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De óculos escuros

                                    Abri a porta do quarto de trás de casa, onde repousavam as empregadas domésticas e me deparei com toda a desorganização delas. Uma toalha de banho no chão, um tamborete e sobre ele, um pequeno aparelho de som, a cama desforrada e com a ponta do lençol varrendo o chão com a ajuda do vento que entrava pela janela escancarada. No chão voavam pequenos pedaços de papéis bem rasgados. Dava para se ver que eram bilhetes que haviam sido destruídos. Mas foi sobre o travesseiro, claramente posto, que  enxerguei a caixa do anovulatório que  achei que ela usava. Na caixa, escrito à mão, o nome dela em letras garrafais. Tudo estava claro: ela era diferente do que nos contava.
- Doutor, tenha muito cuidado com Izaura, pois ela é uma moça pacata, mas é moça e carece de ser melhor vista. O senhor não acha?
      - Não se preocupe! Ela será orientada. Qualquer coisa eu lhe direi e a gente resolverá.
                           E deixei para trás a cidadela escura, cheia de miséria, quando os grilos do começo da noite já cantavam alto e de forma intermitente. Não havia lua no céu e as nuvens, até há pouco alvas, já deslizavam umas sobre as outras, escurecidas, abandonadas pelo Sol e tragadas pela escuridão da noite que apenas começava, mas, já bem notadas.
                         Eu dirigia pensando na preocupação daquela mãe, tão preocupada com a filha, a sua mais velha. E recaía sobre mim cuidados especiais: eu tinha que guardá-la dos lobos insensatos e das mãos desgovernadas que algumas almas sequiosas de sexo possuem. Bem que isso tudo poderia avançar sobre ela.
                        Ela estava engraçada! Os vidros do meu carro eram escuros e ela não retirou dos olhos os óculos escuros. O que imaginava estar vendo? Deixei-a à vontade. Ela não sabia que eu sabia tudo ou quase tudo sobre ela. Sabia? Nada! Conversamos a viagem toda. Nem precisei puxar assuntos; ela se encarregou de atualizar-me sobre sua cidade e seus costumes.
      - Mãe não deixa eu namorar muito. Ela é dura!
      - Tem lá suas razões. Você é nova e de menor ainda.
      - E isso quer dizer nada?
                       Deixei-a retirar,  suas próprias conclusões. Eu não podia alimentar nela qualquer concordância com o discurso oral que defendia. Ela estava se jogando sobre as minhas palavras, querendo ser conquistada ou conquistar-me. Mas de sua boca separava-nos sua ignorância! Eu, seu patrão e, acima de tudo, casado, não poderia expor-me a esse quase ridículo. As minhas atitudes tinham que ser premeditadas e sérias!
                      Deixei-a valsar com os tropeços de seu discurso. Meu olhar olhava a estrada escura e os raros carros que me cruzavam em sentido oposto.
                      Ela passou meses lá em casa. Sempre desorganizada e suja: não gostava de tomar banho. Vivia com roupas novas bem passadas e de cores chamativas. Não retirava seus óculos escuros da face, por nada neste mundo; até à noite nós podíamos vê-la assim. Eu, seriamente zombava dela dentro de mim; achava-a uma desmiolada!
Mas resolvi ligar para sua mãe e contar-lhe tudo. Pensei bastante acerca da conseqüência que isso causaria. Mas...
      - A gente viaja amanhã.
      - E o senhor vai me tirar daqui?
      - É preciso. Você voou alto.
      - Está me chamando de passarinho? Eu não sei voar não!
                               Eu sorri. Era uma covardia grande jogar aos seus ouvidos isso que eu iniciara. Fiz-me de tolo para entendê-la melhor. Ela estava com os olhos  rasos d’água.
      - E esses anticoncepcionais que você está com eles?
      - Esse aqui?
                              E mostrou-me a caixa com as mãos espalmadas...
Meu mundo caiu! Eu aprendi a não querer pastar nos olhares alheios; cuidar de minha família seria bem melhor. Eu não sabia de nada!
      - Por que está usando esse remédio? Você não é virgem?
      - Sou, doutor, e como sou!
      - Mas, para que está usando?
      - E quem disse ao senhor que eu tomo eles?
      - E de quem são eles?
      - De Vandália!
                            Eu pude então depreender de tudo isso que não estava olhando mansamente as minhas ovelhas. Vanda tinha apenas quinze anos, saía pela manhã para o colégio, à tarde para o ballet, o inglês e, à noite, ainda ia fazer tarefas escolares na casa de seus coleguinhas. Nunca deixava a sua irmã mais nova ir junto.
Eu era um pai desinformado que olhava uma jovem matuta zelosa de sua virgindade e, esquecida de sua higiene pessoal. Eu confundi alhos com bugalhos. Minha filha era uma mulher e eu não percebia!
                          Seu quarto era impecável. Quando o adentrei para ir ter-me com ela, vi sua cama bem forrada, seu quarto limpíssimo, cheirando a perfume. Na escrivaninha, seus livros arrumados e no guarda-roupa os cabides ocupados em ordem. Sobre o criado-mudo eu vi uns óculos escuros iguaizinhos aos da outra. Ela não havia chegado ainda da escola. Quando saí do quarto, encontrei a empregada de óculos escuros a brincar candidamente com uma cigarra que havia trombado na parede alva da copa.
      - Oi, doutor, isso dá muito lá pra nós... O senhor sabe o que é, não sabe?
                            Eu acenei com a cabeça e fui ler o jornal enquanto a outra chegava. Iria pensar se conversaria tudo com ela ou passaria também a usar óculos escuros a partir daquela data. Meu olhar teria que aprender a olhar diferente para ele próprio, já que às claras o que ele conseguia enxergar era escuro demais diante da realidade.



Paulino Vergetti Neto
Enviado por Paulino Vergetti Neto em 16/09/2007
Reeditado em 11/12/2013
Código do texto: T654641
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Sobre o autor
Paulino Vergetti Neto
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 59 anos
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Paulino Vergetti Neto

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