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A Lenda Real


A taça de prata havia pertencido a um rei da Espanha e era cortejada por todos. Ficava no alto da torre do castelo de Bilbao, ex-residência de sua alteza. A taça era tão cobiçada e importante que poucos tinham o prestígio de poder vê-la. Só aqueles autorizados pela corte espanhola. Era um patrimônio nacional e o mais bem cuidado de todos.
O rei Dom Juan Pablo González III governou o império espanhol há seis séculos atrás, em algum momento perdido na história. Foi marcado por sua astúcia, inteligência e mais do que isso, conhecimento. Diziam que o rei não seria tão britânico se nascesse na Grã Bretanha. Era tido como Lorde pelos britânicos. Uma educação e uma cortesia vistas por poucos no Velho Mundo. Sua alteza passava a maior parte do seu tempo lendo e estudando os mais variados assuntos. E o mais curioso era que sempre antes do estudo o rei tomava três taças de vinho. A taça de prata maciça era muito pesada e mais parecia uma taça de conhaque. Era larga e grande. Tinha as suas iniciais embaixo.
O rei, muito católico, acreditava que o vinho, por representar o sangue de Cristo, abria a mente para a entrada dos conhecimentos. Por isso sua taça deveria ser larga, como a mente. A prata representava a nobreza da família real e o peso deveria lembrar-lhe do tamanho do poder e da responsabilidade cada vez que carregasse a louça. A taça era algo sagrado para o rei. E o que era sagrado para o rei era também sagrado para a Espanha.
D. Juan III morrera defendendo seu império como um soldado ao lado da sua taça, e isto o tornou ainda mais memorável. Sua taça fora guardada como símbolo da família a pedido da princesa. E então a cada título de nobreza dado pela corte, a família ou a pessoa recebia uma réplica da taça. Este se tornou um ritual oficial nas cerimônias de títulos de nobreza. O castelo do rei tornara-se um museu e a princesa ordenou que outro castelo fosse construído para a família real.
A torre onde se encontrava a taça era guardada por centenas de guardas e poucos tinham acesso. De todos os objetos pessoais do rei, a taça era a única que não era exposta no museu que se tornara a residência real. Só eram autorizados a entrar aqueles que tinham títulos de nobreza ou aqueles que receberiam, pois o ritual de nomeação era feito na torre sagrada.
No século XVIII a Espanha estava prestes a entrar em batalha com o Reino Unido e a coroa espanhola, ordenou que a taça sagrada, fosse levada para a Nova Espanha que se extendia da América Central ao Norte da América do Sul. Um forte esquema de segurança foi armado e o mais seguro navio do mundo foi construído. Uma operação gigantesca fora articulada, custando quilos de barras de ouro aos cofres reais.
O navio partira escoltado por outros dois e parecia uma fortaleza deslizando sobre as águas do oceano Atlântico. A Espanha tinha certeza que a taça estava totalmente segura.
Mas um navio inesperado, de bandeira inimiga, conseguiu atirar exatamente no centro do navio espanhol. E o que parecia uma fortaleza era agora um frágil barco entrando a deriva. A taça estava tão trancada e bem protegida que não conseguiram retirá-la a tempo e o objeto mais sagrado da Espanha estava agora abaixo das águas profundas do Atlântico.
Foi uma desilusão tão grande para a Espanha que passaram a ver a taça como um símbolo de azar. Nas duas grandes batalhas em que estivera fracassara. Decidiram que o rei estava errado quanto aos poderes cabalísticos da taça. A taça era na verdade um símbolo de traição - resolveram. A taça fizera o rei acreditar que podia lutar e não o deu forças quando mais precisou. E a taça fizera os construtores do navio acharem que estavam fazendo algo seguro, quando na verdade não passava de uma farsa.
A nobreza e os cientistas agora têm um novo ritual: o ritual da taça livre. No qual jogavam no mar taças de prata na virada do ano para espantar o azar e afogar as energias falsas.
Malluco Beleza
Enviado por Malluco Beleza em 26/08/2007
Código do texto: T624256

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Sobre o autor
Malluco Beleza
Salvador - Bahia - Brasil, 30 anos
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