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Sopro de Vida

Por fim rende-se e a dor descansa em uma lágrima. Debruçou-se , como a abraçar os seus próprios olhos, socorrendo-os. Temia que o pranto mais uma vez dele fugisse. O peito comprimido pedia-lhe guarida e suas mãos num misto de solidariedade e carinho, afagaram-no. A face refletida no espelho, dizia-lhe de um homem que ainda desconhecia. E quanto mais se olhava, apenas encontrava um esboço do que supunha ser.
Não havia nada dentro de si, a não ser aquele pulsar de veias que lhe lembrava de sua existência, desenhando os acordes de sua dor. Esvaziava-se, quando a melancolia lhe vestia, disfarçando aquela tristeza que tão bem lhe conhecia.Desabitava-se, evitando àquela sensação que lhe asfixiava os olhares, entregando-se ao silêncio. Estranhamente, era naquela voz que nada lhe respondia que se aconchegava. Ouviu o som quase oco do seu próprio coração. O bater descompassado de suas emoções fotografava a ventania que tomava conta de sua alma. E fora dele, tudo era calmaria no semblante dos que julgavam lhe conhecer. Era assim que se deixava ver: um lago plácido e de águas calmas.
Acostumara-se a construir muros, refugiando-se em si mesmo. Apenas na moldura de suas lembranças, encontrava-se. Se ao menos conseguisse fragmentar-se ou estilhaçar-se. Quem sabe assim, a dor pudesse ser divisada por olhares alheios, sem que ele próprio percebesse. Mas não...a razão sinalizava-lhe, como se ela mesma pudesse bastar-se.
E ainda assim, a despeito da solidão que secretamente lhe envolvia, um outro coração na ponta dos pés lhe espreitava. Tinha pés descalços, como se não quisesse constrangê-lo em sua nudez. Sim, era assim que se sentia com a proximidade dela. Despido diante de uma estranha que inexplicavelmente lhe dizia de si.
Não sabia como ela chegara tão próximo. De repente, sentiu os laços que lhe protegiam serem desatados. Não, não eram apenas mãos que lhe tocavam. Eram carícias que liam seus desejos em nuances e gradações. E o que antes lhe parecia invasão, tornou-se intimidade ansiada. Notou-se permissivo, mesmo quando ela começou a tatear sua escuridão e dizer-lhe de luzes, flores e fragrância de vida.
Pegou-se deixando de ser silêncio. E o que sempre fora palavra adormecida e castrada passou a ser escrita e falada, ainda que muitas vezes em letras diminutas e sussurradas. Permitiu-se a inquietação compartilhada e a deixar os rascunhos de seus sonhos despertos sob a luz dos olhos dela...

         

Fernanda Guimarães



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Fernanda Guimarães
Enviado por Fernanda Guimarães em 04/03/2005
Reeditado em 25/08/2008
Código do texto: T5632
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Sobre a autora
Fernanda Guimarães
Fortaleza - Ceará - Brasil
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