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                                     Agora ou nunca... 


     “... é agora ou nunca!” 
     É o seu refrão. O bordão caracterizador de suas dúvidas renitentes. Há séculos preconizava o “carpe dien”. Desejava viver o instante e eternizá-lo, mas deixava-se inerte, como a esperar que à sua decisão não coubessem recursos. 
     Quando jovem, fora a mais bela das criaturas telúricas. Mulher de beleza macia: pele alva, cabelos lisos e teimosamente loiros; unhas perfeitas; corpo compacto, quase intacto; lábios marcantes, jamais marcados; doce, no trato diário com a mais humilde das criaturas – em nada fazia lembrar uma deusa onírica. Sorriso de menina num corpo de mulher. 
     Não raras vezes, sofria alguns reveses por causa desse comportamento levianamente exemplar. Acreditava sobremaneira em suas virtudes e não as traía, ainda que as tentações surgissem como estigmas a ferir-lhe a consciência. 
     Era senhora de um só homem. 
     Nesse capítulo, permito-me um aparte. Não que fosse exatamente um homem, mas alguém que não lhe faria oposição, crítica ou impertinência de qualquer espécie: subserviente plácido, a não contrariar sua dona. Era seu presente, jamais o seu futuro. 
     Entristecia-se por não poder idealizar um amor longínquo, de certo que nele não assistia o companheiro, mas o servo imediato, desses que, num passado a lamentar, comprava-se e vendia-se sem escrúpulos, nas esquinas e becos da miséria social escravagista. Pois esse homem minúsculo, com quem se acostumara e de quem julgava gostar, a impedia de viver, ou melhor, vivenciar as experiências que sua juventude não conhecia. 
     Era um ser paradoxal. Não cria, era cética: ‘Deus... - repetia - ...não O conheço!’ Como não conhecia, se era Sua versão mais humana? Apesar da descrença, exercitava a bondade em suas lições do cotidiano. 
     Sobre o amor? ‘Não existe um amor ideal. Idealizar amor é não experimentar a vida em sua plenitude’. Mais uma vez, deixava-se iludir por frases feitas e prolixidade. Queria sim viver o amor. Asseguro-lhes que esse julgamento era, senão falso, uma proteção contra aventureiros incautos que nela antevissem um sinal de alvíssaras. Puro dogma. 
     Competente, não conhecia derrotas. Possuía capacidade de apreensão invejável. Vencia, invariavelmente, o que se dispusesse a disputar. Se pretendesse, conseguiria, ponto. Deixava para trás concorrentes dedicados e, aparentemente, bem preparados. Sua obstinação era inata, empírica. Quando alcançava seu próximo objetivo, ruborizava como um candente pôr-do-sol, ao primeiro elogio. Humildade, resignação, nunca descobri. 
     Apaixonou-se secretamente às dezenas, entretanto usava o comportamento racional, em detrimento da emoção que se lhe instalava, para conter os ímpetos impuros. ‘Eu penso muito, muito. Não consigo ser diferente.’ Era senhora dos refrões. 
     Mas houve um dia, aquele dia que sela nossas vidas. O dia em que ela, sem aviso, viu-se despida dos preceitos que a tolhiam. O dia em que a razão se emociona e extravasa sentimentos. Eram amigos. Não havia motivos para ultrapassarem esse limite. Porém, o insólito espelhou-os como que a refletir imagem única. 
     Surpresa, com a declaração subentendida, voltou a casa, seu ninho e, tomada por um silêncio consentido, percebeu-se diferente, deliciosa e perigosamente diferente. 
     Tentava reorganizar a mente confusa, mas não conseguia. Claramente estava em colapso de razão. Questionava-se: ‘Como? Por que ele? E agora?’ Eram perguntas recorrentes, dúvidas consistentes. Não podia voar e perder o controle sobre sua vida metódica e tão comum. ‘É passageiro... Tem que ser’. No entanto, por mais que buscasse o equilíbrio usurpado, uma nova ordem se instaurara. 
     Quase creu. Seria mais fácil obter uma resposta pela fé. Certamente ele a deixara perdida de si. ‘Não posso... Ah, mas eu quero...’ ou ‘E se for só uma aventura? É isso, é uma aventura.’ – decidiu. 
     E ela então começaria sua peregrinação pelos caminhos tortuosos de um amor que jamais buscara e que agora serpenteava a envenená-la num bote sorrateiro do destino. 
     Devo-lhes assegurar que seu algoz amante a amava. Seria um amor irreal como os que não podem durar pelas imposições sociais e temporais. E todos os amores que desconhecem os limites coercitivos tornam-se imortais, não perecem, porque precisam ser vividos em seus instantes de insanidade e furor, sem a preocupação com as cobranças do amanhã. Em resumo: jamais envelhece. 
     Ela sabia disso. Pela primeira vez, experimentava o sabor agridoce da paixão proibida. Vivenciou-o em almoços furtivos e beijos roubados. Desejou-o sem pecado e cheia deles. No íntimo, amava-o, mas nele não encontrava a segurança – o que é segurança a dois? - que buscava, desestruturando-a ainda mais. 
     Tudo mudara em sua vida plácida. Havia o outro e o primeiro; o novo e o velho, a loucura e a mesmice. E lamentava por não ter coragem de, pela primeira vez, tomar uma decisão adulta. Deveria, mas não se considerava forte para lutar pelo agora. Descobriria, com o passar do tempo, que sua decisão seria para sempre, que o nunca viveria em sua mente, povoando suas mais simplórias decisões. 
     Se ela sofreu? Por certo! Afinal, a coragem é companheira da juventude, e esta lhe fora assaz cruel, fazendo-a madura ainda em flor, ao lhe negar conhecer o fruto proibido de um desvairado e único amor.
Nel de Moraes
Enviado por Nel de Moraes em 30/10/2005
Código do texto: T65255

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Sobre o autor
Nel de Moraes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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Nel de Moraes