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O HOMEM QUE ENLOUQUECEU

NOTA DO AUTOR: PEÇO PERDÃO AOS MEUS LEITORES, POIS POSTEI ESSA HISTÓRIA COM O TÍTULO "UM PLANO E SUAS CONSEQUÊNCIAS". APÓS FAZER UMA ANÁLISE MAIS DETALHADA, PERCEBI QUE ESSE TÍTULO NÃO TEM  COERÊNCIA COM O OBJETIVO DA HISTÓRIA.



                     O HOMEM QUE ENLOUQUECEU

Antes de viajar para a capital paulista para trabalhar de peão, Osvaldo era apenas um carroceiro de vinte e oito anos de idade.  Sendo ele um nordestino arretado e cabra da peste, ele levava a sua vida simples e tranquila no município de Ruminanã (que fica no interior da Paraíba), junto com seus pais. Com exceção do seu irmão gêmeo, que mora em São Paulo, todos residia em uma casa rústica que fica localizada na roça.

Nascido e criado no campo, Osvaldo nunca sentiu a necessidade de frequentar a escola. A sabedoria, para ele, estava nos homens da campo. Ele cresceu fascinado com a capacidade que os agricultores tinham de prever as chuvas com base na observação dos astros — cujo resultado saia mais exato do que qualquer previsão meteorológica feita pelos cientistas da NASA.

Apesar de nunca ter frequentado a escola, Osvaldo aprendera a ler e a escrever muito bem. Mesmo assim, ele mantinha vivo na sua mente um sonho que era impossível de realizar naquela pequena cidade. A principal cena que caracterizava a vida simples local era, em primeiro lugar, a grande quantidade de carroças de jegues que desfilavam pela cidadezinha subindo e descendo as ruas para pegar água no chafariz para vende-las.

O seu maior sonho era morar em São Paulo. Porém, o que até o momento o inviabilizava disso não era a falta de oportunidades ou algo do gênero; mas era outro problema...

Todas as pessoas que jornadeavam do município de Ruminanâ para a capital paulista e depois regressava, na maioria das vezes a lábia era sempre a mesma:

 “Oxe! Deus me livre eu voltar praquele inverno! Eu pensava que eu ia voltar pelo menos com uma moto. Mas até roupa me faltou! O dinheiro que a gente ganha lá só dá pra pagar o aluguel e pronto. Se quiser cumer, tem que fazer bico por fora.”
 
 “Oxe! Só vive lá quem é bicho, homi! Se for sair daqui  pra ir pra lá, ou fica doido trabaiando  ou fica doido com o mei mundo de coisa que tem lá. A cidade é grande de mais, homi! Pra onde você olhar, tem mei mundo de helicopto no céu.”

Embora alguns retornassem para Ruminanâ decepcionados pelo fato da cidade grande   não ter correspondido as suas expectativas, outros tiveram mais sorte. E estes, por sua vez, faziam questão de lotar os bares para contar suas peripécias:

"Oxé! Eu fui pra São Paulo pensando que lá ia ser igual a tv. Ia ter tiro prum lado, ia ter tiro pro outro, ia ter tiro pra cima, ia ter tiro pra baxo. Mas homi! Eu num digo a tú: lá num tem disso não, homi!

 ”E é, homi. E como é que lá? Porque eu penso que lá é igual ao que passa na TV. Tem gente morta pra tudo quanto é quanto.”
 
“ Mas homi. Eu também pensava igual a tú. Mas quando cheguei lá, tudo isso que eu pensava de São Paulo morreu embaxo de sete palmo de terra.
   “Quando cheguei lá arrumei emprego, comecei a ganhar dinheiro, comecei a ir pros bar, comecei a pegar muié, andei de trem, andei de metrô; e mais: nunca fui assaltado!
  “Mas meu fi, se eu for dizer o que vivi de vida lá, a gente vai ter que virar mais um mês nessa mesa tumano cachaça e comprar mais cinco boi pru churrasco.
 “ Eu gostei muito de ter ido pra São Paulo e ainda um dia se Deus quiser vou voltar pra lá. Mas só de ter juntado o dinheiro pra comprar minha moto já tô contente demais, homi.”
   
     
Preferindo viver no onírico ao invés de buscar a concretização do mesmo, toda vez que Osvaldo pensava em mudar de vida, o carroceiro se lembrava das histórias que havia ouvido sobre as pessoas que foram tentar crescer na cidade grande e acabaram retornando para o interior menor do que o anão do circo de solei. Mesmo Osvaldo tendo sido convidado para morar com Olivisberto em São algumas vezes, ele preferia continuar a levar a sua vida pacata e sossegada.
       
Até que, um dia, Olivisberto ligou para o seu pai Jesuíno e disse a ele que iria regressar para a Paraíba caso não encontrasse alguém com quem pudesse dividir as despesas residenciais.
     
 Como um senhor sábio e esperto, Jesuíno encontrou na dificuldade uma oportunidade.
     
  — Mas homi! — Exclamou Jesuíno ao telefone após ter tido sua sacada genial. — Chama Osvaldo pra trabaiá aí cum tú! O coitado tá aqui sem fazer nada.
   “Dos meus fi tudim, é só tu que tá de vida feita aí fora. Só mermo Osvaldo, coitado, é que tá do mermo jeito que quando você saiu. Ele passa a manhã todinha carregando tambor d’água pra cima e pra baixo e o que ganha num dá pra quase nada. Dos meus fi tu é o que mais me ajuda. Se Osvaldo for praír trabaiá cum tu nesse restaurante, daria pra ele dar uma ajudinha a mim e tua mãe e também comprar umas coisinhas pra ele. O que tu acha disso fi?

Após Olivisberto passar uns instantes emitindo o som de “huuuum”, sua voz estridente deu o veredito:

  — É. Eu acho que dá certo ele vim pra cá sim. Eu trabalho de carteira assinada mas parece que lá tá precisando de uns pião pra lavar prato. Vou falar com meu patrão e se der tudo certo pode mandar ele pra cá. Depois da manhã já ligo pru senhor.
 
 — Se Deus quiser vai dar tudo certo.  Agora é bom tu e mãe butar pressão nele. Porque Osvaldo é um homi teimoso. O q’ueu tem medo é dele continuar aqui e acabar arrumando um bucho. O coitado já num tem nada na vida. E arranjar um bucho logo aqui, meu fi, aí é que dá a gota serena mermo.

 — Mas num se  preocupe não pai. Agora ele vai vim. Aqui ele vai ter muita oportunidade pra crescer na vida e arrumar as coisinha dele. É claro que aqui a vida num é fácil pra ninguém. Mas com muita força de vontade e garra dá pra gente conseguir. Vou conversar com ele e pedir que que mãe também converse com ele. Ele já tem vinte e oito ano e tá mais do que na hora de buscar independência na vida.
  ” Agora vou ter que desligar. Xau pai! Fique com Deus! Depois da manhã eu ligo pra dar o resultado ao senhor. Diz a mãe que mandei lembrança.
 
—Xau meu fi. Fique cum Deus também. Pode deixar que eu digo a ela.

Depois do dia seguinte, Olivisberto ligou para seus pais e disse a eles que já estava tudo certo. Pediu para que ambos comprassem a passagem de Osvaldo e mandassem-no para São Paulo o quanto antes. Dos dois, a mãe do futuro retirante, Dona Filomena, era a que mais depositava expectativa no seu filho.

 Após toda família pressioná-lo a aceitar a nova proposta, depois de muita teimosia Osvaldo cedeu. E como forma de motivação, ele buscou se inspirar nas histórias de vida das pessoas que tiveram sucesso na mesma peripécia que ele estava prestes a embarcar.

*****************************************
   
Quando chegou em São Paulo, logo a partir do terceiro dia Osvaldo começou a trabalhar de peão no restaurante onde o seu irmão gêmeo exerce o ofício de garçom há um ano e meio.

A Correria não permitia que ele sentisse em paz no novo lugar. Passava dez horas por dia lavando pratos interruptamente, parando somente para comer e fazer as necessidades. Não trabalhava de carteira assinada e ganhava por diária o equivalente a setenta reais.  Embora Osvaldo não tivesse a obrigação de ir todos os dias, as responsabilidades em bancar as despesas da casa alugada, satisfazer suas necessidades de consumo e enviar parte do seu dinheiro para ajudar a sua mãe, fazia com que ele tivesse que ir todos os dias.

Com o tempo, a sua capacidade de raciocinar aos poucos foi se desvanecendo. A rotina repetitiva foi se tonando automática. E assim, Osvaldo ia ficando incapaz de observar e absorver com detalhes o ambiente a sua volta constituído de grandes prédios, aviões, helicópteros e tudo de comum que era tão incomum ou inexistente na sua terrinha natal.   O seu pensamento foi se tornando cada vez mais mecânico — semelhante aos dos trabalhadores da Revolução Industrial que trabalhavam em condições escravas exercendo como única função o encaixe de uma peça específica. Logo logo, nem ele percebeu que havia se transformado em um “robô” lavador de pratos.

Olivisberto também labutava feito um jegue.  Só que este — embora faturasse um pouquinho mais —, trabalhava de carteira assinada e exercia um ofício de natureza mais complexa pelo fato deste exigir a capacidade de lidar com as pessoas.

Dia entrava e dia saia. E com o tempo — passados mais de um cinco meses em São Paulo —, o único objeto que passou a ocupar a mente de Osvaldo foi terrível e monótono prato. Todas as formas redondas que ele via em qualquer lugar por onde passava, a sua mente relacionava o tal componente geométrico ao prato branco que em tantas quantidades eram lavados por ele durante parte do dia.

Havia vários objetos existentes na paisagem urbana que trazia esse pesadelo em forma de imagem à tona; dentre eles estavam: tampa de escoto, roda de carro, relógio, cano, tubo, rosquinha, tampa de garrafa, lata cilíndrica, a lua, laranja, bola, volante de carro, olhos, cabeças, etc. E esse grau de desalinhamento nos parafusos da mente de Osvaldo ocorreu apenas no respectivo curto prazo.

Com o tempo os devaneios começaram a se manifestar de forma bem mais grave. Osvaldo começou a ter dificuldades em se comunicar com as pessoas. Quem interagia com ele, ficava sem entender toda vez que Osvaldo falava a palavra “prato” repetidas vezes e começava, sem cessar, a dissertar sobre coisas redondas.

Quando Olivisberto notou isso, este ficou bastante preocupado ao perceber que os parafusos desajustados do cérebro do seu irmão estavam ficando enferrujados. Olivisberto ligou para os seus pais e contou para eles tudo sobre a alteração de comportamento do seu irmão.
Após todos chegarem a um consenso, decidiram que o melhor a se fazer era tirar Osvaldo do emprego e o mandarem de volta para a Paraíba.
Não concordando, Osvaldo fugiu de casa por período indeterminado sem deixar uma única pista para onde iria.


DOIS MESES DEPOIS....
 
Agora Olivisberto mudou-se para uma casa menor que a anterior que fica bem mais distante do seu local de trabalho porém pagando um aluguel bem mais em conta.

Quando ficou sabendo do desaparecimento do seu filho por telefone, Jesuíno arrumou suas malas e partiu para a capital paulista na missão de encontra-lo.
 
Ele não havia revelado o verdadeiro motivo da sua vigem para a sua esposa. E como Filomena era uma mulher de aspecto frágil, Jesuíno temia que o quadro de saúde dela piorasse caso ela ficasse sabendo do desparecimento do filho. Também ele pediu para que Olivisberto não contasse para ela e para nenhum amigo seu que residisse em Ruminanã.
 Assim que chegou em São Paulo, Jesuíno cadastrou os dados de Osvaldo em projetos que tem por finalidade encontrar pessoas desaparecidas. Mas o seu maior desafio — além de ter que lidar com o arrependimento por ter tido a ideia de mandar o seu filho para SP — era passar a maior parte do dia distribuindo e pregando nas paredes cartazes com a foto de Osvaldo —sendo que embaixo da foto tinha o nome em destaque: “DESAPARECIDO” e as informações de contato.

Como Olivisberto tinha que trabalhar de segunda à sábado, ele só ajudava o seu pai aos domingos. E foi em um domingo desses que quando Olivisberto e Jesuíno foram procurar Osvaldo no centro de São Paulo, nas imediações da igreja da Sé, os dois se separaram e combinaram para se encontrarem naquele mesmo ponto às quatro horas da tarde.

Passados pouco tempo depois que de os dois partirem — já quando Olivisberto havia sumido das imediações—, Jesuíno ia andando quando um transeunte que por ali passava apontou para o cartaz que ele levava e o abordou:
 
— Senhor, com licença. Tenho certeza que acabei de ver esse mano da foto lá dentro da estação. Ele tá sentado em um banco onde passa o metrô da linha azul.

Sem perder tempo, Jesuíno meteu o pé a correr em direção ao local.
Ao entrar na estação, ele pulou a catraca e foi direto para o lugar onde passar o metrô da linha azul. O metrô já estava prestes a partir quando ele desceu a escada rolante.

Após avistar um homem de costas vestindo uma roupa no estilo caipira que lhe parecia familiar entrando em um vagão, Jesuíno correu e entrou no mesmo vagão pela mesma porta pouco antes dela se fechar.

Ao colocar a mão no ombro direito do homem e girá-lo, fazendo com que um ficasse de frente para o outro, Jesuíno ficou decepcionado. Lá estava ele, Olivisberto em carne e osso, irmão gêmeo univitelino de Osvaldo.



SETE MESES DEPOIS...

Mesmo recebendo a notícia de que Filomena estava internada e muito mal da saúde, Jesuíno se recusou a voltar para a Paraíba sem Osvaldo em detrimento da saúde da sua esposa. Olivisberto também tomou a mesma decisão. Quem acabou arcando com as responsabilidades de cuidar dela foi a sua única irmã, Dona Mercedes.

Enquanto Jesuíno procurava desesperadamente pelo seu filho, ele tinha começado a fazer bicos para ajudar a bancar as despesas da casa onde morava com Olivisberto. Até que, em uma manhã de outono, Jesuíno recebera a triste notícia pelo telefone de que Filomena morrera de pneumonia.

Filomena faleceu crendo que o seu filho Osvaldo estava vivo, saudável e feliz na cidade grande. Isso porque desde quando ele havia desaparecido, Jesuíno pediu para que Olivisberto se passasse por Osvaldo sempre que ela quisesse falar com ele pelo telefone. Também se sentindo culpado pelo desaparecimento do seu irmão gêmeo, Olivisberto decidiu seguir o plano do seu pai enquanto Osvaldo não fosse achado.

Como os irmãos eram gêmeos univitelinos, eles só se diferenciavam mesmo pelo comportamento. Mas quanto a aparência, fala e o tamanho, ambos eram perfeitamente iguais.

Quando Olivisberto morava em Ruminanã, não só Filomena como também muitos habitantes locais facilmente confundia ele com Osvaldo.

E foi assim, que durante sete meses, toda vez que Filomena ligava para Osvaldo em São Paulo, Olivisberto atendia e se passava pelo irmão. Em todas as conversas, ele iludia a sua pobre mãe e fingia que estava indo tudo bem e de que o seu sonho de morar na cidade grande estava em processo de realização. Mesmo assim, era um grande desafio para ele manter o seu sangue frio, não chorar e não   contar a verdade toda vez que ela ligava.

Após a morte de Filomena, tanto Osvaldo quanto Jesuíno decidiram que iriam tocar a vida na cidade grande enquanto as circunstâncias da vida não os levassem de volta para o interior. Mesmo sentindo abalado e enfraquecido pelas perdas familiares, Jesuíno continuou no seu ofício de garçom e a ajudar seu pai aos domingos a encontrar o desaparecido.

A situação de Jesuíno era mais delicada. Sentindo-se traumatizado e angustiado com ambas as perdas, Jesuíno começou a participar de grupos de apoio onde ele podia compartilhar suas profundas dores emocionais com pessoas que estavam passando por momentos semelhantes. Sendo avisado pelo seu filho de que no restaurante havia vaga para lavador de prato, sem pestanejar Jesuíno se recusara. Ele acabou conseguido um emprego de porteiro em um prédio. Jesuíno buscava gastar o mínimo de energia possível para que nas horas vagas a gastasse na busca pelo seu querido filho Osvaldo.

O principal fator que levou os dois a não regressarem mais para Ruminanã, foi a repercussão negativa que esta história teve depois que Osvaldo ligou para um amigo seu e contou para ele tudo que havia escondido da sua mãe nesses últimos tempos. A história espalhou-se pela cidadezinha e as pessoas começaram a cometeram sobre o quê, do ponto de vista delas, “foi um ato de pura crueldade cometida por parte do pai e do filho com a pessoa que deveria ser a primeira a saber”. Porém, indo na contra partida disso tudo, uns boêmios locais argumentavam: “acreditando que seus dois filhos estavam bem, a vovô morreu contente e feliz.”

Mesmo estando ambos residindo em São Paulo, o pai e o filho tomaram conhecimento da repercussão por meio do rádio.  
Helenilson Martins
Enviado por Helenilson Martins em 12/10/2017
Reeditado em 14/10/2017
Código do texto: T6140681
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Helenilson Martins
Santo André - São Paulo - Brasil, 21 anos
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Helenilson Martins