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Sobre a condição animal - I

Ele não compreendia o fato de todas as garotas bonitas terem namorado. Todas, sem exceção!

Só podia ser coisa armada pelo destino. Oh, que pobre destino tinha sido reservado pra ele! Tão lindas, elas eram, mas sempre falando de seus namorados, como que quem anunciasse: não se aproxime, que aqui não existe nenhuma chance! E ele apenas olhava de longe. Como um chacal, que assiste o leão devorar a carcaça da zebra. Dá pra ver nos olhos do chacal a sua raiva, misturada com uma dose leve de inveja e de um terrível amargor pela sua inferioridade. Os leões sempre cheios de jubas, mesmo que nunca vistos, eram vistos como poderosíssimos, e mesmo que não estivessem atacando a zebra, os chacais aguardavam que eles viessem, cônscios de sua chacalidade medíocre. Desejando, sem nunca tocar.

Olhava as pernas dentro das saias, as formas que a roupa realçava, os seios, pequeninos, e aquelas bocas. As desejava com ânsia, como que se elas fossem perfeitas. Elas eram assim, perfeitas. E a textura, sentia nas pontas dos dedos, a temperatura do pescoço, o cheiro tão doce da pele. A sedosidade dos cabelos, seu volume. E sentia a boca delas, os lábios enormes, e sentia os olhos dela. Até que elas anunciavam: meu namorado, qualquer coisa sem importância... e ele se lembrava da imponência do leão, tão contrastante com as suas ridículas orelhas de chacal. Recuava seus desejos, e sacudindo a cabeça pesada dizia consigo mesmo: Não adianta, meu destino é a solidão! Pobre de mim!

Assim foi, até que uma certa noite viu uma garota. Já vira tantas, e tantas ele havia desejado. Com essa seria a mesma coisa. Olhou ela de longe, e sentiu seu sabor. Imaginou cenas, e cenas, e a mesma cena. Sabia que seria mais uma das muitas garotas que quisera, mas que já eram impossíveis. Tão linda assim não estaria sozinha. Mas mesmo assim farejou seu perfume, a desejou, com a intensidade tamanha que não demorou muito ela olhou para ele. E sorriu. Ele se sentiu paralisado. Ela levantou e caminhou até ele.

Ele sentiu-se amedrontado. Pra onde correria? Ela estava chegando perto, não havia escapatória! Chegou e disse: Oi! Ele disse: Oi, tudo bem? E começaram a conversar. Os olhos dele pelas coxas dela, e seus seios. Nossa, como ela era linda! Muito mesmo. E a conversa foi se desenrolando bem. Aos poucos ele foi ganhando confiança, e deixando de ser um chacal medíocre. Já se sentia quase um leopardo, embora preferisse ser um suricate subindo pelas costas dela, e ela rindo, rindo, rindo...

Mas ele sabia que ainda havia um leão rondando. E que logo ele surgiria. E tanto era assim que ele não quis mais demora. Criou coragem e fez a pergunta fatídica: E seu namorado? Esperou. Ela olhou para ele, e sorriu...

Pronto! Estava tudo acabado. Ela tinha namorado, é claro. Como não teria, tão linda que era? E ele mais uma vez voltava a sua condição miserável de chacal. Tão enormes eram suas orelhas!

Ela respondeu com olhos salientes e sorriso bonito: Não, não tenho não... Por que? Ele parou. Tremeu. Sentiu o rosto queimar. E viu suas orelhas crescerem enormemente. Ela foi perdendo o brilho, e se tornando ameaçadora. Como se fosse uma cobra, pronta pra morder seu calcanhar. Pra onde correria agora? Quem o salvaria daquela mulher louca? E suando deu um jeito de mudar de assunto. Perguntou algo sobre: aquele terremoto lá naquele lugar onde ninguém sabe, que não interessa a ninguém. Ela não entendeu, e ficou triste quando ele se despediu apressado e saiu de perto. Tinha gostado do jeito tímido dele, tão meigo! E gostava de se sentir olhada, e seu corpo esquentou. Mordeu os lábios até, enquanto ele tentava disfarçar e mirava seu decote. Ela estava mesmo afim dele...

No seu canto ele voltou a sua condição miserável de chacal. Tão amedrontado que estava com o que se passara. Não entendeu nada. Só via o reflexo de suas orelhas mil vezes dentro de si, como se fosse um eco dizendo: incapaz, incapaz, incapaz... Nunca entenderia. Só sabia que era um fato. Todas as mulheres do mundo tinham namorado. E logo aquela que não tinha, era tão linda. E tava na cara que ela nunca ia dar mole pra ele...
Guilherme Drumond
Enviado por Guilherme Drumond em 25/10/2005
Código do texto: T63437
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Sobre o autor
Guilherme Drumond
Rio Bonito - Rio de Janeiro - Brasil, 37 anos
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Guilherme Drumond