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Sábados Nostálgicos

A festa não estava tão ruim (por ser uma festa talvez, sou mesmo é do tipo botequeiro), mas não dava pra ficar ali. Pessoas agradáveis, mulheres rindo despudoradamente, outras que prefiro não descrever. Amigos que admiro estavam ali, mas não dava mesmo pra ficar ali. Fui pra um canto e tentei fazer uma ligação. Vários toques e aquela música insuportável da caixa postal pra me irritar ainda mais (e a voz da moça do ‘após o sinal’ me fazia querer abrir o zíper e desencadear aquela puta bronha). Tentei mais algumas vezes, dezoito precisamente, e nenhuma resposta. Precisava que aquela ligação fosse recebida, que aquela pessoa viesse a meu socorro e tornasse minha noite um pouco melhor. Andei de um lado pro outro, troquei poucas palavras, acendi um cigarro recostado numa parede com muitos quadros e me deixei ficar ali por algum tempo. Peguei o celular e tentei uma última vez, sem resposta. Cacete.Realmente tinha que sair dali, tinha que ir pra um lugar mais sujo, beber num copo trincado, um lugar onde a fumaça do meu cigarro não fosse o mais importante.Saí dali dizendo apenas ‘até logo!’.Esse negócio de organizar festas pra mostrar pros outros o quanto você conseguia ser mais que alguém não é pra mim, tenho um apartamento pequeno, uma kitinet na verdade, nunca convido ninguém e mesmo se quisesse não poderia porque não tem espaço pra muita gente.Na portaria do prédio enquanto aguardava o táxi, acendi outro cigarro e arrisquei novamente outra ligação. Quando o táxi chegou nem percebi o veículo até o motorista buzinar chamando minha atenção, desisti do telefonema. O taxista, um velho de camisa xadrez que trazia um charuto atrás da orelha, veio o caminho todo tagarelando e eu apenas assentia com a cabeça, nem prestei atenção no que estava dizendo. Parou o carro na esquina dizendo que o retorno ficaria mais fácil pra ele. Quem é que paga a porra da corrida mesmo? Ta, mais fácil pra ele então. Desci do carro e nem obrigado ele ouviu, o puto. Poucos passos e eu já estava em frente ao bar, meu querido bar, nessa hora nada me seduzia mais do que aquelas luzes cretinas da fachada.Sentei na cadeira quebrada de sempre junto dos amigos de sempre, não quis esconder a expressão de desagrado (pra não falar cara de cu) que trazia e ninguém perguntou meus motivos. Grandes caras. Pessoas realmente incríveis ali naquela mesa, cada um com sua história e muitas vezes todos juntos numa só. AMIGOS MARAVILHOSOS. Fiquei ali na velha mesa suja, ouvindo músicas que me fazem bem.Alguém me chamou pra uma partida. Adoro sinuca. Foi uma partida hilária, estávamos já um tanto quanto bêbados. Perdi pro Jonas!Lembrei da ligação que tanto precisava fazer, agora já não preocupava tanto. Ela devia estar dormindo, ou saiu com as amigas (aquelas gostosas). Ou tava cagando (cagando pra mim).Quando entro no bar me esqueço das horas, já estava quase amanhecendo. Me despedi do pessoal, desta vez não poupei abraços. Dolorosamente fui me despedindo do meu copo já vazio.Moro ao lado do bar o que facilita minha volta já não conseguindo ordenar os passos. Subi as escadas, acho que tinha esquecido pra que serve o elevador, na porta de casa tudo voltava ao início. Eu voltava a ser a mesma velha e pacata pessoa de sempre. Embriagando minhas noites. Poupando demonstrações afáveis e maculando novas tacadas.

Klaus
Enviado por Klaus em 31/08/2007
Código do texto: T632206

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Sobre a autora
Klaus
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Klaus