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Oração por Oradour-sur-Glane (versão actualizada de 2007 /2011 depois de uma visita ao local)

Todos os factos históricos e pessoais relatados nesta história são verídicos, e esta é também a minha modesta homenagem aos mártires

Oração por Oradour-sur-Glane
No dia 10 de Junho de 1944  a 3ª Companhia do regimento das SS “Das Reich” que vinha do sul em direcção à frente normanda parou na Vila de Oradour-sur-Glane situada mais ou menos a meio de França. Enraivecidos pelos constantes ataques dos resistentes que os assediaram durante quase todo o percurso massacraram praticamente toda a população da localidade -643 homens, mulheres e crianças, sobrevivendo muitos poucos. Depois da matança, e ainda não saciados por caos destruíram o povoado, a tiros de canhão e deitando fogo às casas. Esta foi a pior atrocidade da história francesa da Segunda Guerra Mundial. Em recordação dos mortos e para que a curta memória dos homens não a esqueça, a Vila foi mantida tal como os nazis a deixaram no final daquele dia sombrio. Li esta história na minha infância e nunca mais a esqueci.
Passaram 60 anos. Em finais de Agosto de 2004, eu um agnóstico assumido, mas de educação e morais católicas e por motivos espirituais que não são para aqui chamados, pois não é carácter destas linhas este tipo de interioridades, decidi ir até a comunidade católica de Taizé, uma aldeia a 400km de Paris. Neste espaço de reflexão convivem durante uma ou mais semanas pessoas de todos os locais do planeta, as idades e também credos; é um espaço de ideias e ideais livres, de livre aceitação, de comunhão de experiências pessoais, de interiorização, de retiro, um espaço de criação e convívio onde não é raro cruzarem-se pessoas de países que estão em guerra, mas que ali se dão em paz como em talvez nenhum outro local do mundo; lá não há doutrinação, ou lavagens ao cérebro de qualquer espécie, lá há isso…partilha, comunhão de nós para com os outros, um espaço onde se fala, mas sobretudo onde se houve, onde se cresce. Depois de voltar soube que ninguém daqueles que eu lá conheci – e foram muitos - ficou indiferente àquela semana.
Quando regressávamos de autocarro e mais ao menos na altura em que vi uma placa a dizer que nos encontrávamos nas imediações de Oradour-sur-Glane alguém sugeriu que se fizesse uma oração tal como se fazia em Taizé, pois estava na hora dela. Apesar de não ser o meu credo senti um arrepio na espinha e tirei os auscultadores para ouvir as vozes daqueles quarenta e tal portugueses e portuguesas que rezavam por eles, pelo espírito da comunidade, mas também pelos mortos. Este foi dos momentos espirituais mais marcantes da minha vida.
Ao falar mais tarde com a pessoa que propôs a oração e com outras soube que elas desconheciam a história da matança; apesar de não ser religioso, ainda hoje tenho a impressão que a invocação dos meus companheiros e companheiras não foi casual, que houve algo que os fez rezar logo ali, que houve algo de inexplicável  bem dentro deles,  algo fez surgir do nada aquela
Oração por Oradour-sur-Glane
2007
Este ano, quando passam 63 anos sobre o massacre tive a oportunidade de ver a aldeia ao longe (a 100 metros, estava fechada, pois hoje a aldeia é um museu...)mas demasiado perto para me aperceber da bestialidade dos nazis: nada na aldeia está em pé a não ser as paredes, não há focos de luz a iluminar as ruínas, apenas um silêncio sepulcral que dura desde há mais de 60 anos, um silêncio de morte, a morte nazi que arrepia quem a vê, mesmo a mais de 200 metros como eu a vi (a aldeia fechava para visitas às 18h e nós chegamos às 20h…) Quem defende o nazismo deveria visitar esta aldeia e perceber que o lado negro da humanidade existiu e que deve ser extinto quando ressurgir com todas as nossas forças e amor, pois só o amor poderá sepultar definitivamente as trevas…
Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 28/08/2007
Reeditado em 28/07/2011
Código do texto: T627935
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Sobre o autor
Miguel Patrício Gomes
Portugal
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Miguel Patrício Gomes