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SONHOS CONSCIENTES

Acordei com o barulho ensurdecedor de mil abelhas alojadas em meus tímpanos. Tentei  levantar-me da cama, mas não pude mover um nervo; meu corpo estava dormente, acometido de um completo formigamento. Um zumbido insistente e paranóico instalava-se em meu cérebro, quase me enlouquecendo. Procurei manter a calma, afim de aos poucos assimilar aquele fenômeno tão singular que me ocorria. O quarto estava escuro, e apesar de meus dispendiosos esforços não conseguia me levantar. O zumbido constante em meus ouvidos agora se intervalava, ora calmo, quase inaudível, ora intenso e estridente. Minha impressão era de que meu corpo jazia inerte no leito, como que envolvido por uma espécie de torpor anestésico. Em meu crescente desespero, tinha apenas uma certeza: Aquilo não era um sonho, eu estava tão desperto quanto uma ave noturna.  Pude constatar esse fato  quando,  entre  os  intervalos  dos zumbidos  eu podia ouvir o tic-tac do despertador,  em cima do  criado-mudo. Então abateu-se sobre mim um grande pânico, tentei cegamente me levantar da cama, empreguei  forças prodigiosas em meus movimentos, mas meus músculos continuavam ociosos. Percebi, mortificado, que minha respiração ia rareando, enfraquecendo gradativamente. Dentre todas as suposições que me ocorriam, uma me apavorava em particular; a morte finalmente me chegava, pérfida e dissimulada. O zumbido, a dormência e a inércia eram na verdade fúnebres sensações que antecediam meu óbito. Deprimido, arrisquei ainda uma última investida, na tentativa de escapar da morte que me ceifava sem remédio. Com uma força que jamais julguei possuir, tombei meu corpo para fora da cama, e caí macio, numa lenta gravidade. Caminhei até a porta do quarto, minha visão estava turva, desfocada; acionei o interruptor, mas a luz não se acendeu. Tentei abrir a porta do quarto, porém não conseguia sentir o contato da minha mão com a maçaneta, não conseguia pega-la, apesar das insistentes tentativas. Olhei para a cama, e pude ver, petrificado, meu corpo, imerso em profundo sono. Senti que estava leve, poderia flutuar se quisesse, poderia sair, se o medo me permitisse. Mesmo que eu ainda morra por cem vezes, jamais esquecerei aquela visão. Não quero nem procuro explicações lógicas, científicas ou espirituais para esses fenômenos; sou agnóstico, e o pavor, o fascínio e os detalhes dessas minhas experiências são a garantia da verossimilhança desse relato. Esse foi o primeiro dos inúmeros episódios fantásticos que me ocorreram durante o sono. Onde travei conhecimento com pessoas reais, mortas e imaginárias. Quero ainda falar delas, e da maneira como aos poucos fui descobrindo um lugar paralelo. De como me relacionei com as coisas boas e ruins que ali encontrei. Dos eventos oníricos e fascinantes que alí vivenciei em plena consciência. Espero somente a coragem para relata-los.
Paulo Osorio
Enviado por Paulo Osorio em 05/09/2007
Reeditado em 06/09/2007
Código do texto: T639802

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Sobre o autor
Paulo Osorio
Campinas - São Paulo - Brasil
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Paulo Osorio