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Cartas ao Padre Galalão (ou Sarah e Napoelão)

Cidadela azul, primeiro dia dos que ainda restam

Caro amigo padre Galalão,

Voto para que estas palavras lhe encontrem na saúde e graça de Deus, nosso Senhor. Faz cinco anos que não nos vemos. Temo se passarem ainda mais uns cinco até que sua mão possa apertar de novo. O fato é que me encontro em outros reinos, distantes de nosso tão amado torrão. Desde que me engajei nesta dura lida de matador de gigantes que só fiz viajar para cá, que é muito longe sempre. Mas não me posso perder em delongas, e por isso vou ser breve nas minhas palavras.
O fato é que, como já lhe contei em certa ocasião, quando descobri que meu bisavô fora dos matadores de gigantes o mais famoso, valoroso, destemido, resolvi abraçar a dura vida das armas. E lancei-me no mundo vasto de nosso Senhor, lança na mão e espada na cintura. Matar gigante ainda não matei nenhum, mas estive por pouco de por um touro derribado de um golpe só. Sorte do bicho que o golpe resvalou, pois isto salvou-lhe a bovina vida. Mas se gigantes ainda não enfrentei nenhum pessoalmente, a cada passo tenho me posto a resolver desagravos e contendas das mais variadas. Além de, como bom mata-gigantes, empurrar goela abaixo dos soberbos e maldosos a justiça, em nome dos explorados e desvalidos. Minha voz tem sido dos calados desde que pus os pés na estrada. E por isso tenho recebido muitas benções de Deus. O problema que o Diabo, que queime eternamente, não dorme, e para provar minha fé tem me posto nas mais inenarráveis trapalhadas e apertos.
E este é o motivo desta minha epístola. Quero aqui vos narrar uma destas confusões que me aprontou o Maldito, tentando por em prova minha inabalável fé na justiça e no altruísmo. E o faço com brevidade, pois me encontro agora num quarto de pousada, na Cidadela Azul, alguns dias de viagem do famigerado Castelo dos Montagura, de onde me pus em carreira, digo, retirada estratégica, para curar as feridas das batalhas mortais que lá travei com os soldados endiabrados da senhora maligna daquele lugar profano. E tão logo concerte minha lança, e afie minha espada parto de volta para lá. Ou volto trazendo na mão esquerda a cabeça da maldita Duquesa, e na direita toda glória que pode ter um matador de gigantes, ou deixo lá minha infeliz carcaça caída sob as hostes infernais.
Sei que parece confuso meu relato, e para por ordem nesta narrativa vamos esclarecer aos poucos o motivo desta minha contenda com a Duquesa de Montagura. E para tal é preciso começar do momento em que entrei naquele maldito feudo. E isto começa quando conheci a mais bela filha da lua que pode a imaginação divina conceber. Tão bela em seus olhos, que creio curar as enfermidades da alma com uma simples mirada, e tão pura de alma que os demônios temem dela se aproximar. Sua meiguice nasceu antes do mel, e seu sorriso de infantil suavidade faz luz nas trevas mais profundas. Não existem cá palavras para descrever tamanha beleza e pureza! E é com o meu encontro com esse anjo que começo a narrativa dos fatos que precisam ser narrados.
Inicio em Travassos, a terra ao Norte dos domínios do Conde Pombalacho, meu amigo e credor eterno. Naquela ocasião estava no encalço do terrível gigante Cascamão, que muitas maldades fizera em toda aquela área. Jurara por fim a vida de vilania do terrível malfeitor, e por isso seguia a estrada para o Oeste, seguindo uma pista de uns pastores bêbados que viram Cascamão seguir para aquela direção. Já havia caminhado bom pedaço, sempre a maldizer o malfeitor, como que para treinar o discurso na hora de abater o monstrengo.
Mas eis que de súbito ouço um grito vindo dos bosques próximos!
Evidente que como bom matador de gigantes não ia deixar uma donzela em perigo! E parti em direção ao grito dizendo bem alto:
~Espere, oh donzela desamparada, que eu, Chamiel Pancada, grande matador de gigantes, bravo desfazedor de desagravos, protetor dos desprotegidos, herói máximo dos guerreiros da justiça, vou defender, seja lá o que for preciso, de casa a nome, de integridade a donzelice, com meu braço forte, minha lança destra, e minha espada cortante! Aí vou eu!~
E entrei por entre os arvoredos, me guiando por um grito ou outro da desprotegida donzela. E logo chego a uma clareira, onde vejo dois homens maus caídos no chão, como que dormindo, e um terceiro tentando agarrar a mais linda donzela que já foi descrita numa carta para um padre. Tão bela era ela, seus olhos, seus cabelos, sua pele, seu corpo... que me perdi um segundo que foi a admirar tão linda flor. Ela me vendo aparvalhado, e tentando resistir ao malfeitor que lhe agarrava pelos braços, diz em voz de pássaro canoro:
~Ei, que faz aí parado, seu parvo?! Me ajude aqui!~
Então desperto do meu transe, pois bestificado ficara com tamanha beleza, e erguendo no ar a lança bradei:
~Malfeitor descarado, filho sem pai, escória dos homens, solte esta senhorita, ou sentirá a força de meu braço abrir sua cabeça, e a destreza do meu pé chutar seus fundos! Quem lhe ordena é Chamiel Pancada, bisneto do grande Brumiel Pancada, maior matador de gigantes e herói que conheceu todo o reino!~
O vilão ouvindo meu brado tremeu de medo, e quase saiu correndo em disparada. Mas se conteve, pois era muito mal e deveria ser pouco cristão, e disse para aumentar minha ira:
~Mas que temos cá? Um bobo que pensa ser cavaleiro? Mas seu poderoso braço mais parece um braço de moça, e eu nunca ouvi falar de nenhum Brumiel Pancada, que deve ter sido filho de rapariga, isso sim! Saia daqui, seu fracote, se não lhe abro a cara com um soco!~
Irado não disse mais nada. Pus-me em guarda e corri de encontro do malfeitor, disposto a matar o miserável, por ter de mim zombado e por ter fingido não conhceer o meu bisavô, cuja fama é mundial, se não universal.
Com grande brado corri para a batalha, mas como o destino sempre me prega peças, meu pé, se não me engano o esquerdo, ficou preso numas raízes, e vim a dar de cara no chão. Se lhe conto isso, amigo padre Galalão, é porque lhe tenho por meu confessor, e sei de sua discrição. Não é sempre que esses infortúnios acontecem a um guerreiro da minha estirpe. Via de regra sou implacável na batalha.
O fato é que por obra do Inimigo, que é o Diabo, só pode ser, fui de encontro ao chão. E tão logo caí o vilão se pôs a rir de mim. Neste momento a linda donzela, que também era muito sagaz, lhe acertou a cabeça com um enorme livro que trazia na bolsa de couro. Mais tarde soube que os outros dois vilões também haviam sido por ela derribados com poderosos golpes do pesado livro. Estas marciais habilidade manobrando livros de quinze quilos só fez aumentar ainda mais a minha admiração pela linda moça. E por sorte dos malfeitores ela os pôs desmaiados, pois se não lhes cortava e furava como mereciam.
Caído no chão ainda pude vê-la dar tr~es ou quatro chutes bem arrumados nos vilões. E depois de descarregar sua fúria, se recompôs de sua donzelice e veio me dar atenção. Pegou-me pelo braço e levou-me dali dizendo:
~Rápido, pois existem outros aldeões me perseguindo. Fujamos daqui!~
~Deixe que venham, em hordas, bandos ou matilhas! Lhes farei provar do meu aço, e repetiram o meu nome eternamente nas profundas, por aprenderem as frágeis damas respeitar...~
Disse eu enquanto ela me puxava pelo braço bosque adentro.
~Não é hora para valentia, meu atrapalhado herói. Esses aldeões não estão brincando, e se escapei ilesa desta vez foi graças a Grande Deusa.~
~Deus, você quer dizer, certo?~
~Que seja, mas fujamos rápido para uma gruta aqui perto. Lá te explicarei quem sou, e no que metes-te o nariz quebrado, meu amigo guerreiro. Apresse-se pois se nos alcançam nos cozinham em óleo, ou nos queimam numa fogueira.~
~Mas que diabos estão dentro dos corpos malditos destes aldeões loucos? Queimar donzelas e ferver matadores de gigantes em óleo? Diabruras estão acontecendo por estas bandas. Pelo visto o temível Cascamão, gigante mal e fedorento, vai ter que esperar a resolução destas questões aqui.~
E terminei estancando no lugar. Ela que não largara meu braço parou e me olhou com angústia, pois estava com pressa de fugir. Decerto ignorava quem a estava acompanhando. Disse antes que ela começasse a suplicar para que continuássemos a fuga:
~Permita que me apresente, minha pétala primaveril. Sou Arturiano Chamiel de Pocosizo, mais conhecido pelo nome de Chamiel Pancada, título que herdei de meu poderoso bisavô Brumiel Pancada. Sou da mais alta patente dos matadores de gigante, e com meu braço forte tenho dedicado minha vida a reduzir a nada a vilania que infesta este mundo de nosso Senhor Deus. Nada temo, e se gigantes ainda não matei nenhum, foi por estar até hoje a defender donzelas em perigo, pobres explorados pelos ricaços, e burros esfolados pelos cocheiros. Mas dizer tudo isso é desnecessário, pois tenho certeza de que já chegaste até estas paragens a minha fama. Não estou certo, donzela filha dos raios de luar?~
~Bem...~ Respondeu ela fazendo uma cara de que nunca tinha ouvido falar no meu famosíssimo nome. Respondi meio ofendido:
~Como assim? Dirás-me tu agora que nunca ouviu falar em Chamiel Pancada? Ah, mas pelo menos conhece o nome Pancada, de Brumiel Pancada, certo?~
~Não, nunca ouvi falar.~ Respondeu com certo medo de me deixar mais ofendido. Eu me senti desolado. Como depois de tantos feitos e glórias aquele lugarejo não conhecia o nome do mais valente dos valentes sobre a terra? Me pus um pouco de lado, e ela percebendo minha tristeza puxou meu ombro e sorrindo disse:
~Olá, meu nome é Sarah!~ E estendeu sua mãozinha de anjo, como quem quer mudar o assunto. Eu tomai-lhe a mão, leve como seda branca, e beijei solenemente dobrando os joelhos. Disse:
~Oh, Sarah, linda donzela do bosque, que aos vilões derriba com golpes de calhamaço, beijo sua mão, humildemente, e me ofereço para ser seu protetor se outros atentarem contra sua preciosa vida. E morrerei, em mil pedaços antes que te toquem num fio de cabelo.~ E beijei sua mão levemente.
Ela rindo disse:
~Você é meio louco, não é meu bom mata-gigantes? Acho que bateu a cabeça com muita força...~ E riu feito uma criança.
Seu riso afastou a ofensa anterior, e ri junto com ela, um tanto quanto fascinado pela dulceza de seu falar, e pela graça dos seus gestos.
Hipnotizado que estava não percebi que a espreita vinha um grupo de aldeões, com o peito prenhe de maldades, e que se atiraram contra nós, dando risadas e sacudindo sobre a cabeça seus bastões. Sarah tentou me puxar pelo braço, disparando em fuga de novo. Resisti desta vez, pois aldeões furiosos eram pouca coisa pra um matador de gigantes como eu. Assim logo os perversos chegaram onde nós estávamos, e nos cercaram. Um deles disse:
~Aha, te pegamos sua bruxa!~
Interpelei o brutamontes, espada desembainhada, dizendo:
~Ouça, vilão maldoso. Atacar donzelas indefesas nos bosques isolados não é uma atitude que eu, Chamiel Pancada deixe passar em branco, sem uma boa lição. Não me importo se vós sois dez e eu apenas um. Darei um corretivo tamanho em vossas carnes sujas que daqui a vinte anos ainda vão sentir o ferro a picar-lhes as ancas!~ E corri pra cima dos malfeitores. E sobre mim desabaram oitocentas vezes mil bordoadas. E tantas eram, e com tanta disposição eram dadas que não durou muito me vi forçado a um recuo estratégico. Sarah me vendo em maus eventos gritava:
~Seus bastardos! Parem com isso! É a mim que vocês querem, deixem-no em paz!~ E já fora agarrada por dois vilões, que munidos de cordas amaravam a pobre Sarah. Debaixo da chuva de bordoadas eu ameaçava os malignos personagens:
~Larguem ela, seus demônios! Lhes mato agora!~ E assim mais riam os maldosos aldeões, e mais ágeis se tornavam os bordões a descerem sobre este seu amigo. Oh, padre, como a maldade humana é farta nesta terra! E como é dura a lida de um guerreiro protetor dos fracos. E tão logo os bordões racharam de tanto se baterem contra minha briosa existência os aldeões pararam de me maltratar, e levaram a pobre Sarah, amarrada e amordaçada para a aldeia próxima.
Por umas quatro horas estive no chão do bosque, a sentir os ossos e as carnes. Pedia a Deus força para desfazer esse terrível desagravo. E tão logo me vi de pé fiz uns curativos nas machucaduras. Ajeitei a armadura, que sofrera uns pisões bem consideráveis. E me pus em marcha para resgatar a minha tão recém protegida e já seqüestrada, Sarah.
Lança em riste, pelo bosque eu ia maldizendo os maldosos que iriam sentir meu aço por dentro da alma, e ia bradando o nome Pancada para cada árvore, cada pedra, para que ninguém mais se esquecesse do mais valoroso e corajoso mata-gigantes deste e de todos os reinos! Tanto bradei e maldisse que me vi meio perdido no bosque. Mas não demorei a achar a estrada, e depois de umas seis horas vagando de um canto pro outro dentro do bosque me vi em marcha a vila maldita onde fizeram prisioneira a formosura mais alta desta e de todas as cartas.
Mas meu bom amigo, padre Galalão, tenho que terminar esta narrativa depois. Um malfeito estalajadeiro me está aqui neste momento a cobrar pela diária do quarto. Ora, será que esta praga de homem não percebe que hospedar o valente Chamiel Pancada é uma honra disputadíssima? E ele me enchendo com isso de dinheiro! Ora, que desconsiderado homem de Deus!
Espere outras cartas minhas, caro amigo, dando conta dos acontecimentos que se sucederam depois dos relatados acima. Te contarei de que forma resgatei a belíssima Sarah Gaalim das mãos dos aldeões fanáticos. E de como entramos no castelo da megera Duquesa de Montagura.
Lhe desejando muita saúde e fé, me despeço humildemente. Ore por mim!

Assina: Chamiel Pancada, mata-gigantes, bisneto do famosíssimo Brumiel Pancada

PS.: Bom padre amigo Galalão, se puder me fazer o obséquio de mandar alguma prata por meio de um bom mensageiro, a entregar aqui na Cidadela Azul, fico-lhe muito grato, e Deus teu devedor.
Guilherme Drumond
Enviado por Guilherme Drumond em 25/10/2005
Reeditado em 25/10/2005
Código do texto: T63475
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Sobre o autor
Guilherme Drumond
Rio Bonito - Rio de Janeiro - Brasil, 37 anos
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Guilherme Drumond