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Pneu furado

O pneu do carro furou. Numa estrada completamente deserta.

Ele manobrou pro acostamento. Ela começou:

— Ah, era só o que faltava... Ai meu Deus do céu!

Ele fez cara de que queria ser surdo. Era casado com ela, acredite. As pessoas cometem erros, como não revisar os pneus dos carros ou casar sem saber ao certo porque.

— Você não vez a revisão, não é? Ai meu Deus do céu...

— Por favor, isso não vai ajudar nada.

— Ei, não fala assim comigo, seu irresponsável! Agora vamos chegar atrasados na casa de Tia Lurdete. E o que você tá fazendo que não desceu ainda pra trocar o pneu?

— Já estou indo, mas... — Sua cara era de um Sísifo, ou de um homem casado com a mesma mulher há cinco anos.

— Estou com dor de cabeça. Pode me dar um pouco de paz?

— Paz? Ah, você quer paz? Era só o que me faltava. Seu irresponsável! Esqueceu de fazer a revisão no carro, e agora estamos aqui na beira dessa droga de estrada deserta. E trata de trocar logo esse pneu...

— Primeiro você também não lembrou da revisão, “querida”. Segundo...

— Que foi?

— Não tem nenhum estepe aqui... — Levou a mão na testa. A cabeça doía enormemente.

— O que?! Como não? Ainda me apronta uma dessas, seu asno...

— Não tem estepe porque o seu irmão “querido” pegou o meu estepe há dois meses e nunca mais devolveu...

— E porque você não correu atrás de um estepe novo? Seu irresponsável...

— Eu vou ver se encontro um posto, uma borracharia aqui perto...

— Só se for onde trabalha sua mãe! Aqui não tem nada. Estamos no meio do nada. Ai meu Deus do céu. Irresponsável. Vamos chegar atrasados na casa da Tia Lurdete. E aí já viu. Vão comentar nosso atraso, dizer que não temos consideração por aquela velha múmia. Sabe que está nas últimas, né? E vou virar tema de buchicho. Tudo culpa sua. Seu asno, irresponsável. Porque não fez revisão? E ainda acusa meu irmão. Ora, vê se pode?! Seu irresponsável!

Ele ouviu a voz da mulher repetindo, repetindo e repetindo a mesma ladainha enquanto se afastava. Sua cabeça doía muito. Caminharia um bom pedaço até o posto mais perto.

Porém, subitamente, um disco voador apareceu. Rodopiando. Zum, zum, zum...

A mulher ficou boquiaberta. Ele se viu debaixo do disco, de luzes coloridas e piscantes. Um facho luminoso rodeou ele, que aos poucos sentiu seu corpo leve. Foi alçado no ar. Flutuava. Logo entrava dentro do disco voador. No último instante antes de entrar no aparelho olhou para a mulher desesperada que sacudia os braços. Ele acenou sorrindo. O disco voador fez uma curva e subiu. Desaparecendo no céu meio nublado daquela quinta-feira. Era março, se não me engano...

Muito mais tarde na festa de Tia Lurdete ela contava pra parentela.

— Dei um pé na bunda dele. Aquele asno irresponsável. Deu pena, mas... É a vida, né? Oh Tia Lurdete! A senhora me parece tão bem de saúde, linda!
Guilherme Drumond
Enviado por Guilherme Drumond em 25/10/2005
Reeditado em 25/10/2005
Código do texto: T63427
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Sobre o autor
Guilherme Drumond
Rio Bonito - Rio de Janeiro - Brasil, 37 anos
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1 e-livros (38 leituras)
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Guilherme Drumond