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Miss Elliot


Nunca ninguém a tinha enxergado, com enxergos de gente, andando pelas alamedas nevoentas de Hyde Park, de braço dado com a solitária, e, a boldrié, a lâmina afiada da espada de Dâmocles. Desensacava o seu porte elisabethiano, o andar magro e pausado, as longas cornucópias ruivas sobre as vias da pele láctea, aos primeiros riscados do dia. O descaminhar matinal era, sempre, idêntico. Nada de deslizes, nem olhares perdidos em rostos alheios, nem suspiros que deixassem rastro nos galhos do incasto.

Há muito que Virgínia Elliot deveria ter deixado de ser Miss. Ninguém cruza as pernas por cima de quatro dezenas de anos, saindo-se impune, serena, e guardando títulos e honras de outros tempos. Misses são as meninas virgoleiras, ou seja, em outros tempos, que nestes já vão caindo em dessuetude, as virgens e solteiras a quem Santa Catarina não tivera tempo de ofertar o seu famoso chapéu, como prenda do quarto do século. Concedamos, porém, ainda que a contra-gosto para alguns, esse título às inocentes ou culpadas, às novas ou desgastadas, às solteiras ou às pré-casadas.

Se alguém pensou que o riscado descaminhar de Miss Elliot, pelas nevoentas alamedas de Hyde Park, tinha como intento lavar a alma no chilrear da bruma matinal, ambíguou-se! Não! Miss Elliot, cavalgava sorrateiramente os dingues e dongues do Big Ben, supostamente certeiros mas imaginaudíveis em Hyde Park, chutava o pó das pedras filosofais, torcia os dedos avaros da felicidade vindoura, enquanto esperava, ou desesperava, que Mrs. Parker abandonasse o ninho. Mrs. Parker, coitada, amalsonhava que John Parker, seu marido civil e católico, filho único e herdeiro de Sir William Jonhson-Parker, era acuidado de Miss Virgínia Elliot!

Para alguns londrinos, acostumeiros de Oxford Street, que observavam a delicada figura de Virgínia entrar no número 69 da mesma enquanto bebericavam um off-tea-time, ia ela, lampeira, prestar auxílio ao seu velho tio, ex-militar, hoje afincado a uma cadeira de rodas, devido a uma bala desgraçada. Miss Elliot subia a escadaria com uma menina de cinco olhos a tiracolo, que deixava os vizinhos dos Parker boquiafechados. Todas as cartolas acorcovadas, deixavam cair um aceno à sua passagem, e os desgolados vestidos primaveris das Lady’s murchavam de inveja.

Chegando aos quintos andares dos prazeres, assoalhava Virgínia os pés no tapete, e punha o seu dedinho lânguido no nariz aquilino das campainhas, antes de tirar da sua malinha de mão a chave que abriria as portas do Éden. O que se passava durante toda a manhã entre aquelas mudas paredes ninguém sabia ao certo, mas o que certo era, é que todos assobiavam eventualidades pelos corredores da intriga. As boas línguas diziam que ela ia enfermajar o destinatário da bala desgraçada, outros, ainda de boa boca, diziam que Virgínia lia páginas e páginas de livros de desaventuras, que Mr. Parker já não estava em condições de aventurar-se ao que quer que seja; as más-línguas cuspiam de soslaio, que aqueles desencontros familiares pouco ou nada tinham de britânico!

Do outro lado da cidade, em Thessaly Road, perto do New Covent Garden Market, Mrs. Parker laborava as horas mortas e enxotava com delicadeza as lágrimas que resvalavam pelas rugas, enquanto os seus pensamentos tropeçavam nas folhas dos calendários que já tinham sido jovens. Eram as saudades que batiam à porta, e deixavam na soleira ganidos amordaçados. Que tanto maldiçoava aquela desgraçada bala, que lhe arrancara da pele as carícias maritais. E quanto mais atafulhava o almofariz com belas épocas, mais o pilão da coragem tinha dificuldades em macerar as suas inóspitas carências. Não! – pensava Mrs. Parker – não deixarei palrar a carne, pois que os vizinhos ouviriam os seus gemidos e deitariam-me nas altaneiras chamas da fornalha da condena. Uma pessoa tão dedicada e gentil como John, não merece levar ao ombro a capa que ensopa o sangue das bandarilhas taurinas.

Quem lhe lesse os bretões pensamentos, de certeza que não a aguilhotenaria. Quem poderia, alvamente, crucificar ou coroar de espinhos a voluptuosidade? Que venha o primeiro diabo e confesse que nunca pensou, por um instante sequer,  comprar um bálsamo nas farmácias das ruas rameiras, para acalmar os tremeliques das entranhas!

Enquanto o ia e vinha dos seus pensamentos encadernava os códigos das boas maneiras, Miss Elliot desencadernava os códigos de enfermagem e depositava algumas das suas piabas, a longo prazo, no bolso bojudo de Mr. Parker! Sim, a longo prazo porque o tempo era pouco para ser à ordem, pois quando o dia perdia a sua sombra pelas ruas londrinas, Miss Elliot tinha que deixar o apartamento da 69, Oxford Street, cruzando-se, algumas vezes, pelos degraus da vida com a aia de Mrs. Parker.

Umas semanas mais tarde, um pouco antes da famosa hora do chá, Mrs. Parker voltejava no seu ninho de galhos murchos ao mesmo tempo que desfolhava as rosas duma tragédia shakespeariana. A sua assoldada rapariga, como de costume, deixou-lhe na mesinha de voltarete o seu chá de hortelã-pimenta, e dos lábios carnudos deixou cair uma gota de cicuta dentro da chavena de fina porcelana: - Madam, que delicada que é a sua sobrinha! Todos os dias vem a coitadinha fazer companhia ao Mr. Parker. É tão raro ver nos dias de hoje a pérola da dedicação suspensa no colo alvo das solteiras.

Nunca Mrs. Parker provara o desgosto de um chá amargo…

 

Cristina Pires
Enviado por Cristina Pires em 26/02/2005
Código do texto: T5207

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Sobre a autora
Cristina Pires
França, 51 anos
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Cristina Pires