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Corda bamba

As luzes do painel piscam do mesmo modo. Os rostos mudam, as expressões não. Doze horas de trabalho, uma semana sol, uma semana lua, sob a batuta da escala. Vez ou outra: problemas. Normal. Pra eles, os passageiros, compreenderem – difícil. Como quando dos atrasos, inevitáveis, emaranhado que é, a malha ferroviária regida por leis desconhecidas dos pobres usuários. Algoz e mártir, ele o representante mais próximo.

- Próxima parada, estação...

Os altos falantes porta-vozes das lamúrias disfarçadas por roteiros determinados, tragado pelo dia-a-dia. Não fosse a necessidade, os filhos, o escambau, há muito tudo teria jogado para o alto. Melhor não reclamar, quem reclama de barriga cheia cospe pra cima, correndo risco de chover. E não molhar.

Passadas as horas, quando perto de casa, volta ironicamente pelo próprio instrumento de sua insatisfação. Quando longe, a solução é ficar no dormitório destinado a classe. Alguns beliches, um bebedouro, banheiro coletivo e um quadro de natureza morta com o vil intuito de decoração, apesar da localidade erma. Náusea presente do ir e vir mais horários incertos e incertezas cotidianas – um maço de espanto, todo mês.

Há tempos o consome o esforço não reconhecido. O bar a mesa de cura, ao lado do resto. Hoje não. Desvia do caminho habitual.

- Vai pra onde José?
- Tenho que resolver umas coisas. Encontro vocês lá.

O caminho margeia a estação central, prédio e sede da empresa. Pelo lado de fora a passarela melhor opção. O pensamento na invisibilidade irracional causada pela função, homem importante que é, carregando metade do dia as engrenagens que fazem o mundo girar. Merecia recompensa, crê, mesmo sabendo que esta: jamais virá.

Desatinado resolve trocar de trajeto e atravessar o atalho nos muros. Lembra-se da vez em que atropelou um cavalo e foi obrigado a pedir ajuda e avisar a todos que a composição não mais funcionaria. Tomou uma carreira de quase um quilômetro. Correndo pelas pedras, naquele dia, perguntou-se se realmente aquilo valia a pena.

Sete da noite e as máquinas bradam seus gritos de metal e eletricidade. São cinco vias ao todo a serem atravessadas. Angústia engolida e estrangulada ano a ano. Fagulhas dos cabos e sinais e trânsito. Contando os dormentes, o Juninho pra criar. Pula a primeira fogueira. Ileso. Atravessa a segunda, o início, contas a pagar. Já na penúltima, ouvido mouco, preso ao carnê na oitava prestação, um fim e um meio. O farol se aproximando. Chance de dar fim a “deusmandôfazêoquesinhômandô”, fim das ordens e capatazes. Tempo só de arregalar os olhos e pular por cima das barreiras de pista ao lado, mergulho protegido pela capa flexível das propagandas. A velocidade como navalha cega, arrancando pêlos de barba. Corpos verticalmente caindo, o falatório incompreensível dos ambulantes e do atrito das rodas. Um triz.

- JESUS!

No bairro compra cigarro, refrigerante e pirulito. Abre a porta, a mulher assistindo novela se levanta e vai pra cozinha. Juninho na cama. Jantar na mesa. A mensalidade vence hoje.

- Passa o arroz.


   
Douglas Evangelista
Enviado por Douglas Evangelista em 16/10/2005
Código do texto: T60130
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Sobre o autor
Douglas Evangelista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
32 textos (1072 leituras)
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