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Uma História de Amor do Tempos dos Escravos


Uma História de Amor do Tempos dos Escravos




Na época dos escravos, Francisco, filho de um fazendeiro muito rico de Minas Gerais, era o namorado de Isabel. Quando criança foi colega de escola de Artur Bernardes da Silva. Estudaram juntos, até Artur ir para a Faculdade de Direito de São Paulo, que de lá integrou-se à política alcançando o cargo de Presidente da Câmara Municipal de Viçosa. Francisco teve de se desligar desse colega, por causa dos afazeres nas fazendas do seu pai. Preferiu ajudar seu pai, porque desse modo teria a oportunidade de estar com Isabel, sua namorada. Juntos formavam um casal de namorados que se amavam muito. Ela também era filha de fazendeiro daquela região. Tanto o pai de Francisco como o de Isabel, eram fazendeiros bons e caridosos (talvez fossem uma exceção entre os muitos da região), os dois pensavam em como fazer progredir a cultura de café, pensando até em exportar para outros países, principalmente Portugal.
Nos anos 1870 e 1880, muitas foram as vozes que proclamaram a necessidade de educar as crianças ditas pobres e abandonadas, os órfãos, os menores "vagabundos" e os "ingênuos" (nascidos livres de ventre escravo), em instituições asilares de ensino agrícola. Ministros do Império, como Carlos Leôncio de Carvalho, professores primários da Corte, representados por Augusto Cândido Xavier Cony, e até mesmo grandes proprietários da Província fluminense e de Minas Gerais, demonstraram concordar com a opinião de educar as crianças em estabelecimentos rurais.
Algumas iniciativas individuais de senhores de terras e escravos como os pais de Francisco e Isabel, visando a criação de escolas no interior de suas propriedades, destinadas aos filhos dos agregados, colonos e trabalhadores livres e libertos, deixaram registros históricos, ainda que escassos. Tais foram os casos de José Joaquim de Souza Breves, que fundou uma escola na Fazenda Ipiabas, em 1874, onde se ensinavam os "ingênuos" e até mesmo alguns escravos e do Visconde de Pimentel que, em 1879, na Fazenda Vista Alegre, fundou um estabelecimento de ensino primário para as crianças livres e libertas. Esses movimentos progressistas serviram de incentivos a muitos fazendeiros da província de Minas Gerais.
O casal de namorado tinha muita confiança um no outro e tudo que faziam era em benefício de seus pais. Os dois sendo filhos de fazendeiros do ciclo do café, na região de Minas Gerais exerciam grande poderio sobre os escravos, porém sem nenhuma maldade sobre eles. Os pais de ambos, eram proprietários de duas fazendas cada um e com centenas de escravos em cada fazenda. Fundar e dirigir asilos agrícolas a fim de construir escolas práticas de trabalhadores da lavoura era o sonho dos pais de Francisco e Isabel. O principal objetivo da sociedade desses dois fazendeiros era entre os futuros educadores dessas instituições colocar seus filhos como administradores. Lá deveriam estar os filhos das escravas, lado a lado com os demais "desamparados" e deserdados da fortuna. Para essa clientela, o currículo de ensino abrangeria, em primeiro lugar, a educação moral e religiosa, o ensino das primeiras letras e as noções práticas de agricultura.
O casal eram simples, ajudava os escravos feridos ou doentes, as mulheres grávidas, próximas do momento do parto. A vida de negócios dos pais de Francisco e Isabel (o casal de namorado), acrescido à política não lhes davam tempo pra essas pequenas coisas. Seus pais tinham pensamentos mais distantes, planejavam fazer escolas ou asilos para os filhos de escravos, seguindo o exemplo do Visconde de Pimentel na Fazenda Vista Alegre, província do Rio de Janeiro.
Assim o casal namorava e cuidava dos escravos, administrando os serviços para serem executados e até os ensinavam a ler, cuidando da saúde de quem precisasse e aproveitava o tempo para estarem juntos o dia inteiro. Já namoravam há mais de um ano. Certo dia Francisco e Isabel, pediram a um escravo de confiança, que arriasse os cavalos para irem até a outra fazenda de seu pai, buscar remédios e roupas que estavam faltando. Isso foi feito e o escravo foi junto com eles, levando quatro burros de cargas, para ajudar com as coisas que iriam buscar. Nessa época existiam poucas estradas e as existentes eram cheias buracos e quando chovia não dava para passar nada. Os dois foram cavalgando por um caminho muito ruim, cheio de valas, pedras, lama. Na frente iam os dois, seguidos do escravo com as mulas. Procuravam não distanciar muito do escravo, que vinha devagar, montando um dos animais e puxando o restante. Começava a subida mais perigosa. Já tinham cavalgado quase uns três quilômetros, quando chegaram a um ponto do caminho bastante perigoso, por ser um escarpa de pedras molhadas pelo sereno. O caminho a percorrer apresentava-se de um lado, uma floresta e do outro um despenhadeiro. Os cavalos de Isabel e de Francisco assustaram-se com uma cobra cascavel. Empinaram, relinchando e começaram a dar patadas, escorregando ambos nas pedras lisas e úmidas. Caíram no precipício levando junto o casal. O local de onde caíram tinha uma profundidade de mais ou menos uns 80 metros. O escravo ao ouvir o barulho dos cavalos relinchando e os gritos de terror do casal, procurou andar mais depressa para tentar ajudar no que fosse possível, mas chegou tarde demais. Cavalos e casal tinham caído no precipício. Momentos depois o escravo chorava pelo acontecido, olhava aquele lugar com os olhos cheios de lágrimas e trazia o medo no coração. O que dizer para as famílias dos dois? Cerca de meia hora depois, viu dois enormes pássaros brancos, alçando vôo do lugar de onde caíram. Voavam em direção ao sol e desaparecendo subitamente. A tristeza do escravo deu lugar a surpresa quando ele contou. Foi geral a tristeza, brancos e negros choraram ao ouvir o acontecido. Na senzala os negros realizaram uma cerimônia religiosa, num ritual africano, baseando-se na visão daquele homem a única testemunha.
Dizem os mais velhos e o mais entendidos, que os pássaros vistos pelo escravo, seriam o casal indo ao encontro da divindade, onde esperariam o momento certo para renascerem. Eram almas gêmeas e era certo que um dia mais tarde se encontrariam”.
tancredo
Enviado por tancredo em 29/10/2005
Código do texto: T65014
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Sobre o autor
tancredo
Valença - Rio de Janeiro - Brasil, 76 anos
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