeira a vir à mente foi o seu Zidó, homem que possuía uma espécie de sorveteria, onde vendia seus picolés e bombons. Foi o primeiro da rua, pelo que lembrava, a ter uma televisão. Às vezes colocava-a no meio da rua, à noite, e a vizinhança toda se reunia para assistir, entre outras coisas, ao famoso “telecat”, cujos personagens mais esperados eram o Ted Boy Marino e o Verdugo. Quando não a levava para a rua, os vizinhos se acotovelavam na janela para assistir ao futebol ou à novela.

Outra personagem que não me sai da mente é a dona Dagmar, mulher que parecia não fazer outra coisa que não fosse tratar da vida alheia. Falava de Deus e de todo mundo, ninguém escapava de sua língua, muitas vezes ferina. A qui entra em cena nossa terceira personagem, alvo da intriga dessa senhora: Seu Vadico, um homem de cerca de 60 anos, viúvo, e que só gostava de se relacionar com mulheres bem mais novas que ele.

Seu Vadico estava vivendo com uma moça em um quarto alugado por uma tia minha. Embora aparentemente ela não desse motivos para que ele tivesse ciúmes, tudo o que esta fazia era motivo para despertar-lhe esse sentimento, motivo pelo qual os dois viviam discutindo. Não bastasse essa ciumeira sem cabimento, dona Dagmar se encarregou de envenenar ainda mais o coração desse homem, dizendo-lhe que sua mulher tinha um amante. Foi o suficiente para que o homem disparasse uma bala certeira na testa da suposta adúltera, dando fim à vida daquela jovem. Ele foi preso e nunca mais tive notícias dele.

A próxima personagem não é humana, mas um terreno, que fora o lugar mais conhecido daquela região por acontecer nele todos os anos uma grande festa junina. Como minha vó aniversariava em junho, ela fez uma promessa de todos os anos realizar uma festa nesse mês. No dia D, várias pessoas se reuniam para fazer os famosos quitutes de dona Dolores. Não podiam faltar a famosa pamonha – que ela fazia como ninguém –, o mingau de milho, o tacacá e a maniçoba. Essa festa, porém, ganhou a concorrência de outra família, que também passou a realizar festas no mesmo dia da de dona Dolores. O que me chamou a atenção nessa história é que os vizinhos, que antes tinham um convívio harmonioso, passaram a discutir constantemente, principalmente próximo ao evento. Certa feita, o desentendimento saiu da discussão e partiu para “as vias de fato”. A festa estava “rolando” quando, de repente, houve uma invasão dos vizinhos e o “pau torou” naquele dia. Pessoas que nada tinham a ver com a desavença dos vizinhos também entraram na briga. Conclusão: no outro dia o saldo de olhos e cabeças inchadas era grande em ambas as famílias. A partir daí não houve mais as tradicionais festas e hoje só são alvo das lembranças e agora de boas gargalhadas. Os vizinhos voltaram a se entender.

A próxima personagem que me vem à mente é dona Suzanne, mulher bonita, solteira, que morava em um quarto alugado no quintal de minha avó. Não tinha marido, mas já tinha dado à luz várias crianças, com a peculiaridade de que todas elas não passavam de dois anos. Naquela noite dona Suzanne veio chamar a mim e a meu primo para levar a filha dela ao pronto-socorro, pois estava com febre. Como costumávamos jogar bola até à noite em frente de casa, não demos ouvido a ela e preferimos continuar com a brincadeira. A noite passou e, ao amanhecer, encontramos a mulher chorando dizendo que a filha havia amanhecido morta. Embora com pouca idade, ainda éramos adolescentes, aquilo me marcou profundamente. Hoje, quando vejo alguma criança com febre ou qualquer outro sintoma de doença, já quero levá-la imediatamente ao hospital.

Minha última personagem é a dona Joana do Doido, que tinha esse apelido, porque, segundo os vizinhos, ela fora durante muito tempo casada com um homem que vivia mais no hospício do que em casa. Desse casamento nasceu o Danado, apelido do garoto, que também herdara a genética dos pais, já que dona Joana também não batia lá muito bem das ideias. Uma coisa me chama atenção até hoje nessa mulher: o fato de cuidar bem, dentro de suas condições, dos dois filhos. É! Dona Joana teve mais uma filha, esta, contudo, nunca aparentou qualquer distúrbio mental.

Lembro bem de nossas peraltices, e hoje sabemos que cometíamos "bullying" ao chamar em “alto e bom som”: Lá vem a Joana do Doido, lá vem a Joana do Doido.

Alguém mergulha na piscina e pingos d’água chegam até mim. Desperto daquele estado rememorativo. É hora de voltar ao presente. O sol está mais quente e preciso aproveitá-lo.