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As cartas à Marquesa

 

Lembrei-me hoje das cartas que trocava com a Marquesa du Pas de Calais; das cartas que escrevíamos nas melancólicas tardes de Inverno. Ela deitava-se na maciez do tapete persa da sala, defronte da lareira, e eu sentava-me numa velha cadeira Voltaire de veludo verde, abatida e desbotada, herança da tia Josefina. Dela, da tia Josefina, guardei, além da cadeira desbotada, uma caixa de prata com incrustações de marfim em forma de cornucópias onde eram guardadas as relíquias da família, uns brincos de pérola, e o olhar amargo, diziam os meus pais. Ah! também tive que guardar, de herança, o seu enregelado nome. Coisas da aristocracia!

Assim, eu, Josefina Vieira de Castro Melo, todas as tardes escrevia cartas sem fim à Marquesa. Às vezes pedia-me ela nas suas breves cartas, que eu lhe definisse a cor destes meus amargos olhos, e eu respondia-lhe que eram cor de fel, e ria da minha irreverência. Eu ria, ela mirava-me angustiada. Outras vezes queria saber por quê os meus olhos de malícia não sossegavam cinco minutos entre as linhas do que eu lia, ao mesmo tempo que me cobria os ombros com o xale do silêncio, e me encolhia entre os braços do Voltaire.

O quanto nos escrevíamos! Quem lesse as nossas cartas não compreenderia a ausência do lugar. Nelas figurava tão-só a data. O lugar, nunca! Mudávamos tanto...

Quando o Inverno morria nos braços da Primavera, e as primeiras andorinhas pastoravam nos céus cerúleos, tanto a Marquesa como eu voávamos para o jardim. Então, ela, sempre com aquele manto de pele beige no corpo, ora se sentava na fresca relva, ora se deitava ao sol sem se importunar com os estragos que este poderia causar à sua pele clara.

Nos dias mais calorosos do Verão, passávamos horas e horas sem nos mexermos, com medo de espezinhar as palavras que ao chão caíam; aquelas que deslizavam dos seus olhos castanhos e que não alcançavam o amargo dos olhos meus.

Não é que caíssem as palavras, pois elas não caem, mas semeávamo-las para que crescessem no tempo. Às vezes sim, levantávamo-nos e caminhávamos pelas suas arestas, como se fossem escorregadias pedras de calçada, e seguíamos o seu rastro. E quantas vezes caíamos nas suas ciladas, nos seus becos? Um sem fim de vezes! Por isso me escrevia ela, que a verdade das palavras não está no que se lê, mas no que delas sobeja. E era nos sobejos imortaís das palavras que caminhávamos, ou escorregávamos.

Outras vezes nem me escrevia, deitava-se na relva fresca, deixava cair as suas grandes orelhas por cima dos seus olhos, e eu já sabia que a Marquesa nesse dia não estava lá para grandes conversas, ou para grandes cartas. Então, de olhos fechados deixava-se ficar ao sol, inerte e de ares aborrecidos. Coisas da aristocracia!

Mas quando se sentava, e me perscrutava com os seus olhos doces, ao mesmo tempo que inclinava a cabeça, parecia que me rosnava, em vez de me escrever. É verdade que nem sempre eu compreendia as suas palavras, nem ela as minhas. Escreveu-me ela um dia: “Josefina, devias parar de tanto escrever tolices, e escrever à tua mãezinha.” Para quê? Para quê? – respondia eu, no avançado salto da minha infância. Ora, tu não vês que aquele anjo por ti chora, como choro eu a ausência da minha e dos meus irmãos? Voltava-lhe a escrever e dizia-lhe que Anjos não choram. Não têm asas? – dizia eu - Pois que me venham ver se de mim sentem saudades! Voltava a rir desta minha irreverência, levantava-me da cadeira de balouço instalada debaixo da amoreira do jardim, e, num último rabisco raivoso, escrevia à Marquesa dizendo-lhe que a carta ficaria para outra hora, que eu tinha que ir ver em que pé ia o jantar.

Mas ela, teimosa, rosnava-me entre alvos dentes um “Ostracista! Ostracista!”. Ou era eu que gania às estrelas aquelas rudes palavras? Ou seria aos céus, para que os Anjos soubessem do meu degredo?

Acabei de vez com aquelas enfadonhas cartas! Onde já se viu cartas e cartas tão-só com duas ou três linhas? Já não me perco no meu tempo, pois o tempo já me perdeu. E quando lhe dizia isto, lá vinha ela rosnar aos meus tornozelos: ”Que cadela de vida a minha!”.

Agora ela já não me escreve, ou sou eu que já não me dou a ler. Sei lá!... Vou ver em que pé vai o jantar.

 

Cristina Pires
Enviado por Cristina Pires em 03/03/2005
Código do texto: T5552

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Sobre a autora
Cristina Pires
França, 50 anos
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