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Na esquina

Não vou sair de casa porque estou sem meus olhos. Perdi durante a noite, andando pela rua. Nem percebi, não senti dor. Cheguei aqui e percebi que estou sem eles. Tô com esses buracos na cara agora. Tava descendo uma rua curtinha e lembro que tinham dois moleques numa calçada, pareciam irmãos, o mais velho ensinava o outro a "deixar bem apertadinho, pra não perder o melhor", é o que falavam quando passei. Virei a esquina e ela tava recostada no poste, a perna fina, comprida, o decote da blusa deixava a mostra o colo tatuado. Não consegui evitar o encontro do nosso olhar. Ela ta sempre ali, sempre do mesmo jeito, esperando sempre. Parei em frente a uma loja de cds do outro lado da rua e da vitrine podia ver ainda aquelas pernas finas.
Ainda não sei como perdi meus olhos. Devo ter deixado na mesa, ou me roubaram.
Gosto de caminhar sabe, durante a noite na maioria das vezes. Meu joelho ta esfolado, também não lembro como, ou se, eu caí. Aí eu continuei caminhando.
O bom de andar por aí no escuro é que você só enxerga o que quer enxergar, o que não quer você finge que não viu. É simples, sem erro. Tem muito vira lata vagando na noite e eu já dividi muito pão dormido com eles. Mas não podem ter me arrancado os olhos.
Devo ter sentado num dos bancos na praça, sempre faço isso. Se você fizer um vídeo, quinze minutos que seja, você terá um ótimo material pornográfico, pra todos os gostos mais sacanas. O pessoal dos prédios apagam as luzes e ficam entre as cortinas observando toda a movimentação por entre as árvores. É uma delícia ficar ali sentado escutando o som baixinho dos casais trepando! Mas agora sem meus olhos não vou mais sair de casa.
Encontrei o Juarez, verme, ele tava subindo o zíper e a menina devia ter uns dezessete anos. A boca vermelha não confundia, dezessete anos. Passou por mim e nem me percebeu. Rola a maior festa pelos cantos daquela praça. A menina limpou a boca e segurou o braço dele.
Pra algumas pessoas o passeio noturno não faz muito bem não. A senhora tava gritando, e o moleque lá longe com a sacola na mão, o mesmo que tava ensinando o irmão a apertar bem pra não perder o melhor. É por isso que ando por aí. Gosto de ver gente de verdade. Gente que cuida do irmão menor e ensina o essencial, gente que agacha atrás de um murinho de praça e morde, gente que encosta a perna fina no poste e cobra caro, gente que grita e depois senta na calçada e começa a rir, depois chora sem parar. Gosto de ver os vira-latas brigarem pelo pedaço de pão dormido.
Não sei o que aconteceu depois. Deitei no banco, olhei mais uma vez pra pernas finas (agora em movimento). Cobri meu rosto com meu capote surrado e acordei aqui, sem meus olhos e esses buracos.
Não senti dor nenhuma, nem me lembro o que aconteceu, arrancaram os dois e ainda esfolei o joelho. Caralho!
Vou vender minha televisão e comprar um ray ban. O car vai precisar de uns óculos também, sou míope. Ou era. Mas não vou deixar que me descubram e venham buscar o resto, ah isso não. Por isso não vou mais abrir a porta.
Vou arrancar meus pés e não vou mais sair daqui, já que não posso ver toda a sujeira que tem lá fora não quero também me mover de onde estou. Sem pés, sem olhos. Ninguém vai me encontrar. E quando enxergarem através dos meus olhos tudo aquilo que seus não podem ver entenderão porque deitei naquele banco e cobri o mundo com meu capote.
Quando virar a esquina você vai entender o que tô falando. Mas eu vou ficar aqui, e vou te olhar da janela, não vai ser diferente na sua noite. E você não vai me ver porque me escondi atrás dos buracos que ficaram na minha cara.
Klaus
Enviado por Klaus em 31/08/2007
Código do texto: T632236

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Sobre a autora
Klaus
São Paulo - São Paulo - Brasil
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