Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Dizimação Periódica
O Homem que Calculava
 
Para Júlio César de Mello e Souza, O Malba Tahan
 
- A matemática não é uma ciência. É exata, mas não ciência. A Matemática é uma linguagem.
Assim ouvia Cuti, atento ao que dizia seu nobre e fiel amigo. Beremiz falava com um acento peculiar entre as palavras, um sotaque do Mediterrâneo. Cuti estava sentado no riquixá. Aquela era a vez de seu amigo Beremiz servir-se de rocinante no modelo de transporte escolhido em que percorriam as ruas dos bairros de Ouidah. Alternavam-se milimetricamente e cronometricamente. Este controle era feito ora pelos passos, ora pela pulsação de Beremiz. Quando de outra feita, pelo deserto, a aventura ocorrera sobre camelos. As areias e os ventos do destino os trouxeram ao Golfo do Benin,  pela rota de Agadés, antigo  caminho das caravanas de sal e ouro. Primariamente até o Porto Novo, nas margens do oceano Atlântico.
Obra também desta sina, a morte, que não espanta aos sábios e persegue aos tolos, três irmãos já não mais choravam a perda do pai. O fato ocorrera recentemente. Oubi, Landê e Akins disputavam-se como abutres, sobre a carne fria lançada na terra. O falecido era filho de Zumbi, este um rei preso e embarcado ao Brasil. Zumbi era descendente, através de Nzinga, de Tarzã. O mesmo Tarzã que nos contos do norte tem a pele branca e fora amamentado por uma gorila. Na verdade este Tarzã fora engendrado por Adã, o primeiro homem, em uma macaca chamada Rhesus. A questão deste genograma é matemática também divina, menos simples que esta dos três irmãos. Voltemos a ela.
Uma carta deixada pelo pai dos três irmãos versava em testamento a divisão, em três partes exatas, da herança. O problema seria simples caso não fossem em número de cem as peças e se não fossem estas peças seres vivos. Eram encomendados de além-mar, depois  embarcadas em navios até a Cidade da Bahia. Chegavam por caravanas, da selva ao Porto. Quando o pai deles estabeleceu-se em Ouidah, eram os garotos irmãos ainda bem jovens. Eram poucos no começo, os escravos, mas o negócio foi crescendo.
Beremiz parou o riquixá e, tomando parte da disputa, oferece-se para ajudar na partilha. Beremiz questionou sobre a religiosidade, escrutinou os costumes tribais dos irmãos e descobriu que o pai os havia orientado em fazer sempre cumprir o pagamento do dízimo sobre tudo o que ganhassem. O amigo de Beremiz, Cuti, relembrara de uma divisão ocorrida no deserto e sentiu-se, senão apreensivo, bastante curioso, pois a questão era diferente em muitos aspectos.
Eis o problema:
O barracão de escravos contava na data do falecimento do pai com exatas cem peças. Pelo testamento caberia a cada irmão 33,333...cabeças. Após a partilha, aos orixás do terreiro caberiam dez por cento de 33,333..., ou seja 3,333... a dízima da dízima. Tradicionalmente estas questões eram periodicamente resolvidas com banhos de sangue. Irmão matava irmão ou partiriam literalmente os escravos em pedaços, que seriam ofertados aos deuses em vísceras, dando por justa a questão.
Beremiz sabiamente interveio da seguinte forma:
¾ Vejo que os senhores negociam carne e vidas humanas. Percebo também que, ainda assim, querem ser justos como foi justo o testamento que lhes foi legado, pela carta do pai que os criou. Proponho uma nova conta e espero agradar a todos vocês, sem ofendê-los. Tampouco à memória de vosso pai, nem à vossa religiosidade, nem aos vossos costumes. Primeiro deixem-me ousar em retirar um de vossos servos da herança. Caso fiquem satisfeitos, poderei eu incorporá-lo às minhas posses, como paga por tão simples solução. Reparem que vossos deuses cobram dez por cento e coube a mim apenas um cento de toda herança em contenda.
Isto feito, temos agora 33 peças para cada irmão.  Mas destes 33 devem vocês pagar aos vossos deuses 3,3. O caso não está ainda resolvido e concluirão ao final que cobrei pouco para resolver tão intrincado problema. Verifico que ainda assim haveria a perda de vidas e diminuição do total da herança. Segundo vossas tradições seriam necessárias três vidas em sacrifício, três vivos e um esquartejado por cada irmão, para completar-se o dízimo. O final resultaria em 29 para cada. Conclamo-vos a deixar que eu interceda providencialmente. Cedam-me estes três candidatos à morte para que eu os ressuscite, para as vossas glórias,  glórias deles, quiçá a minha também.  Anteriormente sobrariam a vocês 29 escravos, com mais um, tendes agora 30 e já oferecestes  os 3  servos inteiros e vivos  ao templo, os dez por cento sagrados.
Ó forasteiro, fostes justo como nosso pai. Regozijamo-nos em tê-lo encontrado nesta hora. Orungã, um dos nossos orixás, vos guiará a salvo ao vosso destino. Tendes uma boa viagem.
Eu, testemunha do deserto e da selva, perguntei a Beremiz como ele escolhera dentre uma centena, aquele que viria a ser nosso parceiro de caminhada, ao que ele respondeu:
Pelos dentes, ó bagdali! Sem os ter, era o único que sorria.
Oxalá a gente encontre uma religião que nos cobre só um por cento de tributo.Dito  isto porque assim tu conduzistes aqueles que se digladiavam. Oxalá Deus nos encontre e nos identifique pela esperança de liberdade em nossa arcada dentária. Para este que nos charrua agora, ó Beremiz, fostes mais que salvador e santo.
 
Esta é a história de como Beremiz evitou uma guerra entre três tribos, salvou servos da morte, aumentou a herança de três irmãos e conseguiu um escravo. Completando, no caminho em estrada para a volta a Bagdá, Beremiz libertou o escravo, batizando-o Jamu, que incorporado  voluntariamente como amigo, multiplicaria equitativamente esforços de alegria na alternância das gruas do riquixá.  Cuti, testemunha fiel, Jamu, o liberto pelo sorriso e Beremiz, o homem que calculava.
 
Luís Carlos de Oliveira
 
 
Luís Carlos Oliveira Aseokaynha
Enviado por Luís Carlos Oliveira Aseokaynha em 09/09/2007
Reeditado em 16/01/2014
Código do texto: T645151
Classificação de conteúdo: seguro

Copyright © 2007. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Luís Carlos Oliveira Aseokaynha
Salvador - Bahia - Brasil, 52 anos
713 textos (12439 leituras)
5 áudios (443 audições)
1 e-livros (88 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 21/08/17 22:49)
Luís Carlos Oliveira Aseokaynha

Site do Escritor