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Neve sobre a areia

Ele andava rápido pelas ruas, na velhice de sua pouca idade, vendo as folhas caindo e falando-lhe coisas sem dizerem nada. Nunca se preocupou antes em tentar ouvi-las, mas sabia que elas diziam algo, algo que sua pouca idade não queria ouvir, mas que seu velho espírito insistia em escutar.

A vida nas ruas havia lhe ensinado muitas coisas. Uma delas era estar sempre atento a tudo o que acontecia ao redor, mas sem nunca se ater a nada. Afinal, se a vida já era curta, a dele era ainda mais. Sabia disso na velhice de sua pouca idade.

Ele não sabia ao certo quando essa sabedoria “brotou” em sua mente. Mas não deixava de ficar contente ao olhar para o mundo em sua volta e ver todos preocupados, ouvindo atentamente o que diziam as folhas que caiam das árvores no outono quente. Ele, ao contrário, se despreocupava e deixava s folhas caírem. Elas que dissessem o que quisessem dizer!! Pouco importava. Isso no fundo o deixava feliz. Ele achava que essa sabedoria havia “brotado” em sua mente num dia em que o outono foi frio, se é que algum dia o outono foi frio. Deve ter sido em um dia no qual sua velha alma quis habitar em um corpo com mais idade. Nesse dia o outono deve ter sido frio e então as folhas que caíam falavam e eram ouvidas. Mas isso não acontecia agora, se é que em algum dia aconteceu.

Mas o fato é que agora lá está ele, na velhice de sua pouca idade, perambulando pelas ruas, com destino incerto, enquanto as folhas desabam das árvores, quase o afogando com suas palavras que ele não queria escutar. E assim continuaria.

Já a moça, parecia ser diferente. Quando ele a viu, ambos foram tomados por um súbito mal estar. Ele sentiu que ela também se incomodou a partir do momento em que seus olhos se cruzaram. Eram perfeitos estranhos um ao outro, mas a sensação de incômodo que experimentaram ao se encontrar só poderia ser sentida por pessoas que já se conheciam há muito tempo. Se ele escutasse o que as folhas diziam, certamente (pensava ele) elas iriam dizer que aquela estranha era sua velha conhecida, uma velha conhecida cuja alma entrava em choque com a sua, não se sabe o porquê, mas que, apesar do choque, tinha afinidades. Talvez porque fossem muito diferentes, embora ele não acreditasse que as diferenças tenham que necessariamente provocar repulsa. No máximo, impossibilitam a convivência, embora nesse caso, eles estivessem convivendo juntos, caminhando lado a lado, a partir do momento em que se encontraram.

Mas o fato é que eles eram realmente muito diferentes. Ele tinha pouca idade, mas era muito velho, seu corpo era fraco, mas no qual habitava uma alma forte. Ela parecia mais tranqüila que ele, porém tratava-se de uma calma aparente (a arte de aparentar algo que não se passava dentro de sua alma sempre foi uma especialidade sua). Ela vivia em um estado de cansaço que a acompanhava há anos, como se sua alma estivesse morta dentro de um corpo semi-vivo. Na verdade, talvez no fundo eles fossem parecidos, mas aparentavam diferenças irreconciliáveis. Isso talvez só o tempo possa dizer – e, claro, as folhas que caem das árvores nesse outono quente.

E agora eles estão juntos, caminhando quase lado a lado, vivendo e existindo nas ruas que são estranhas a ela, mas velhas conhecidas dele. Quando a moça saiu de seu conforto, sufocada por uma existência que ela considerava vazia, pretendia descobrir se havia algo além das coisas que seus sentidos estavam acostumados há tempos. Não esperava que as ruas fossem um lugar tão perigoso e difícil de viver. Por vezes sentia vontade de voltar, mas queria estar tranqüila enquanto conhecia novas realidades. E nesse desejo, sua alma ajudava, pois passava ao exterior de seu corpo uma calma que no fundo não existia, e ela aprendeu desde sempre que o importante era aparentar, e não ser. Aprendeu que aparentando, manteria-se sempre jovem e acabaria se habituando ao que no início não gostava. Mas ninguém esperava que um dia ela iria usar esse ensinamento para fugir do mundo que lhe ensinou isso.

Já o moço (moço velho, de pouca idade, mas avançada) aprendeu que não adianta nada demonstrar sensações e opiniões. O correto e mais indicado era viver as coisas como apareciam, porém sem dar muita atenção. Viver de forma automática, como se sua alma fosse uma máquina ligada e programada para somente se apagar quando a curta vida chegasse ao fim. Mas algumas vezes ele chegou a se perguntar se valeria mesmo a pena caminhar pelas ruas sem se ater aos sentidos íntimos das coisas, sem prestar mais atenção às coisas que aconteciam ao seu redor e dentro de si mesmo. Perguntou-se durante muito tempo qual era o sentido de não olhar mais a fundo para dentro de si próprio.

Parou de perguntar isso quando conheceu a moça. Parou de perguntar por que percebeu que se fosse prestar atenção ao que se passava dentro de si próprio, vivendo o seu próprio “eu”, certamente iria acabar entrando no mundo do qual a moça havia fugido. Pensou que se prestasse atenção ao que se passava dentro de si, fosse para se deliciar, gostar, ou então para se indignar e querer mudar, ele acabaria querendo aparentar algo que não era o seu verdadeiro “eu”, por mais estranho que isso pareça. Talvez ele soubesse que agindo assim estava desprezando algo que ele defendia: a importância da alma, daquilo que habita seu jovem corpo velho. Talvez soubesse disso, mas não dava importância, não dava importância porque temia que, se desse importância a isso, acabaria perdendo isso que ele tanto prezava.

No fundo, ele e ela eram iguais, mas diferentes. Fugiam de algo, mas acabavam levando esse algo dentro de si na tentativa de livrar-se dele. Passaram a caminhar juntos pelas ruas, mas poderiam estar caminhando juntos em qualquer lugar, inclusive no mundo do qual a moça fugiu. Não importava.

O tempo passou. Não se sabe quanto tempo passou... não se sabe quantos outonos se foram, mas se sabe que foram todos outonos quentes (o tão ansiado outono frio nunca chegou para eles). Até que finalmente pararam de andar e deitaram-se. Ele, olhando para o alto, decepcionado com o que não via, mas encontrando um mínimo de conforto nos olhos dela. Ela, deitada olhando para baixo, também decepcionada com o que fugia de sua vista, mas também se confortando minimamente com os olhos dele. Ficaram deitados, ela sobre ele, até que tudo foi se apagando. Duas criaturas tão diferentes, mas tão iguais, fugindo de mundos tão diferentes, mas tão semelhantes. Fugindo sem conseguir, por mais que se afastassem desses mundos, pois esses mundos estavam dentro deles próprios. Por mais que fugissem, o outono sempre seria quente.

Mas agora, tudo está se apagando. Deitados juntos, eles vão morrendo aos poucos... vão morrendo juntos, numa estranha união, uma união de dois seres incompatíveis, mas que no fundo sempre foram os mesmos. Tanto que caminharam juntos, e morreram juntos, abraçados, numa estranha união improvável, como a neve que cai sobre a areia.
Finalmente, o outono chegou frio.
Vitor Souza
Enviado por Vitor Souza em 15/09/2007
Código do texto: T653308

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Sobre o autor
Vitor Souza
Piracicaba - São Paulo - Brasil, 38 anos
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