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Umas noites

Havia decidido ficar em casa no sábado. Tudo decidido assim, já tinha até uns dvd's empilhados ao lado da televisão. "é isso, vou me esparramar por aqui hoje"
Não que seja uma pessoa com mais de uma 'última' palavra. Ficar em casa têm sido algo pouco tranquilo pra mim (explico isso outra hora).
Gosto de ver gente, andar nas calçadas em meio a toda confusão da cidade. Recordo bem de todos, ou quase, os rostos que me cruzam por aí. Cada louco... Sábado não foi diferente.
As pessoas que falam aquilo que te dá prazer de ouvir, as que apenas olham, olham, e dizem exatamente o mais importante. Olhares realçados no rímel, bocas amolecidas por várias doses. Vozes e vozes. Algumas difíceis de suportar, outras tão melodiosas que as mantenho ainda por perto. Um copo respeitoso a ser esvaziado. Uma noite inteirinha pela frente.
Num casaco lilás, os cabelos com curvas e caracóis perfeitos "vamo operar logo esse olho mulher" (às vezes o mal entendido vira uma grande piada, mas deixo assim por hora) Sorriso sincero, divertido, qualquer ranzinza se desmonta naquele riso. Do outro lado ele vinha cambaleando, cantarolando alguma música, parou, sorriu, seguiu...
Me recostei num fusca ali estacionado e num gole só enxugeui meu copo dando fim a minha cerveja, olhei pra lado, pro rosto deste "caralho, quero mijar denovo". Poder falar o que te vem, correr pro banheiro sem vergonha nenhuma. Não dá pra não sentir-se bem assim.
Tem vezes que eu me calo, e fico só olhando, só observando cada um. É ótimo poder olhar pra dentro de cada um. Me emociono quando dois amigos se abraçam, quando um casal se beija (sou romântica tambem), quando um cão balança o rabo de alegria. Uma garota escondida numa boina de lã cor de vinho me chamou a atenção, e custo a crer que só eu tenha percebido aquilo. ela estava falando no celular, falando não porque ela gritava, e suspirava fundo, e gritava mais ainda, ali, do meu lado, e ninguem olhava pra ela, só eu. Ficou nisso por uns quinze minutos, eu nem prestava mais atenção na conversa ali na roda frente ao fusca. Eu já estava quase arremessando meu copo nas fuças daquela louca, puta garota chata. O cara do outro lado da linha devia estar com a mesma vontade que eu, e ela gritava, choramingava, urrava, latia e estava quase conseguindo me enlouquecer. Ninguem percebia nada. O copo já na mão esquerda, a mira bem localizada e... "MANDA UM BEIJO PRA MIM SEU IDIOTA" Desligou o telefone e saiu ajeitando a boina na cabeça e a bunda na calça. Mais uma gostosa babaca - pensei, e fui afrouxando a mão esquerda.
Voltei pra conversa que tinha dispersado, veio denovo aquela vontade de mijar "já volto..."
Três da manhã, calçada vazia, a normalidade voltava a assustar o lugar. Portas de ferro baixadas. O caminho pela calçada foi meio complicado, num andar trôpego, tinha enxugado bem a noite.
Uma noite agradável, fria, com pessoas de verdade e sorrisos nostalgicos... descobri que falo dormindo. Uma noite das que deixam saudade.
Klaus
Enviado por Klaus em 03/09/2007
Código do texto: T636301

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Sobre a autora
Klaus
São Paulo - São Paulo - Brasil
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