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Cara ou coroa

Dentro da casa, ela estava entre os dois. Um suava, nervoso, aflito. Tinha medo. O outro estava irritado, e bufava de raiva. Ela, entre os dois, sacudia a cabeça confusa:

— Não dá!

— Como não dá?

— É, como não dá?

— Não posso fazer isso. Não posso escolher...

— Mas tem que fazê-lo. Isso tem que ser resolvido hoje!

— Você vai escolher quem? Quem?

— Não!

E cobria o rosto com as mãos sacudindo a cabeça. Se levantou e tentou fugir para a cozinha. Eles a seguiram. Um correndo, queria pressionar ela. O assustado, com medo de ficar sozinho.

— Não posso escolher entre vocês dois.

— Porque não?

— É, porque não?

— Por que amo os dois. Sabem disso. Não posso viver sem vocês dois. Não posso escolher entre ser triste ou ser triste. Pois sem um de vocês eu não sou feliz.

— Mas não posso mais continuar vivendo assim...

— E se a gente...

— Não. Não escolho e tá acabado.

— Então eu é que vou embora!

— E se a gente... É...

— Não! Não vai!

— Vou! Fica aí com ele, que eu não posso dividir você com mais ninguém...

— Mas se a gente, resolvesse... Sei lá, fazer uma aposta. É...

Todos ficaram mudos. Parecia perfeito demais para ser verdade. Uma aposta. O vencedor ficaria com ela. O perdedor iria pra bem longe. Ela ficou confusa. Seria uma forma de resolver o problema sem magoar ninguém. Mas, uma aposta? Parecia certo demais e errado demais.

Mas como seria essa aposta?

— Vamos jogar uma moeda. Cara eu fico com ela. Coroa... você fica com ela.

— Combinado! Ela joga a moeda. Toma!

— Ei, calma aí. Eu virei uma aposta? Que isso?

— Tem idéia melhor? Vai decidir por conta própria? Então toma logo a moeda...

— Cara sou eu, tá?

Ela pegou a moeda. Olhou para eles. Jogou para o alto. Ia pegá-la no ar. Mas a moeda escapou, e caiu no chão, rolando para debaixo da geladeira. Eles se entreolharam. Ninguém teve coragem de pegar a moeda.

— Bem. Acho que isso quer dizer que...

— Mas que droga!

— Eu vou ficar com você, né?

— Vai sim. Os dois vão. Pelo menos até alguém pegar a moeda debaixo da geladeira...

Ninguém nunca pegou aquela moeda. E naquela noite dormiram os três na mesma cama. Como sempre fora, e como foi por muito tempo.
Guilherme Drumond
Enviado por Guilherme Drumond em 25/10/2005
Código do texto: T63424
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Sobre o autor
Guilherme Drumond
Rio Bonito - Rio de Janeiro - Brasil, 37 anos
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Guilherme Drumond