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Boa vizinhança

Ter testa de dar com ferro tinha, acontecia que, aceitando, seria mesmo testa de ferro, cúmplice - daria merda. Aceitou. Sem atinar pro próprio proveito que: com morte não se brinca. À guisa de ausência de virtude – ou proteção -, falta de coragem, conhecida maldosamente como covardia, deteve-se em frente à capela grudado em pai nosso que estais no céu. Resignado. Que diria o pai terreno, saudoso, pudesse vê-lo em tal estado? Sempre a espreitar a procura de falhas, por menor que fossem, as dos filhos inadmissíveis.

Agora já havia mergulhado na pendenga e a maré puxava forte, disso entende, assuntos de pesca e de vida, a forma de viver, a medida exata entre manter-se vivo e bem viver, comer, sobreviver. Confusão armada de bom-coração, confundido por vezes, com panaquice. “De boas intenções o inferno está cheio” - dizia Dona Lazinha ao escutar comentários sobre as bondades e boas ações vicinais. Astuta, maliciosa demais a velha. Antes houvesse seguido os conselhos da avó. Meter-se em assuntos que não lhe dizem respeito, uma vez que tragado, a vaga só devolve esfolado, mordido de siri e de peixe, nunca falhara desde pequeno, a lei.

Aceitou porque Cezarino é seu amigo de verdade, do tipo que em briga agride sem saber quem está certo ou errado, o canto da cama sempre dele, a bunda na parede, macho pra caralho. Surpresa foi, quando da chegada do amigo à sua morada, a contar de peleja perdida em defesa da honra com o vizinho da esquerda que, por incrível e irônico que pareça, capitão fascista reformado. Briguinha inocente, mas que Cezarino sangue quente tomou como julgada e culpada com dolo. Não dava mais pra aturar a mangueira, faceira que só, que insistia em serpentear pra dentro de seu terreno, seu lar, loteado e custeado à duras penas da venda de seus frangos (caseiros, nada supermetabolizados). Falar com o nazista de nada adiantava, e nunca fora homem de correr atrás de folga pra seu lado, o coração na ponta da faca e a porrada doída, atravessada, através de anos de embates em bares e clubes e lares - estes sim, para delinqüentes - pelos quais passou.

A mulher sem entender. Chegaria o dia, se nada fizesse, em que ela, casuarina de seios fartos, estenderia seus braços frondosos e cresceria, o obrigando a bater continência – assim aos modos do dito injuriador capitão. Antes disso alguém morreria - ah, isso ia.

O capitão, setentão ex-combatente, valente até no nome Valmir. Pinto do pai e Skora da mãe, européia de sangue tropical e libido fogosa, alemã ou escandinava, ninguém na região sabe. Nunca permitiu, nem mesmo veladas que fossem, liberdades com seu nome de guerra: “Capitão Skora Pinto... SENTIDO!” Do pai, caboclo tranqüilo, sensível às mudanças de lua assim como das marés, herdou o cabelo crespo e o gosto por pinga, mulatas e rede. Pára por aí. O sangue escandinavo/alemão – vai saber? – falando mais alto. Hierarquicamente pela cadeia de comando, no poder; na prática, Olga a comandante. A essa altura de calendários riscados, transcorridos há muito os dias de batalha, sua preocupação única: jardinagem. Frutíferas ou não, ornamentais, flores... o que fosse. Adubos, fertilizantes, pás; os antigos e arcaicos mosquetões trocados por molinetes, tarrafas e iscas. Sua luta agora só com as pragas e peixes.

Castro tem boca e não fala. A testa de ferro, inabalável. Boa-praça a vida toda, as más línguas dizem que, talvez por isso Ritinha lhe tenha enfeitado a cabeça tão descarada – é a tal incompreensão do povo, a panaquice. Dormia tranqüilo depois do almoço e quase caiu de cima da varanda ao ouvir os passos apressados de Cezarino. Ouviu a história enfastiado e, pensando três vezes, achou por bem não se fazer de rogado, já que coisa pior não haveria de acontecer.

Os tentáculos se estendiam por toda face do muro geminado, a ameaçar. Folhas e mais folhas varridas todos os dias, e a certeza de que cairiam cada vez mais, até não poder mais. A certeza viva da impunidade e desfaçatez com seus colhões. Cezarino com os nervos em ebulição, paciência desencapando fininha, fininha, pronta pra dar curto. Os dois pólos contrários tocavam-se no exato momento do assovio da mão no regador por cima do muro. A mulher lavava roupa na área, olhar distante, pensamento na novela, para Cezarino, a tramar uma ofensa. “Qualquer dia me põe pra fora de casa... Se deixar do jeito que está...” Pensava e rosnava entre os dentes, o córrego estreito de água passando para dentro de seu terreno, formando valeta comum às duas casas. Do lado de lá era Olga, megera, que dispensava a implicância lugar de honra no rol das picuinhas. Fosse o que fosse, não era bobagem o bastante para não ser reclamado: pregadores caídos, as crianças com a bola, as crianças pedindo frutas, roupas acidentais, todos incidentes sem devolução. As crianças... Com sua família já era demais.

Os braços subiam, tesoura nas mãos, podando os excessos, que desabavam pesados em seu quintal. Seu quintal Cezarino. Territorial, na rua do boteco lugar certo pra mijar. O futuro não existia, cada dia por vez. Metia-se em brigas em que pouco importasse o número de oponentes, a ferocidade a mesma. Casado e sossegado, não se reconhecia mais no espelho, amansado pela rotina do batente e vida certa. Antídoto infalível para acalmar os nervos o cheiro da mulher – sua fraqueza maior. E ela lá, dócil, um amor de esposa, manipuladora a sua maneira submissa, arrancaria o que quisesse de Cezarino. “Que água é essa aí filho?”.

Sem palavra dizer, tateou as paredes de chapisco da casa humilde em busca de seu facão. De platéia o filho mais novo e a serena mulher. Ganhou o muro e, num movimento rápido, estava de frente para o seu opressor. Capitão, olhos arregalados, ensaiou ralhar como fazia com suas tropas nos tempos de glória, “passar um sabão” – dizia. Pasmado com a audácia do vizinho, pois, a faca mesmo não tinha visto ainda. O facão riscou o ar tão rápido quanto bote de cobra, chegando a relar no bigode do Capitão: “Jesus! Que isso rapaz!” Cezarino, veia na testa saltada, irreconhecível. Desferiu o segundo golpe, desta vez perfurante, na altura das medalhas. O sangue jorrou tingindo o olho dágua do regador de vermelho espesso. O seguinte, de misericórdia, ou no ímpeto assassino o pé enfiado de vez na jaca, foi um golpe transversal, com toda extensão do fio da lâmina que, ao voltar, trouxe um souvenir do já defunto capitão. Nenhum balido. Morreu em silêncio. No tronco da mangueira respingos entalhavam o motivo.

Castro depois da breve parada na igreja, encontrou-se com Cezarino e o corpo do cujo. Acharam por melhor enterrá-lo em um charco próximo. Munidos das ferramentas necessárias, amuletos e fé de que, baseado naquilo, a justiça dos homens havia sido feita. O vento frio dos mortos em suas orelhas. Sepultaram entre tantas plantas o jardineiro capitão.

Até hoje Castro, quando sai pra pescar à noite, jura ouvir da praia uma voz abafada que diz: sentido. Não sabe se é o pai ressentido, ou o próprio dito, alma errante no luar.
Douglas Evangelista
Enviado por Douglas Evangelista em 15/10/2005
Código do texto: T59985
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Sobre o autor
Douglas Evangelista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
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Douglas Evangelista