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TELEVISÃO UMA PAIXÃO MAIS DO QUE UMA PROFISSÃO /versão Original

ESTE TEXTO FOI SELECIONADO NO CONCURSO HISTÓRIAS DE TRABALHO 2004 DA SECRETARIA DE CULTURA DE PORTO ALEGRE. APENAS USEI OUTRO TITULO - MINUTO DE FAMA.

- Chegou a Imprensa, gritou o policial.
Olhei em volta e vi policiais por todos os lados. Parecia coisa de filme. Mas não era. E eu sabia porque estava ali. Dois homens haviam invadido uma casa e “tomaram” os donos de reféns. Eles eram agora, de acordo com a policia, TOMADORES DE REFÉNS, não mais seqüestradores. Na época houve ampla discussão sobre este novo termo. Na verdade eram delinqüentes pessoas desajustadas e que deveriam ser detidas. A policia, que já estava na caça deles, logo cercou a casa. Quando viram que estavam cercados e que não poderiam sair, fizeram a exigência.
– Queremos a Imprensa para nos entregar! Só vamos sair na frente das câmeras. Das câmeras, ouviram?
– Certo! Vamos tentar contatar alguém da imprensa disse o policial.
Naquela noite havia saído à rua para gravar duas pautas jornalísticas, nada fora do comum. Então soube da invasão e dos reféns, e também da exigência dos bandidos. O editor responsável me chamou e explicou o que estava acontecendo e o que queria que eu fizesse.
- Você chega lá, se apresenta ao comandante do pelotão e grava sem se expor ao perigo. Eu já falei com o comandante e ele me colocou a par da situação. Disse a ele que mandaria uma equipe imediatamente. Portanto, Fique de longe, acende a luz, grave tudo o que puder. Deixe o resto com a policia. Eles querem é aparecer na telinha, fizeram a cagada e agora querem arrego. Eu tinha duas alternativas: aceitar ou não. Se não aceitasse, correria o risco de ser negligenciado para as próximas reportagens. Seria um profissional com restrições, e na minha profissão não poderia haver dúvidas ou incertezas, era pegar ou largar. Aceitei.
Chequei ao local perto das duas da madrugada. Era uma noite fria de inverno e céu sem estrelas. O capitão quando me viu, já foi avisando; é gente perigosa e estão dispostos a matar ou morrer. Por favor, não se exponha. Eles só querem ganhar tempo e nós queremos prende-los. Fique aqui, ligue a sua luz e faça seu trabalho. Chame a atenção deles e assim que virem a movimentação, com certeza, se entregarão.
Liguei a câmera e a luz”e comecei a gravar.
A adrenalina tomava conta de meus atos. Por isto que o número de repórteres e cinegrafistas morrem em ação, principalmente nas guerras. E movido por este hormônio da coragem, consegui ficar bem próximo a cena. Só então vi os reféns. Focalizei a câmera na direção de um deles e todo o seu medo foi captado e gravado. Havia uma arma apontada para sua cabeça por um dos homens que ficará escondido pelas sombras.
Dei um giro completo pelo lugar, “uma panorâmica”, depois aproximei a imagem para mostrar bem a fisionomia de todos. Então escutamos a voz megafônica do capitão chamando pelos bandidos, ou seja, os tomadores de reféns .
_ Fizemos o que pediu. A televisão já esta ai, agora se entreguem e nada lhes acontecerá .
_ Você promete que nada nos acontecerá? Que podemos sair e que nenhum tiro será disparado.
_ Têm a minha palavra, falou o capitão.
_ Certo, espere um pouco! Disse um dos seqüestradores.
Durante todo este diálogo não perdi uma só palavra.
Focalizei ora o capitão, ora o tomador de refén. Os dois homens na casa se olharam e um deles fez um aceno com a cabeça em minha direção.
_ Você esta gravando mesmo ai ? Perguntou.
_ Claro que sim!
Dito isto foi até a janela e gritou para fora.
_ Vamos sair, não atirem!
_ Soltem os reféns primeiro!. Depois saiam com as mãos para cima.
– Nada feito! Sem refém a gente se ferra. Vamos largar as armas primeiro, um de cada vez, depois soltaremos os reféns. Senti que aquele seria o momento culminante. Os bandidos largaram as armas e colocaram as mãos na cabeça e foram caminhando em direção à porta. Os reféns correram para o fundo da casa.
- Estamos nos entregando, a TV ta filmando tudo, largamos as armas, não atirem, a imprensa ta vendo tudo, não atirem, tamo saindo, na paz, numa boa.
Eles foram saindo e a policia os prendeu sem muito esforço. Depois filmei os reféns chorando e a policia entrando na casa para recolher as armas deixadas no chão.
Quando a noite foi novamente envolvida pelo silêncio da madrugada e que só os cães ladravam ao longe, foi que consegui respirar aliviado. Claro que temi que alguma coisa pudesse ter saído errado. Bandido quando sai para cometer algum crime, esta disposto a tudo, para ele tanto faz matar ou morrer. Neste caso a solução foi pacifica. E você telespectador, que certamente assistiu a estas imagens, e a outras, saiba que onde houver acontecendo uma noticia, haverá com certeza um Cinegrafista, profissional especializado em captar áudio e vídeo, sob qualquer circunstância, a qualquer hora, em qualquer lugar, independente se queiram ou não. Este é o meu trabalho. Honesto e digno, igual ao seu.


Adão Jorge dos Santos
Enviado por Adão Jorge dos Santos em 30/10/2005
Código do texto: T65273
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Sobre o autor
Adão Jorge dos Santos
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 56 anos
70 textos (8136 leituras)
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Adão Jorge dos Santos