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Gustav

O sino da igreja badalou preguiçosamente meia-noite, no momento em que os primeiros raios de sol começaram a iluminar o horizonte. O calor era escaldante. Gustav levantou-se, sem escovar dentes, lavar rosto, nada. Nem um gole de café. Simplesmente vestiu as grossas roupas e saiu para a manhã enegrecida. Ao abrir a pesada porta, puxou as grossas golas de lã de carneiro por sobre as orelhas. Seu corpo suava a bicas. Seus pés estavam congelados.

Ao longe, um som estridente e inaudível cobrou-lhe a hora. Era a fábrica. A terrível fábrica. Era a vida o chamando para a inércia do nada a fazer pela vida, dia após dia, noite após noite. Cobrando a responsabilidade irresponsável de quem não é. Olhou longamente à direita e à esquerda, antes de descer o primeiro degrau da escadinha de madeira que o separava da rua barrenta.

As casinhas, todas simetricamente iguais, com suas escadinhas de madeira e corrimão improvisado de barrinhas de ferro 1/8 e uma luminária amarelada clareando o escuro, se perdiam de vista para onde quer que se olhasse. Em cada alpendre, um Gustav se preparava para enfrentar a sina de quem não tem, num lugar onde quem não tem, não tem. Era uma imagem de espelho, infinitamente refletida à direita e à esquerda.

Gustav não gostava de espelhos. Mas era um escravo, como todos. E não tinha direitos, como todos. Não tinha que gostar ou deixar de gostar de nada... Esticou a perna e deu seu primeiro passo em direção ao primeiro dos 3 degraus e todos os Gustavs fizeram o mesmo movimento, rítmico, cadenciado. O bafo infernalmente quente do vulcão que lhes servia de proteção e ameaça, varreu a rua, secando imediatamente a lama. Finalmente seus pés se aqueceram.

Se tivesse, Gustav gostaria de estar numa praia, sentado, olhando o sol nascer. Se tivesse, Gustav gostaria de viver. A longa procissão de Gustavs terminou de descer para a rua e seguiu infinitamente numa fila muda, de cordeiros ao direção ao abatedouro. Gustav era o primeiro e o último. O dia, também.

A fábrica apitou longamente de novo, cobrando um possível atraso, mas ninguém acelerou o passo. Escravos não têm pressa. Não vão a lugar algum. Na enorme entrada entalhada em madeira de lei, podia se ver o entalhe do nome precioso de quem tem. E quem tem, lá de cima espreitava impacientemente a longa fila sendo engolida vagarosamente.

Cartão ponto. Plec-plec-plec-plec-plec-plec-plec-plec-lec. Plec-plec-plec-plec-plec-plec-plec-plec-lec. Plec-plec-plec-plec-plec-plec-plec-plec-lec. Plec-plec-plec-plec-plec-plec-plec-plec-lec. Mastigando vagarosamente... Implacavelmente... Eternamente...

Gustav, deu uma última olhada por sobre os ombros e viu um raio dourado de sol surgindo por cima da boca enegrecida do vulcão. Do outro lado deveria estar sua praia. E em algum lugar lá, bem distante, sua vida ficara sentada, observando o sol nascente.

Plec-plec-plec-plec-plec-plec-plec-plec-lec.  Plec-plec-plec-plec-plec-plec-plec-plec-lec. Plec-plec-plec-plec-plec-plec-plec-plec-lec. Gustav foi cruelmente engolido sem emitir um ai...

Edmundo Pacheco
Enviado por Edmundo Pacheco em 27/08/2007
Código do texto: T626543
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Sobre o autor
Edmundo Pacheco
Matinhos - Paraná - Brasil, 56 anos
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