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O vegetariano

Era um desafio pra ele entrar lá no açougue. Logo ele, vegetariano convicto? Naquele templo maldito dos carnívoros? Ah, era o maior pesadelo dele. Porém eram ordens médicas para sua mãe:

— Comer bastante fígado, ouviu Dona Julia?

E sabe você como são hipocondríacas as mulheres. E ele tinha que ir lá, comprar o fígado.Fiel aos seus laços maternais. E não adiantava lembrar a mãe do ácido úrico, nem contar histórias assustadoras sobre carne. A Dona Júlia era categórica:

— São ordens do médico! Vai lá e me trás um quilo de fígado. Ah, e bem fresco tá?

Essa era a pior parte. Bem fresco? Arg!

E o açougueiro sabia do vegetarianismo dele. E sorriu quando ele entrou no açougue:

— Olá, como posso ajudar o amigo?

Ele respondia secamente com o pedido, tentando transportar as palavras da mãe sem deixa-las tocar sua boca. O açougueiro dava uma risada, sem sentido, aparentemente. E abria o balcão refrigerado. Ele fazia força e lembrava:

— Fresco, por favor.

O açougueiro se ergueu repentinamente:

— Opa, não se preocupa meu amigo. Matamos esse boi hoje mesmo, pela manhã.

— Não precisa me lembrar disso, ok? Basta me dar o fígado.

O açougueiro já estava com a peça sobre a mesa suja de sangue:

— Tá bom assim?— Ergueu o fígado sangrando no ar.

— Tá ótimo...— Virou o rosto e deu de cara com pés de porco salgados numa bancada. Virou novamente o rosto, mas desta vez topou com uma peça de carne, que devia ser uma picanha pingando. Respirou fundo e virou-se para a rua.

— Tá tudo bem com o amigo?— perguntou o açougueiro.

Ele limitou-se a acenar meio que pedindo pressa. A faca lá do outro lado do balcão cortava com agilidade o órgão bovino.

— Sabe, eu gosto deste trabalho por conta do cheirinho de sangue. Êta cheiro bom, não acha? Hum! Imagina um filé sangrando! Ah, delícia...— Ia discursando sobre filés mal passados e carnes mais macias.

Ele resolveu ignorar o açougueiro que demorava de propósito. Ele apenas fechava os olhos tentando forçar o tempo a passar mais depressa. Pensava no mal que fazia comer carne. Era uma loucura, e uma covardia com as animais. Era uma brutalidade. Coisa de bárbaros.

— Pronto! Um quilo de fígado fresco, sangrando...

Ele pegava apressado.

— Obrigado.

— De nada amigo! Volte sempre!

Ia pra casa abatido. Pra um vegetariano era como visitar a sala dos horrores. Estava quase tendo um treco. Mas cumpriu seu dever de filho. E trouxe para sua casa aquele pedaço de uma criatura que um dia andou sobre a terra.

De noite no jantar teve que aturar sua mãe, com o prato cheio de fígado, mal passado, purê de batata. Olhou seu prato, seus legumes, suas folhas.

Olhou aquele pedaço de carne morta, sangrando.

Deu água na boca dele. Ele virou o rosto, e encheu a boca de cenoura.
Guilherme Drumond
Enviado por Guilherme Drumond em 25/10/2005
Código do texto: T63419
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Sobre o autor
Guilherme Drumond
Rio Bonito - Rio de Janeiro - Brasil, 37 anos
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Guilherme Drumond