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Solitaire e o Anjo Zulu - Capítulo III

Solitaire e o Anjo Zulu - Capítulo III


Não sei há quanto tempo estou caminhando. Olho em volta e não encontro qualquer referência.
Fácil constatar que estou perdida.
Busco pelo mapa que costumo levar na bolsa, mas ele não está ali.
Encontro apenas a câmera, uma xerox de documento e alguns trocados.
Vejo um grupo de pessoas no final da quadra, cruzando a rua. Ando apressadamente até alcançá-las .
Parecem ter saído de um culto religioso, pois cada um traz sua bíblia nas mãos.
Ao me aproximar, percebo seus olhares surpresos. Me recebem de forma gentil, mas posso imaginar quantas interrogações lhes povoam as mentes diante da figura inusitada.
Pergunto pela estação de metrô mais próxima eles respondem que àquela hora os trens já foram recolhidos.
As estações estão fechadas.
Fechadas ? Mas por que ? Eles sorriem e perguntam se eu sei que horas são. Não faço a mínima idéia.
Olho o relógio de pulso e custo as acreditar que são quase duas da madrugada.
Não percebi que tanto tempo havia se passado. Tudo bem.
Pergunto como posso voltar de ônibus ao centro da cidade, e dessa vez eles não escondem seu espanto :

- Mas você está muito longe, minha filha. E pelo jeito está mesmo perdida.
Esse bairro é muito isolado e não é recomendável que você caminhe sozinha por aqui .
E precisa tomar dois ônibus para voltar ao hotel.
- Sim, mas os ônibus passam por aqui ?
- Não. Somente os que circulam pelos subúrbios. Não servem para você.
Siga essa rua até o final. Está vendo as luzes ao longe ?
- Sim, estou.
- Vamos com você até lá.
- Não, por favor. Não quero causar problemas . Vocês já ajudaram bastante.
- Bem, então ao chegar lá, procure saber quais linhas você precisará usar para
voltar ao centro. Mas tome cuidado, sim ?
- Certamente. Muito obrigada.

Encarei a avenida que estava a cerca de três quadras de distância.
Não haviam elevações, e portanto, conseguia vislumbrar algum movimento ao longe.
Notei que o caminho até lá estava completamente deserto. E a iluminação era precária.
Segui em frente ainda sem entender como e por que fui parar naquele lugar tão distante de tudo.
Penso nos meus amigos, que devem estar preocupados . E o que poderia lhes dizer para explicar algo que nem eu mesma compreendia ...
Mas isso fica para depois. Agora preciso me apressar e chegar até aquele local iluminado.
Essa rua tem um ar sombrio e a situação me aborrece.
O encontro com aquelas pessoas me deixou um pouco receosa. Mas isso é coisa que se faça ?
Perder-me ao sabor das horas ? Cadê o meu bom senso ?
Por que o Acaso me levou até ali ?
Por que Solitaire o acompanhou ?

Mas... o que é aquilo ? Estou chegando à última quadra que me separa das luzes e vejo um vulto correndo na minha direção. Pela primeira vez sinto-me insegura, e pressentimentos me assaltam.
A poesia das ruas dá lugar à sua face sinistra .
Olho para traz e vejo um ônibus de turismo fazendo uma curva e ganhando a rua no sentido contrário.
Deve estar tão perdido quanto eu, mas isso não importa.
Volto a olhar o vulto que cresce e se aproxima rápido.
Sinto um medo repentino e atravesso a rua, caminhando a passos largos em direção ao ônibus.
Faço alguns acenos e este pára. Que bom, estou salva !
Quando já estou bem perto, ouço o vulto gritar: " Espere, por favor. Não vá embora. Espera ! ”

E eu paro. De repente sinto que não consigo me mexer. Tento imaginar que aquela pessoa precisa de ajuda, mas não me convenço. E não era somente a sensação paralizante a me deter. Era algo mais.
Talvez um capricho do Acaso, que muitas vezes provoca certos encontros...

O ônibus entra novamente em movimento e se afasta.
Fecho os olhos.
E quando os abro, o vulto enorme continua se aproximando.
É uma sombra absolutamente negra. Mas o brilho daqueles olhos estranhos me alcançou em cheio, intensificando o medo que agora se tornara palpável.
Meu coração aos saltos não permite que pense em algum escape.
Mesmo assim, seria inútil qualquer tentativa.
O vulto já está a poucos metros, agora se aproximando devagar. Muito devagar ....

Um sentimento já conhecido me invade.
Já havia sentido sua presença algumas vezes.
Mas não numa rua deserta, nem cercada de escuridão.
Não numa cidade desconhecida e tão longe de casa. Nunca absolutamente só.

Meu corpo treme e vai ficando frio.
E cravado no peito, um sussurro recorrente : " Hoje Solitaire vai morrer ... “


Continua .....

Claudia Gadini
04/08/05
Claudia Gadini
Enviado por Claudia Gadini em 14/10/2005
Reeditado em 07/11/2006
Código do texto: T59675

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Sobre a autora
Claudia Gadini
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Claudia Gadini