Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

O AMOR no preconceito

          Dizem que Diná foi uma menina que nunca havia tomado uma surra, nem do pai e nem da mãe. Para isso ela possuía razões de sobra, pois o dengo, o mimo e a bajulação, faziam-na a pessoa mais adorada da família de dona Filó e de seu Mourão.
         O tempo foi passando, passando, e Diná começou a se encorpar e a esbanjar uma graciosa feminilidade de tal forma que os garotos se babavam ao vê-la passar. Ela era, pois, a razão da perplexidade sexual na cabeça dos garotos dali e um despropósito aos olhares maliciosos e irreverentes dos homens casados, além de ser um doentio martírio na mente das mulheres ciumentas.
          Em pouco tempo Diná - aos quinze anos de idade - passou a ser odiada por todas as mulheres casadas daquela cidadela esquecida no meio do sertão. Parecia até, que, ali, não mais haveria lugar para aquela menina-mulher.
          Tudo lá era sossêgo até o dia em que cidadezinha foi inesperadamente invadida por uma turba de operários da exploração de petróleo. Eles surgiram do nada, esbanjando dinheiro, encantamentos, galanteios, conversa-mole e… muita, muita promessa às virgens do lugar que, encantadas com as belezas daqueles forasteiros, cediam facilmente aos sedutivos galanteios. Foram muitas as donzelas que de lá partiram amancebadas com seus amantes recem-chegados.
          Foi nessa época que os ouvidos de Diná foram bombardeados de convites e promessas fantasiosas, oriundas de um rapazola sonhador que por bilhetes e recados prometia-lhe mundos e fundos em troca de um namoro; um aperto de mão; um beijo ou qualquer coisa de si.
          A tudo isso o pretendente exigia pressa, pois teria que em breve levantar acampamento e partir mundo afora na aventurosa exploração de petróleo.
          Diná delirava de alegria e, através de bilhetes, correspondia aos apelos do jovem Elias que mais parecia um rapazola. Mas tudo não passava de românticos e meros recados de amor transformando Diná numa sonhadora com a felicidade mas, no seu coração ardente, brota-lhe um romance oculto.
          Os momentos foram se sucedendo cheios de felicidade e encantamento até à véspera do dia em que Elias teria que ir embora com seu acampamento e seus amigos e, na tarde naquele dia, o primeiro namoro de Diná assim se fez: bilhete prá lá, bilhete prá cá; recado urgente prá lá, recado urgente prá cá, e… por fim, o encontro. Um olhar de perto; bem de perto. Um beijo-relâmpago; um suado e trêmulo aperto de mãos; olhos lacrimosos e bocas com palavras sussurrantes. Nascia assim um grande amor num enlace fulminante da paixão. Diná voltou pra casa transbordando de alegria, feliz, e sonhando acordada.
          Após o primeiro encontro, à luz do dia, o nome de Diná banalizou-se de boca-a-boca circulando velozmente, alcançou os quedos ouvidos de dona Filó. Foram, pois, as incansáveis ciumentas que viviam diuturnamente a vigia-la e que decidiram dar-lhe uma extraordinária lição, pois acreditavam ser ela a causadora de seus turbulentos casamentos e, assim, caluniosamente denunciaram-na por vadiagem a seus pais.
          Já era noite da véspera da partida de Elias e todos os móveis e utensílios do acampamento já estavam empilhados no caminhão e nele iria para muitas léguas dali o jovem que há poucos instantes, cara-a-cara, jurara-lhe um grande amor.
          O acampamento estava desfeito, mas o coração de Diná palpitava ardentemente no seu peito.
          Aquela noite de insônia parecia nunca lhe ter fim, e Diná, à luz do candeeiro, lia e relia lacrimosa os bilhetes do amado enquanto, vagarosamente, perambulava entristecida entre as quatro paredes do seu quarto e, ansiosa pelo raiar do dia que lhe parecia nunca chegar,  imaginava no calor daquele beijo, mas, antes que o povo acordasse ela precisava estar de pés, pois necessitava chorar a partida do Elias ao vê-lo se ir, e foi nesse estado de angústia  que seus pais ouviram barulhos na casa e também se levantaram, pois já haviam tomado ciência do descaramento da filha querida e precisavam salvar sua honra e acabar com o fala-fala-da-boca-do-povo.
          Dona Filó lhe apareceu  no quarto sorrateiramente, e assim bradou:
          – Que está fazendo de pés a essa hora?  Sente-se ai na cama pra me ouvir!
          – O quê é, mamãe?
          – Quem é este sujeitinho dos tais bilhetes?
          Diná avermelhou-se. Isso lhe caiu como um raio. Ela não esperava por tão áspera incinuação ao término da madrugada, menos agora que a mudança já estava saindo e tudo estava acabado. Nada havia feito de errado que merecesso ser gritada e olhada tão ferozmente como sua mãe o fazia.
          Seu Mourão, teso em sua frente, rangia os dentes e ouvia aparentemente cauteloso. Permanecia calado e visivelmente nervoso, enquanto aguardava o desfecho da cena para em seguida se pronunciar. Pai bom é aquele que castiga, disse Seu Mourão em baixa voz.
          Ali, naquela casa, não tinha lugar para filha mal-falada. Era esse o sórdido pensamento na cabeça de seu Mourão: um homem metódico e abastado de conceitos familiares e de rígidas regras religiosas que não lhes permitiam nenhum tipo de libertinagem no seu lar.
          – Que sujeito, mamãe? – e, balbuciando quase que inaudível, disse: – Malditas fofoqueiras!
          – Quem é o tal sujeito? – gritou seu Mourão, tomando a palavra em tom ríspido e autoritário; exigindo uma resposta correlata.
          – Não tem nenhum sujeito, oras! - respondeu-lhe num tom quase insolente.
          Mal acabou a fala e…
          – Tome, sem-vergonha! Tome e tome! – gritava assim dona Filó, irada, odiosa; segurando-a pelos longos cabelos encaracolados ao tempo em que lhe despachava tapas e mais tapas pela cara, e dizia-lhe carrancuda: – Tu és uma filha perdida.
          – Deixa isso comigo,  mulher! – disse seu Mourão, armado com uma taca de couro cru para ajuíza-la com mais castigo.
          A surra lhe foi animalesca, impiedosa e violenta. Essa segundo seu Mourão, era a única e verdadeira forma de quitar o pagamento da honra.
          Diná trancou-se no quarto e não chorou da surra. Nem uma lágrima sequer molhou sua face.
          Seu pensamento vagava pela estrada por onde a mudança ia, e ela desejava estar entre os pertences dele, sobre o caminhão.
          No silêncio de sua dor e da sua paixão ferida ela zanzeia desesperada de um lado para outro entre as paredes, porém, tomada por uma extrema decisão abriu um baú e dele retirou algumas roupas e amarrou-as numa trouxa e, sorrateiramente saiu pela janela dos fundos, tomando a estrada-de-rodagem por onde seguiu a mudança do seu amado.
          Incansavelmente ela correu num rítimo maratônico durante toda a manhã e boa parte da tarde. Pisou por doze léguas em terra batida e cascalhada por culpa da paixão. Todo percurso ela fez sobre as marcas deixadas pelos pneus do caminhão, até alcançar um lugarejo chamado de Manga. Ali, ela imaginava estar segura ao encontrar seu bem-amado, mas tudo não passou de um estúpido engano. Ele estava longe demais e jamais o encontraria.
          Seu sonho era o de estar com ele eternamente, mas perderam-se de vista para sempre. Apenas na sua mente ficaria eternizada a lembrança daquele momento do primeiro amor.
          Enquanto isso, em sua casa, sua ausência é denunciada e todos se mobilizam para encontrá-la.
          Os homens montados em cavalos vasculham palmo a palmo daquele chão, mas… nada. Diná não estava por ali. O desespero em seus pais aumentavam ao  ouvirem que ela tinha se evaporado ou sumido pelo mundo. Os minutos passavam morosos e os ânimos se aqueciam na ânsia de encontra-la viva e sã. As buscas já se prolongavam por mais distâncias e ao anoitecer todos retornavam sem notícias de Diná.
          Para onde teria ido? Era o que mais se questionava.
          O desassossego começa a se abater sobre seus pais que, chorosos, diziam tê-la perdido para sempre na carne, na honra e na alma.
          Oito dias se passam quando súbita e misteriosamente Diná aparece maltrapilha, debilitada, fétida, faminta e triste.
          A ninguém ela quis dizer por onde andara.
          Seu mundo se fechara.
          Dela uma só palavra não saia.
          Todos achavam que o seu pecado já estava pago e que seus pais a perdoaria com seu regresso. Mas dona Filó e seu Mourão eram pessoas cheias de critérios e rancores e se achavam envergonhados por terem uma filha desonrada.
          Então, afim de que todos a esquecessem e parassem de falar  seu nome, resolveram enviá-la ao exílio numa fazenda de parente muito distante dali.
          Diná foi embora e nunca mais voltou.
          Ela carregou consigo as marcas de um castigo por ter amado.  Foi também uma vítima do preconceito, do tabu, da ignorância e da brutalidade em família.

José Pedreira da Cruz
Enviado por José Pedreira da Cruz em 16/10/2005
Reeditado em 11/08/2009
Código do texto: T60152
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
José Pedreira da Cruz
São Paulo - São Paulo - Brasil
105 textos (8738 leituras)
3 e-livros (194 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 06:19)
José Pedreira da Cruz