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Não existem assombrações!

Ele não acreditava em lobisomens. Nem em cumaganga. Muito menos acreditava em Mula-sem-Cabeça. Não, definitivamente não existiam fantasmas pra ele. Era tudo bobagem de gente lesada. Assombração? Ah, que palhaçada! Uma fantasia, crendices populares...

Mas por via das dúvidas era bom trazer um terço na mão. Só por precaução, claro!

Não que uma assombração fosse aparecer na estrada, no meio da noite, no meio daquele deserto. Aquela estrada era sinistra. Era escura, era ladeada por árvores sombrias. E alguém disse que no tempo do avô dele morreu um homem naquela estrada. Morreu. E outro falou que ali passeava a Mulher-de-Branco, que uns diziam ser mãe do que tinha morrido, outros que era noiva ou irmã caçula. Outros afirmavam, que era nada não. Mas assombrava a estrada assim mesmo.

Eram só lendas!

Acreditar em Deus nunca é demais. Rezar também não. Por isso ia mastigando umas “avismaria” pelo caminho. Assim nenhum lobisomem, capeta ou Mulher-de-Branco ia poder lhe fazer mal. Até porque... não existiam mesmo.

Tanto não existiam que ele nem mudou o passo quando o vulto sinistro de chapéu preto surgiu na beira da estrada. Não mudou o passo, mas o passo ficou mais apertado, meio desordenado. Só as rezas que aceleraram. Uma fila de:

“Avismariacheidigraçasenhoréconvosnitofrutodovossoventrejisus... rugai por nós agora e a hora de noss morte...”

“Meu amigo, já é meia noite?”

Perguntou assim o vulto na beira da estrada, chapéu preto na cabeça.

Ia emendar carreira pelo mesmo caminho que viera, já que a reza não havia dado jeito. Não que fosse uma assombração. Mas essa pergunta, de um vulto, chapéu preto, a meia noite, na estrada deserta entre a Baixa da Égua e o Poção do Chico:

“Já é meia noite?”

A carreira já estava armada quando do caminho de volta, no meio da reta traçada para fuga ela apareceu. Tava toda de branco, só a cara que não se via, coberta pelo véu:

Paralizou-se as pernas, a boca tentou salvar o resto do cético:

“Avismariacheidigraçasenhoréconvosnitofrutodovossoventrejisus... rugai gora e a hora de noss morte... Amém! Amém!”

A mulher toda de branco deu um passo. Será que aquela assombração não tinha medo de reza? Ou talvez aquilo que ele dizia era mais queixo batendo que reza. Mas o fato é que o vulto na beira da estrada levantou o braço e pela última vez perguntou:

“Ei, já é meia noite mulher de branco?”

Nem viu as macegas de mato que ia pulando, nem deu conta das três cercas que pulou sem nem encostar. Disparou. As pernas substituíam bem a boca na carreira. E rezar com as pernas é menos divino, mas tem grande eficiência contra assombrações.

Que, diga-se de passagem, não existem.
Guilherme Drumond
Enviado por Guilherme Drumond em 25/10/2005
Código do texto: T63417
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Sobre o autor
Guilherme Drumond
Rio Bonito - Rio de Janeiro - Brasil, 37 anos
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Guilherme Drumond