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A Pensão da Dona Maria

Após o vestibular, o garoto desligou-se da família e foi morar bem distante, numa pacata cidadezinha de cavalos pastando, vacas mugindo, a vida bela, simples.
Contudo, a paisagem que nos olha, às vezes, engana.  Dona Maria era sádica, de cabelos cinza pintados com a cor do tempo, filosofava sobre as vizinhas e coisas alheias.
A pensão da dona Maria tinha a satisfação inerente ao sofrimento dos outros. Não havia chão, só telhado quebrado e chuveiro gelado. Não era engraçado ser o riso do palhaço.
O garoto ficou anos trancado num quarto quadrado, 3x4, abafado. Havia apenas uma fresta para seus sonhos escaparem, a pequena janela de vidro feita de paisagem e areia. Ali pelas noites, enterrava todos os seus medos, sem espaço ou qualquer palavra.
 De repente, na juventude da primavera da vida, ao olhar a lua fugindo pela janela, a saudade se afastava, em seu olhar nascia uma lágrima, a solidão paria, assim, um poeta.
E agora, nele, apenas havia um coração preso sob a branca camisa.
O seu poeta conservou durante anos o gosto do sal amargo da lágrima, como a vida ensinou, amor. Conservou como o sonho azul do mar e seu amor, sal. Pelo chão, diversos papeizinhos amassados...  Enxugava as lágrimas com a poesia, o sentimento, e a palavra perdida.
Passaram-se meses e por fim a porta está entreaberta, livrou-se, formado, cidadão do mundo!
Agora, o garoto fica sentado, distante de tudo, na ponta da janela, na mesma direção da lua. Por lá escreve e procura a doçura dos sonhos.
Doçura, isto mesmo! Farelos doces caem da lua. A noite está recoberta pela docilidade dos sonhos encantados.
Hoje, enquanto sol e lua brincam de se esconder, a cidade dorme com as janelas abertas, distraídas, para não perceberem que pouco a pouco o céu anoitece, sem sentirem a triste dor da noite e seu fim.
O garoto poeta não sofrera mais. A luz está apagada para não acordar ninguém, somente ele, estrela e lua vagam pela solidão das ruas. Par romântico, noite fria e nua. E uma de suas delícias era nunca dizer para a vida: "- Boa noite querida !".








Vitor Berigo
Enviado por Vitor Berigo em 25/08/2007
Reeditado em 20/05/2010
Código do texto: T623473
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Sobre o autor
Vitor Berigo
São Paulo - São Paulo - Brasil, 32 anos
53 textos (2827 leituras)
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Vitor Berigo