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UM CONTO EM QUATRO CAPÍTULOS

CAPÍTULO 1

Era uma manhã de inverno, e apesar de ser quase dez horas da manhã fazia frio ainda.Aline desceu do ônibus no local de costume.Naquele dia tinha feito a prova de biologia e não levara seus livros e cadernos para escola.Não costumava fazer isso em dias de prova.Aline morava em uma fazenda há pouco mais de seis meses.A fazenda ficava distante alguns quilômetros de uma pequena cidade do interior,onde ela estudava.

Aline começou a caminhar até chegar em seu local preferido,a caminho de casa.Pra ela havia uma certa magia naquele local.Uma porteira pintada de branco que estava sempre fechada, e além seguia um caminho que serpenteava entre árvores frondosas até desaparecer na distância.Tudo era muito bem cuidado por ali.Ela jamais saberia explicar a atração que aquele lugar despertara nela desde a primeira vez que passara por ali.

Soprava um vento frio e perfumado com o aroma de eucaliptos,abundantes por ali.Mais uma vez ela sentiu vontade de abrir a porteira e descobrir até onde aquele caminho poderia levá-la.E mais uma vez também,disse a si mesma que não podia fazer isso.Aquele local era uma propriedade particular,com certeza,não podia simplesmente entrar sem ter permissão pra isso.

Continuou a andar voltando pra casa.Mas a curiosidade foi ficando cada vez maior.Então pensou que,se tivesse que seguir por aquele caminho,tinha que ser agora.As provas na escola haviam terminado,e depois de passar vários dias sentada em seu quarto ou na pequena biblioteca da escola com o rosto enfiado nos livros,sentia necessidade de se aventurar,fazer algo diferente,espairecer.

Voltou, parou em frente a porteira e olhou ao redor: ninguém por perto,silêncio.A poeira que o ônibus levantara em sua passagem pela estrada de terra, já desvanecera no ar.Arrumou a pequena mochila nos ombros,abriu a porteira e entrou.Sentia o coração disparado no peito.Começou a andar,devagar no começo,depois cada vez mais rápido.A última árvore lá na frente, quase escondida em uma curva do caminho,tinha um galho enorme ,que com o vento balançava pra frente e para trás,como um braço acenando,chamando...

Continua...


CAPÍTULO 2

Quando Aline chegou na última curva do caminho,percebeu que este era bem mais longo do que imaginara antes.A partir dali o caminho se tornava uma ladeira, cheia de pedras e garranchos, até desaparecer na mata fechada lá embaixo.Hesitou...melhor voltar...Perto dali vários animais pastavam em um campo aberto:vacas,ovelhas e cavalos.Um deles lhe chamou a atenção,era grande e forte,totalmente negro.Seu pêlo brilhava ao sol que saíra de trás de uma nuvem escura de chuva.Imediatamente se imaginou cavalgando naquele cavalo por entre as árvores,o cabelo solto ao vento,totalmente livre...

Um movimento tirou Aline de seu devaneio.Um bem-te-vi pousara numa cerca ali perto,e soltara seu canto ao vento.Aline sorriu e pensou: não! não podia seguir com aquilo.A mata adiante lhe dava medo,mas ao mesmo tempo a aventura,o desconhecido lhe fascinava.Na escola Aline era conhecida por sua coragem e iniciativa.Era uma líder nata, e sempre representava os alunos nas reuniões de pais e mestres.Seu João, o dono da fazenda onde ela morava lhe dava muito conselhos,um deles era que ela devia seguir a carreira militar.

- Você tem tudo a ver com aquele mundo menina! - dizia.

Aline bateu o pé.Tomara sua decisão: iria até o fim daquele caminho. Sua avó diria se a tivesse visto naquele momento:

- Eita como tu é teimosa,quando coloca a cabeça pra um lado...

Ela olhou ao redor outra vez: ninguém à vista.Desceu a ladeira e chegou a mata.O caminho se tornava só uma picada a partir dali.Borboletas e pequenos insetos revoavam por entre árvores e pequenas flores.Ela entrou na mata.A copa das árvores quase encobria o sol, mas a luz penetrava por espaços sem vegetação.Aline caminhou por vinte minutos,o calor agora aumentava,já sentia o suor na fronte.Percebeu que continuava a descer,suavemente.A mata agora ficava mais fechada.Começou a ouvir um barulho característico: água em movimento.Chegara a um riacho que com as chuvas se  tornara bem caudaloso,sua margens tinham subido e alcançado as árvores mais próximas.As águas eram límpidas,transparentes. Aline não resistiu: lavou o rosto,os pés e as mãos.Sempre levava na mochila uma toalha de rosto,então sentou em uma pedra quase redonda,pra se enxugar e descansar um pouco.Percebeu que um pouco adiante à sua esquerda,havia uma pequena ponte de madeira.Tudo era tão silencioso por ali...De repente ouviu algo...um estalo de um galho...Aline ficou imóvel, paralisada.O medo voltou e ela sentiu o coração disparar no peito.Silêncio novamente.O ruído estalado se repetiu agora mais próximo.Alguém,alguma coisa estava ali...

Continua...


CAPÍTULO 3

Antes de continuar com a aventura de Aline,vamos conhecer um pouco de sua vida.Aline tinha 16 anos e morava com a avó na fazenda arco-íris,há pouco mais de seis meses,depois que o pai falecera em um acidente de carro numa madrugada de sábado,completamente bêbado.A morte do pai fora um choque pra Aline e pra sua avó paterna.E depois que a dor amenizou em seus corações, elas tinham achado melhor se mudar da cidade e ir morar em um lugar mais tranquilo e assim seguir vivendo.Aline perdera a mãe quando tinha cinco anos.As más linguas da cidade diziam que o casal nunca se dera muito bem.As brigas eram constantes.Diziam também que a mãe de Aline,Ana Maria,era completamente apaixonada por outro homem,mas que o romance deles não dera certo, e Ana maria acabara se casando com o pai de Aline: Miguel.Ana maria,diziam,nunca esquecera o tal namorado, e que ele ainda morava por aquela região e nunca se casara.Era um homem estranho,misterioso.Ninguém sabia seu nome,mas ao que parecia ele era italiano, ou seria espanhol? Nas poucas vezes que Aline tentara conversar com a avó sôbre seus pais,ela não confirmara esta histórias,mas também não desmentira.
Voltando a mata,no momento em que Aline ouviu o segundo estalo atrás de si,deu um pulo,desceu da pedra, e jogando mais que depressa a toalha dentro da mochila,disparou a correr rumo a ponte de madeira.Atravessou a mesma em questão de segundos e continuou correndo.Não se atrevia em olhar para trás.Quando chegou a uma boa distância do riacho, parou um pouco pra descansar e finalmente se virou.Teria sido impressão sua, ou acabara de ver um vulto negro se esqueirando entre as árvores lá embaixo? Sentiu as pernas tremerem,mas se forçou a correr novamente.Não precisou ir muito longe,o caminho terminava numa cerca viva de plantas espinhentas.Sua passagem estava bloqueada.Começou a contornar a cerca e olhando por entre as frestas da vegetação,viu uma casa de pedra,parecia ser bastante antiga,com sotão e porão.Chegando na frente da casa,um portão de ferro estava convidativamente aberto.Como que atraída por um imã,Aline passou pelo portão e parou em frente a enorme porta de madeira cheia de desenhos estranhos.Estava tão cansada que não conseguia dar nem mais um passo.Mas a visão do vulto negro se aproximando por trás da cerca viva fez com que tomasse uma atitude.Abaixou-se e agarrou um pedaço de madeira que estava largado no chão,parecia ter caído do telhado.Virou-se para o portão no momento em que o vulto chegava ali.Aline encarou um homem vestido de negro,moreno,alto e de olhos verdes penetrantes.
- Você é Aline, não é? Sabia que se parece muito com sua mãe? - disse o homem.
- Sim - a voz dela era quase inaudível.
- Estive procurando uma maneira de me aproximar de você,mas esta correria toda certamente não era a melhor alternativa - disse ele enxugando o suor da testa com um lenço.
- Por que estava atrás de mim? - disse Aline desconfiada.Ele se aproximou.Aline levantou o pedaço de madeira.
 - Não precisa ter medo,nunca lhe faria mal.Me deixe explicar,está bem?
Ele veio até a porta,pegou um chaveiro no bolso,escolheu uma chave e abriu a porta.
-Gostaria de entrar um pouco? - disse ele com voz suave.
-Não! - disse Aline.
-Bom dia senhor Fernando! - Era um homem de idade no portão.Aline o reconheceu imediatamente,trabalhava na fazenda arco-íris.- Aline - disse ele- O que faz aqui? - Ele perguntava mais parecia saber a resposta.
-Oi Seu Pedro! - Aline não conseguiu dizer mais nada,mas se sentia aliviada com a chegada dele ali.
- Seu Pedro - disse o homem de preto - Acho que pode imaginar o quanto quero conversar com esta garota,como esperei por isso.
Seu Pedro confirmou com a cabeça e se aproximando de Aline,que estava cada vez mais intrigada,disse:
- Aline você sempre foi uma menina corajosa.Mas sempre achei que você tem um sexto sentido muito forte.Tenha certeza,você não chegou até aqui por acaso.Acredite em mim,o Seu Fernando tem algo muito importante pra lhe dizer.Não precisa ter medo,logo você vai compreender.
- O Senhor conhece este homem? - disse Aline.
- Sim,nós nos conhecemos há muito tempo.Ele parece estranho, mas é uma ótima pessoa - sorriu pra o homem de preto - lembre-se que as aparências enganam.
- Entre conosco Seu Pedro - disse Seu Fernando.
Aline soltou o pedaço de madeira e entrou na casa.Ficou fascinada com o que viu.A casa era linda por dentro,cheia de móveis e objetos antigos.Aline adorava antiguidades.Em um sofá enorme dormia um gato,ao ouvir as pessoas chegando,ele se espreguiçou e olhou fixamente pra Aline.
- Este é Ludovico - disse Seu Fernando sorrindo.
Aline sorriu também,gostava de gatos.Na fazenda havia vários.Um retrato na parede principal da sala chamou a atenção de Aline.Mostrava uma moça jovem e bonita e que se parecia muito com ela.
- Meu Deus!! É minha mãe!! - disse ela.



CAPÍTULO 4
 
- Sim,é sua mãe quando tinha 20 anos.Eu mesmo tirei esta foto.- Disse Seu Fernando.
Aline deixou-se cair em uma cadeira,abalada.Seu Pedro,sempre emotivo,tinha os olhos cheios de lágrimas.
-Então o Senhor é o namorado que minha mãe nunca esqueceu? -perguntou Aline ao homem de negro.
- Mais que isso - disse Seu Fernando se ajoelhando na frente dela - Aline,eu sou seu pai!
- O que? - Aline não conseguia acreditar no que ouvia.
-Depois que eu e sua mãe acabamos por motivos fúteis,vejo isso agora,eu viajei para o exterior. Quando voltei aqui eu já a encontrei casada.Mas bastou vê-la uma vez, pra saber que o que sentíamos um pelo outro não acabara.Ela não era feliz com Miguel,ele já bebia muito e vivia saindo com outras mulheres.Nós nos encontrávamos aqui.Mas Miguel descobriu tudo,me ameaçou de morte,ele andava com uns caras mal encarados naquela época.Mas eu não tinha medo por mim,mas por sua mãe,pois quando Miguel bebia ficava violento.Tive que ir embora outra vez.De vez em quando eu recebia cartas da Ana,e na primeira destas cartas, ela me contou que estava grávida e que tinha absoluta certeza que o bêbe era meu.Depois que Ana faleceu - ele fez uma pausa - eu pensei em nunca mais voltar aqui.Mas me lembrei que tinha você.Seu Pedro é que me escrevia e me mantinha informado.Mandei dinheiro pra sua vó,no começo ela não quis aceitar mas acabou aceitando, e me escreveu agradecendo a ajuda.O Miguel nunca soube disso.Enfim eu soube da morte dele e resolvi voltar e conhecer você.
Aline ficou um bom tempo sentada,assimilando tudo que ouvira.Agora entendia umas frases sem sentido que o pai dizia quando bebia.Será que ele sabia que eu não era sua filha?Fez a pergunta a seu novo pai.
- Não ele não sabia.Tenho certeza.
Aline se levantou e deu um longo abraço em seu pai.Este sorria por entre lágrimas.Depois daquele dia nunca mais a vida de Aline foi a mesma.Sua avó lhe confirmou toda aquela história depois e acrescentou que sempre pensava em lhe contar,mas desistia.Aline agora vivia mais na casa de pedra ao lado do pai do que na fazenda,como que pra recuperar o tempo perdido.Cavalgava muito com o cavalo negro que se chamava Corcel.Uma tarde de domingo,enquanto a avó dormia em um dos quartos da casa,Aline confessou ao pai:
- Eu acho que eu e minha mãe temos o mesmo gosto em matéria de namorado.Eu já disse pra o senhor como o acho lindo?Esse seu jeito misterioso...Nossa! Se o senhor não fosse meu pai...
Seu Fernando riu com vontade.
 
FIM
 
ESPERO QUE TENHAM GOSTADO!
 
BOA SEMANA PRA VOCÊS



Ane
Enviado por Ane em 09/10/2005
Reeditado em 12/10/2005
Código do texto: T57982
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Sobre a autora
Ane
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 46 anos
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