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O HOMEM DO SACO DE PAPEL

O HOMEM DO SACO DE PAPEL
Branca Ruiz*

Por que aquele homem sobe esta rua todos os dias? Sei que não trabalha nem mora por aqui. Por que não muda o caminho, não levanta a cabeça? Será que se sente atraído pelo chão ou tem medo d e trocar olhares com os transeuntes?

Ele carrega uma bolsa cinza , sempre na mão direita. Na outra um saco pardo de papel. Vazio. É estranho.

Tem o rosto muito magro, cheio de buracos. Talvez seja marcado pelo choro. Esse rosto destoa com os braços fortes e ombros largos que tem.

Mas um saco vazio... por que alguém carrega um saco vazio? Todos os dias na mesma rua e com um saco vazio. Ida e volta. Vazio.

Talvez ele não tenha o que fazer com as mãos. Sente-se inseguro, dá coceiras nas mãos se não carregar algo.

Estranho... não creio que seja isso. Além do mais ele poderia por a mão no bolso da calça.

Pode estar furado...

Mas se é só pra ter o que fazer com as mãos isso não seria problema.

Na última semana ele arranjou um chapéu de feltro. Muito maior que sua cabeça. Já nem e pode ver aquele rosto esburacado.

Mas não chove. Nem faz muito calor.

Ele pode querer esconder o rosto. Vocês todos falam de mais, ele sente que é observado, que vocês se interrogam a seu respeito. E falam!

Por que ele se incomodaria com nossos olhares? Por que iria querer se esconder? Só se... ele for um criminoso!

Acho que é doido... Cruz em credo!

Mas já falando dos outros? Ninguém aqui tem que fazer? Vão pra suas casas... Vá mulher!

***
Desconcertados, levantaram-se e pegaram suas cadeiras e entraram em suas casas.
O homem do saco já estava longe dali. Agora quase podia sorrir, já não havia ninguém na rua e podia caminhar tranqüilo. Mas o homem se desabituara com os sorrisos. Seu cérebro havia esquecido os comandos que faziam o canto dos lábios se levantarem e os olhos brilharem. Além do mais, ele precisava voltar. Exatamente naquele ponto que não gostava. O quadrilátero do bar, cheio de casas à direita, à esquerda e à frente. Aquelas pessoas que tanto o olhavam. Ele sabia que falavam dele.
Todos os dias quando subia a rua sentia náuseas, seu estômago revirava por todo o corpo. Quando abria a porta para sair de casa, se lembrava daquelas pessoas, então pegava a bolsa cinza e o velho saco de papel pardo. Talvez com as mãos ocupadas ele passaria despercebido. E as árvores perceberiam que ele é normal. Não obstante, se sentia vigiado e ao sentir  calor daqueles olhares sobre si, apertava o saco entre os dedos a quebrar as juntas. Tinha medo que o reconhecessem.
O homem se sentou numa pedra e olhava para o chão. Pegou um graveto e fez alguns grafismos na terra. As imagens se formavam no chão. Um círculo e no núcleo vários pontos. Relógio.

***
Estava enterrado no terreno baldio ali do outro lado da rua. Eu estava brincando e encontrei... achei tão bonito, pensei que pudesse ficar com ele.

Me dá isso aqui moleque! Vai apanhar pra aprender a nunca mais mexer no que não é seu.

***
O menino ficou trancado no quarto. No dia seguinte viu um homem engravatado, todo distinto, conversando com o pai. O homem deu algum dinheiro para seu pai que lhe entregou o relógio dourado que reluzia na pequena sala. Os olhos vermelhos do pai ficaram ainda mais rubros com o reflexo do objeto.
Quando o já estava na rua, pronto para partir, viu o garoto na calçada entre soluços e lágrimas. Relógio. Sua mãe.
No dia seguinte o homem procurou o garoto e lhe entregou uma bolsa cinza, dentro um saco pardo de papel. O garoto desembrulhou o saco e encontrou um relógio. Não era tão reluzente , mas grande e tinha aquela cordinha para pendurar no bolso.
O menino ficava horas com o relógio na mão, rodando-o da direita para esquerda. Quem sabe assim poderia se auto-hipnotizar e lembrar da mãe. Compreender porquê o pai era tão hostil. Mas ele jamais conseguiu.

***
Não é tão horrível como disseram, como pode parecer ou como pensam. A vida é um ciclo, tal como a morte. Temos que morrer para que outros nasçam. Imagino se nenhum rato tivesse morrido desde a grande explosão ou como os crentes preferem: o paraíso... hoje o mundo estaria dominado por esses animais nojentos! Eu ainda lembro da aula de ciências... as águas dos rios e mares são sugadas pelo sol que transformam as gotas d’água em nuvens que depois virão chuva para voltarem aos rios e mares... como os professores enfeitam a vida, a natureza, a História... Eu... eu apenas antecipei o ciclo. Matei o super ego. Qualquer um entenderia se sentisse como eu. Se estivessem sós, sem espelhos, se ninguém os visse. Eles também o fariam. Mas nos cultos e nas ruas, entre as gentes prefere cunhar-me doido quem sabe um herege. Doidura... todos nós o somos de um jeito ou de outro. Ademais, louco é aquele que faz o que quer. Não tem um deus, logo pode fazer o que quiser, tudo. Daí os chamam doidos, loucos, malucos, insanos... Falando assim você pareço mesmo doido. E herege! Preciso voltar até lá. Um símbolo. Relógio. Como nos sonhos, um símbolo: o meu perdão. Sim, o perdôo.

***
Ele passou o pé na terra desmanchando os grafismos. Sentiu-se bem por já ter escurecido. Dobrou o saco de papel e o guardou no bolso. Colocou o chapéu. Levantou-se e desceu por aquela mesma rua que há pouco o observava.
Respirava o ar fresco da noite e olhava para os lados para ter certeza de que não tinham olhares curiosos sobre si. A rua estava deserta.
Olhou para o pequeno bar que ficava onde há anos atrás era apenas um terreno baldio. Suspirou, tirou o chapéu, levantou os olhos e entrou pela lateral do bar, não havia portão. Havia um grande quintal nos fundos do bar. Era realmente muita sorte não terem construído o bar até o fundo do terreno. Recordava-se exatamente do local.
Ajoelhou-se na terra e cavou com as mãos um buraco. Tirou da mala cinza o grande relógio. Bateu com ele na palma da mão direita, assoprou e deu corda. Ao ouvir o tique taque o canto dos seus lábios se levantaram e um brilho surgiu em seus olhos, como se a música do relógio despertasse os botões que comandavam o seu cérebro. Lágrimas brotaram dos seus olhos fundos e agora brilhantes e rolaram por todo o rosto liso. Colocou o relógio no pequeno túmulo e o cobriu de terra, alisando e batendo com as mãos na terra fresca.
Tirou o saco de papel do bolso. Desdobrou. Amassou. Fez uma bola com o saco de papel e foi para a rua. Tirou o chapéu e colocou junto com sua bola de saco pardo dentro da mala cinza. Lançou a mala como um bumerangue que voou tão longe que nunca ninguém encontrou.
Desceu pela rua escura com um largo sorriso no rosto que não tinha qualquer marca de expressão. Partiu com as mãos balançando sem se importar com o velho homem de olhos vermelhos que o observava da janela do bar.

***
Será que ela é mãe solteira? Não usa aliança.

Sabe que já vi vários homens entrarem na casa dela. Cruz em credo!

Mas já falando dos outros! Não têm mesmo que fazer... eu desisto!


“Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadei-
      [ras, mexericos, namoros, risadas” – Manuel Bandeira

* alter ego
Nina Rizzi
Enviado por Nina Rizzi em 27/09/2005
Código do texto: T54368
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Sobre a autora
Nina Rizzi
Franca - São Paulo - Brasil
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Nina Rizzi