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Vive a vida que amas!

dedicado à memória da Thaynara

nasceu em 25-09-1975
faleceu em 29-04-2007

Que descanses em paz lá onde estiveres, nós aqui nunca te esqueceremos!









Prólogo - A Saudade Intermitente

As lágrimas passeiam-se nos olhos sem motivo aparente. Não há mortes a lamentar, apenas vidas para festejar. Podia vir por alegria ou por tristeza, apenas estão presentes e têm uma história para contar.

Lembro-me que a primeira mensagem que lhe deixei falava da celebração da vida. Da celebração do que é meu/nosso até ao fim dos tempos. Era apenas uma mera música pop inglesa com teclados de um germânico, «Until the End of Time», assim canta Bernard Sumner.

Lembro-me e as lágrimas que se encontram com urgência de cair levam um pouco dessa saudade, da intermitente conclusão colocada a um amor nascente.

E depois querem fazer-me acreditar nas vitórias do bem sobre o mal, claro que não posso ter essa confiança se a dança dos amantes e dos crentes na felicidade eterna é interrompida na justa causa que é ser venenoso, ganancioso e impostor da felicidade alheia.

Não há-de ser por acaso que certas feridas no coração nunca se fecham, que há amor que dura para sempre mesmo sem a presença física. Não eu não quero acreditar no vazio para lá desta vida, na justa medida em que a saudade termina quando a alma se liberta do corpo. O contrário apenas é acentuado, mesmo que intermitentemente.

CAPÍTULO 1 - BENJAMIM, SUSANA, MARIA

1.
Numa tarde quente de Primavera, o pensamento fixo nas vantagens e desvantagens de uma saída para o estrangeiro, ânsia de mudança, sempre uma perspectiva nova para que o corpo e a alma mantenham a relação intensa que sempre tiveram e a vida não termine. A saída do país, algo que sempre envolveu o pensamento de Benjamim, trinta e quatro anos e um passado pouco interessante. Agora que terminara a sua relação de quase vinte anos, mais aprazível se tornava pensar naquela solução para dar um novo rumo à sua vida.

Dentro do seu fato feito à medida que suscitava o olhar da multidão, quase que sentia o que não achava ser possível há algum tempo, no fim do que já funcionava por hábito, o amor há muito que se fora, apenas restava o sexo, quase sempre por obrigação. Como pensar num casamento, em filhos, em ter uma casa para viver se não conseguia sequer ter uma conversa com Maria, oficialmente uma perfeita estranha.

Seguia sempre pelo mesmo passeio. Depois do trabalho, na Rua Augusta, onde pintores amadores expunham os seus quadros com gravuras de Lisboa, por vezes até parava, especialmente quando via aquela imagem do eléctrico que o fazia recordar-se das inúmeras viagens a caminho da casa de Maria... e quando parava no passeio, no sinal vermelho quase sempre havia um a passar, na Rua da Conceição.

Os turistas passeavam atarefados, mal vestidos, com um olhar de parvos não se sabia muito bem focado em quê e uma caneca de cerveja numa das mãos. Ao mesmo tempo vociferavam qualquer coisa ininteligível que não o tirava do seu caminho, dos pensamentos alucinados, na paz que sentia desde que terminara aquela relação sufocante.

Esta caminhada podia estender-se por uma eternidade, especialmente se não queria ir para casa, vazia de amor apesar do outro corpo que cirandava por lá fazia muito tempo.

Tudo se decompôs até ao dia do estertor final provocado pelas infidelidades que cada um pensava que o outro havia cometido. Caminhando no meio daquelas ruas sem trânsito, o passeio estava preenchido com obras de arte cujos motivos já andam esquecidos no tempo. Parecia então que tudo parara. Talvez não, era uma forma de se sentir num mundo mais interessante, onde além dos passos de gente que não parava para respirar, haviam os dos turistas de pé descalço, com o seu cartão de crédito milagroso, os seus dólares sujos e dobrados ou ainda aqueles que traziam os traveller cheque que ninguém trocava com medo das falsificações.

Por vezes até lhe dava para parar numa montra, mirar os plasmas gigantes, sonhos de consumo que o punham a fazer contas mentais de dividas possíveis, mesmo ao lado uma sapataria, algumas moças muito atraentes confundiam-se com a visão do plasma e lá desviava a atenção para elas que não deixavam de o observar com atenção.

2.
De vez em quando o coração palpitava, havia sempre aquele momento em que a sua amiga Susana lhe ligava, era curioso que havia sempre algo para os dois falarem.

Haviam-se conhecido há dois anos, num dia de muita chuva, pouco antes do Natal. Nas ruas loucas, de muito movimento, em que Benjamim sonhava em ser raptado por uma qualquer Afrodite que o levasse para um jogo de lençóis, onde se perderiam nas mais endoidecidas travessuras. E de repente regressarem à rua onde se dizia haver mais gente a fazer compras em Portugal inteiro. Perante este cenário não parava de sorrir.

Pura loucura a daquele coração com tanta paixão escondida, injustiçado por uma namorada, que dizia ele, só gostava da carinha bonita dele, do sexo quente e desenfreado, queixando-se sempre da falta de atenção para as necessidades dela de sair, de ir à discoteca, de dançar, menear as ancas alucinadas do ritmo contagiante. Benjamim adorava ver as ancas das amigas de Maria menearem-se numa dessas discotecas de música latina, os olhos entortavam de tanta mexida ... mas ele sempre se convenceu que é um pé de chumbo sem ritmo para acompanhar e dominar aquelas leoas sedentas de ritmo... talvez se as soubesse comandar na pista de dança as levasse mais facilmente para a cama. Sem o experimentar como sabê-lo? Ainda tentou aprender a dançar, mas ficou-se pelas vistas que transbordavam sensualidade por todos os poros.

3.
Voltando à Rua Augusta, tinha ele apenas dois meses de trabalho naquele que é hoje o seu emprego, ainda os sonhos eram outros, ainda o sorriso comandava, obrigando os olhos a brilhar sem motivo. Deve ter sido numa dessas passeatas, que Susana, trinta dois anos, um metro e sessenta de altura, calças de ganga bem justas que delineavam umas pernas cheias, bonitas como ela no seu todo. De cabelos castanhos longos, um ar muito sedoso e um perfume que a tornava irresistivel, faziam antever uma mulher atiradiça... as aparências iludem não é? Susana era, é, e parece que vai ser sempre diferente.

Já não era a primeira vez que se viam, mas nunca haviam dirigido a palavra, nem sequer se tocaram ou estiveram perto disso, apenas tinham a noção que trabalhavam perto um do outro, ambos se tornavam mutuamente timidos na presença um dos outro, pensando que cada um tinha a sua relação estável, tão bem parecidos que eram, não se punha outra solução.

Mas naquele dia 23 de Dezembro, ele atalhou caminho para uma loja que tinha uma pequena secção de roupa masculina lá ao fundo. Tinha debaixo de olho uma gravata que lhe agradava e que vira numa outra loja pertencente à mesma cadeia. Lá foi convicto de se presentear. E já agora uma última surpresa para os pais e Maria.

Passou por Susana e não pode deixar de ficar inebriado com aquele aroma doce e leve, muito leve que pairava junto a ela, não pode deixar de parar, olhar para ela e  deixando-se levar pelo aroma meteu conversa.

- Desculpe - avançou ele um pouco a medo...
- Sim - respondeu ela com uma candura irresistível, nada desconfiada
- Posso fazer-lhe uma pergunta?
- Diga...- disse ela não conseguindo esconder um sorriso tímido, desconfiado que lhe dava um charme irresistível
- Não se preocupe - disse ele lançando um sorriso algo envergonhado pela situação que criara - Apenas gostava que me desse uma pequena ajuda, não estou habituado a comprar roupa e queria...
- Hmmm - o desconcertante à vontade dela, surpreendeu-o, parecia estar habituada a galanteios de toda a espécie, tal o charme que saia de cada poro do seu ser...
- diga-me primeiro uma coisa...
- Sim - ... lançou ele de novo outro sorriso envergonhado...
- Eu já te conheço... ah desculpa... posso tratar-te por tu?
- Claro que sim...
- Como ia a dizer, de há uns tempos para cá não tenho deixado de reparar que andas por aí algo perdido
- Desculpa? - ficou ele com o seu ar de menino espantado...
- Meu querido, não é com intenção de ofensa, mas vejo-te todos os dias, ao contrário de muitos que me lançam aquele piropos pirosos e me comem com os olhos... -  desde logo ficou como que encantado tal a diferença de Susana para Maria... - tu mal me vês, e confesso, teres vindo ter comigo não é assim tão inocente...
- Desculpa - alterando-se o semblante dele, enrubescendo um pouco as faces... - andas a seguir-me???
- Calma, nada disso, apenas te observo, é difícil não o fazer, és um homem bonito, elegante e com modos que não vejo em muitos outros...
- E como vês isso só de me veres por ai? - ficou algo surpreendido com tanta coisa dita a seu respeito, ele que pensava ser um esquecido de Deus...
- Há aquela intuição muito feminina, o chamado sexto sentido... mas atenção se calhar até estou enganada... - disse ela a rir-se e passando a sua mão macia, extremamente macia (dir-se-ia que o Céu estava naquela mão) pela mão de Benjamim -...
- Pois eu senti-me atraído pelo cheiro que vinha de ti... desculpa se sou vulgar… - baixou a cabeça e olhou encantado para os seios de Susana, mulher linda, meu Deus!!!
- Hmmm - sorriu de novo como se o tivesse feito de propósito - É doce não é?
- Provocante diria eu, mas cada maluco com as suas manias - ficando pela primeira vez à vontade...
- Pois então vamos lá ver essa gravata... - pegando no seu braço.
- Vamos, vamos, isto é demais! - disse ele sem conseguir esconder o seu sorriso que conquistara a Susana, muito tempo antes.

Todos os dias, ele lembrava-se dos pormenores daquele primeiro momento com Susana, uma mulher, que nunca pensara ele o admirava assim à distância, sem qualquer interesse senão o de manter uma amizade... Porquê apenas amizade? Ele é um daqueles espécimes que não sabe ser infiel, antes só que mal acompanhado e quando acompanhado dedicado até à morte.

E durante esse dois anos, foram muitas as tardes em que se encontraram, muitos os olhares cúmplices que trocaram, mas Benjamim pensava só ter olhos para Maria, com quem saía todos os dias à noite, sempre nos mesmos sítios , sempre com as mesmas pessoas... até pareciam já um casal, só faltava mesmo viverem juntos. E enquanto estavam juntos ia sendo cada vez mais evidente o distanciamento de Benjamim que punha o seu pensar em Susana, o seu porto de abrigo mental, a sua alegria interior, com quem sonhava naqueles instantes da tarde, após sair do trabalho e até ir para casa. Tornaram-se amigos inseparáveis , sem trocarem números de telefone, sem se envolverem fisicamente, sem sequer darem um lânguido beijo na boca. Algo estranho nos dias que correm, mas que criou uma cumplicidade como que eterna entre os dois, que sabiam lá bem no fundo que algo de majestoso lhes estaria destinado.

4.
E lá seguiu ele pela rua do grande comércio, numa tarde de primavera quente, com quase 30º C, o que o fazia sentir um pouco desconfortável dentro daquela gravata que lhe apertava o pescoço e o sufocava. Desapertou o colarinho, a pensar na Susana. Ao mesmo tempo teve uma fantasia muito própria de um homem que está sozinho, era como se em vez de desapertar o colarinho estivesse antes a desapertar-lhe a blusa, a sentir a sua língua passear pelos seus seios quentes. Isto parecia quase heresia, atendendo à relação de amizade profunda, intimista e feita de olhares que tudo subentendiam. Mas depressa voltou ao seu estado normal de mero transeunte, já perto da Avenida da Liberdade, sempre super movimentada e poluída.

Nesse dia telefonou-lhe...

- Está lá, querida?
- Oh meu doce... agora não posso falar
- Hmmm , que vozinha é essa?
- Estou a comer um rebuçado de morango e tenho uma garrafa de champanhe
- Gulooosa, manhosa ... olha... quero ir ter contigo, tenho um assunto importante para falarmos...
- Estou-te a ver meu lindo... essa voz muito séria... que tens?
- Preciso mesmo estar contigo
- Nunca te ouvi falar assim, bem sabes que à noite é um pouco complicado
- Eu sei que sim, não te quero forçar... mas...
- Já te conheço fofo... sempre posso dar uma desculpa...
- E ele zanga-se...
- Ele quem? - do outro lado Susana riu-se - e tu não tens de dar satisfações?
- Prefiro que falemos olhando um para o outro
- Hmm hmm , sim senhor, estás bonito! - e sentiu-se um riso suave, que o embalou
- Então podemos combinar um sitio?
- Vem-me buscar ao emprego...
- Claro que vou... mas depois vamos até à Amadora, quero ir buscar o carro...
- Então passa por aqui às sete e meia, a essa hora já posso sair...

5.
Dois anos depois Susana, havia mudado de emprego e estava prestes a assumir a Direcção Comercial de uma empresa na qual implantara algumas ideias revolucionárias para os cânones da nossa sociedade e que fizeram disparar surpreendentemente a procura no mercado. Ela sempre fora metódica e o facto de sempre ter conseguido gerir de forma perfeita a vida pessoal permitiu-lhe subir de forma sustentada na carreira. Mas só de há um ano e meio tinha dado o grande salto, quando todos lhe vaticinavam a desgraça, por ser mulher, por ser bonita, ou apenas por ser mais inteligente, expedita e experiente que todos os seus colegas de trabalho? Ao mesmo tempo é a mulher doce e meiga que fez Benjamim acreditar que a vida era algo mais que a fria Maria.

CAPÍTULO 2 - MARIA E BENJAMIM

1.
Maria, sempre fora uma moça recatada, com notas excelentes na escola, pais católicos e exigentes que tinham a vantagem de não a proibir de sair à noite, ela própria continha-se nessas aventuras. Não, ela não era uma santa, não semeava o amor em alguma paróquia, nem ia à catequese, o que tinha a fazer, fazia-o, a sua forma de agir evitava-lhe sempre problemas desnecessários, sempre havia sido assim, mesmo em pequena

- Senhora Josefa - a sua mãe ostentava orgulho naquela moça - veja bem o mimo de menina que tenho em casa, a melhor da turma! A melhor da turma! Farta-se de estudar! Não é como essas galdérias! - colocando o seu ar de sinistra senhora, vestida de negro, de luto, já nem sabia por quem -
- Linda menina! Linda menina! Com quantos anos estás?

e apesar disso sempre fora de poucas palavras, apenas dizia o essencial para não a perturbarem. O seu poder de observação levou-a a aprender cedo os trejeitos de menina, as maneiras bem comportadas, o que a fizesse o mais feminina possível. Assim ninguém diria nada quando algo de estranho acontecesse, não seria ela a culpada de nada decerto. Na escolha apenas se dava com alguns rapazes, não queria nada com as meninas balofas da turma, aquelas conversas de falso deboche, das unhas pintadas de preto e das barbies retardadas, o que a interessava eram os rapazes e facilmente conheceu Benjamim, no décimo ano. Não havia complicação, estavam sentados na mesma carteira

- Olá sou o Benjamim - aqueles olhos cor de mel enfeitiçaram-na
- Bem vindo, sou a Maria
- Maria? Só Maria?
- E chega, não precisas de mais nomes, Maria e pronto! - deu-lhe a mão esquerda debaixo da carteira, um beijo na cara e um sorriso fugaz

- Meninos e meninas vou fazer a chamada! Caluda!!! - a professora, ar de espanhola empertigada, nada bonita, parecia que trazia um avental em vez de vestido, uma dor de corno qualquer em vez de simplicidade -

e olhavam para a frente, com um sorriso convicto que a vida nunca mais seria a mesma daí para a frente.

2.
Maria nunca foi fiel a Benjamim, prendeu-o pelo sexo, pelo fervor da dedicação a ela, pela paixão e pelo suposto amor que duraria toda a vida e mais além. Pura fantasia para a mulher que ela desde cedo sonhou em ser. Benjamim não passava de um disfarce na desenfreada corrida contra o tempo de Maria, que estava doente de algo que não se conhecia a cura, algo que a tornava insaciável, sem nunca quebrar um segundo que fosse na ansia de manter a adrenalina em níveis elevados. Todavia nunca aparentou nada disso, nunca ninguém se apercebeu daquela faceta, daquele suposto mal que a afectava. Benjamim apenas sentia que tinha a mulher dos seus sonhos, de quem se gabava a todos pelas suas proezas sexuais! - alguns riam-se para dentro, embora intrigados, que mulher, como é que ela conseguia...

3.
Durante muitos anos, cada um na sua casa, conhecendo cada canto do corpo um do outro, suportaram-se mutuamente sem sequer se chegarem a conhecer enquanto homem e mulher. O sonho de tanto homem! Rica na cama, bem temperada na mesa...

Maria, sempre em silêncio curou-se, por artes mágicas, da sua maleita de adrenalina no limite e passou a ser apenas a mulher de Benjamim, era a altura de assentar, de casar e fazer o que fosse possível para que ele nunca a deixasse. Tentar mudar-lhe alguns hábitos, a personalidade e adaptá-lo à vida secreta que ela tentara manter. Não deu resultado. E adaptou-se ao erro cometido conseguindo erradicar aos poucos a vontade indomável de amor que Benjamim tinha por ela. Ele demorou a perceber isso tal a cegueira que o dominava.

4.
E um dia teve uma promoção no seu trabalho, começou a ter menos tempo disponível para Benjamim, o olhar não se cruzava, a vida já não entusiasmava, os segredos tornaram-se rotina

- Amor está na altura de nos juntarmos, todo o tempo vai ser pouco para nós
- Sim doce, está na hora! - os seus olhos ferviam de desejo, da vontade de juntar os trapinhos por fim!

Havia chegado a altura de se juntarem. Maria tinha escrito numa pequena agenda algo do género, para não se esquecer que tinham de se juntar.

Dois anos de intenso amor, de puro deleite e encanto fizeram-no acreditar que aquela relação era mesmo para toda a vida. Mas na agenda de Maria estavam outros planos e mesmo as discussões foram planeadas, e elas começaram a acontecer. Maria achou que o melhor seria separarem-se, uma simples semana depois de se decidirem casar. Apenas dava lhe dava jeito afastá-lo da sua vida após a pós-graduação, um sacrifício suportável no entender mecanizado da sua mente que tinha tanto de metódica como de fria e calculista.

5.
O homem era burro, cego de amor, mas um dia pegou na agenda, porque a mulher até podia ser um monstrinho frio e calculista mas não era perfeita nesse jogo. Porventura aquilo nem era um jogo.

Ao princípio apenas um mero sorriso lhe invadiu o rosto ausente de rugas, de desgosto. Deveria abrir uma agenda do seu amor? Invadir a sua privacidade? Não! Qual privacidade, já tinham tantos anos de comunhão, seria apenas conhecer um pouco mais da mulher dos seus filhos, que ele não encarava mais mulher nenhuma ao cimo da Terra. Achava mesmo estranho nunca ter sentido a curiosidade de ler o que estava naqueles cadernos que ela tinha fechados num baú ao qual ele nunca tivera acesso, apenas porque não quisera.

Ao acaso foi folheando o último caderno e se da primeira paragem se deliciou com a ternura que sempre conhecera de Maria, depressa se lhe gelou a vontade de continuar

«É preciso marcar o dia em que vamos viver juntos...»

e o cansaço que tinha do trabalho, passou-lhe, a curiosidade falou mais alto e continuou

«Escrever alguma coisa coerente para começarmos a discutir daqui a dois meses... chega de fantasia...»

e caiu para trás, não continuou a ler, estava tudo dito, deixou o livro onde o encontrara e saiu de casa. O emprego que tinha era bom, podia dar-se ao luxo de ir viver uns dias para uma pensão que não ficava em cuidados nem a vida lhe começaria a trazer amarguras... chorou, chorou desalmadamente, como um menino que se sentia humilhado pelos colegas da escola. Aquilo tinha-o forçado a cair no mundo real. Mas não lera tudo.

- Estou? Amor?
- Maria...
- Que voz é essa... - ao mesmo tempo que falava com ele um homem qualquer beijava-lhe o pescoço, sem ponta de emoção da parte dela...
- Lá no emprego deram-me uma notícia...
- Ah sim? - qual a surpresa naquela reacção? ela sempre fora assim, desligada -
- Sim - o que durante tanto tempo lhe pareceu normal, agora estranhava -
- Mas não me parece que estejas contente - deu uma risadinha, aquela que ele tanto gostava...
- Pois, volto daqui a uns dias, vou para a Alemanha para a sede, é formação para a Direcção de Qualidade.
- Sim senhor! Sr. Director, mais dinheiro a caminho!!! Parabéns menino!
-Adeus! - e desligou amargurado -

Antes parecia-lhe tudo normal, que o interesse era verdadeiro, que o caminho bom, mau, o que quer que fosse era o destino traçado para os dois, que a comunhão de espíritos era uma força inabalável! Era... o seu cântaro de estimação partira-se sem hipótese de reconstrução, o seu orgulho jamais lhe permitiria voltar atrás.

E nesse mesmo dia conheceu Susana...

CAPÍTULO 3 - SUSANA, THAYNARA E BENJAMIM

1.
Na nova aventura de Susana no mundo empresarial, estava a recordação de uma amiga que havia falecido há pouco tempo, um daqueles seres que passam de rajada na vida e que conhecera, por fim, numas férias comemorativas do seu novo posto de trabalho passadas em Campos do Jordão, no Estado de São Paulo, após alguns meses em que as duas falaram de alguém muito especial na vida de Susana.

A sua beleza ofuscante em nada contrastava com a profunda sensibilidade e dedicação aos amigos.

Muitas lágrimas foram vertidas na tragédia provocada pelo ódio desenfreado de uma mãe que nunca gostou daquela filha que merecia mais que o mero Céu. Decerto está por lá a torcer por aquele novo amor da sua amiga Susana

- Minha querida nunca se esqueça de lhe dizer o quanto o ama - os profundos olhos azuis brilhavam mesmo no escuro denso das trevas que lhe entravam pela alma a dentro -
- Tenho medo...
- Chega de o ver, de o sentir à distância, arrisque... - e pegava-lhe nas mãos, quatro mãos delicadas, que emanavam toda a energia boa do mundo -
- Mas tu és linda, mulher, é vê-los todos a babarem-se
- Você sabe bem que o amor que me povoa a alma é indiferente a isso
- Lindo, muito lindo esse amor!!!
- Você é linda - os olhos azuis fixavam-se em Susana com uma doçura inigualável, como se com um simples olhar todos os males do mundo se fossem embora.

2.
No seu escritório Susana tinha uma simples secretária, onde tinha um poema que lhe havia sido dedicado por Benjamim, que usava como lenço para enxugar as lágrimas da alma, das ausências forçadas a que tinham de se sujeitar, nem sempre pelos motivos mais nobres, porque a pobreza de espírito assalta sempre as mentes mais pequenas e Susana era forte motivo de inveja entre as colegas, de profundo assédio entre os homens. Fazia-lhes confusão uma mulher subir na carreira pelo mérito do trabalho apresentado, sem que tivesse de abrir as pernas para que algum chefe lhe enfiasse alguma frustração mal resolvida em casa. Susana seguia de cabeça erguida de cada vez que lia o poema

«Quero ficar contigo
esquecer os antigos dias cinzentos

Dentro de um fato a rigor
mais pareço um invólucro perdido

Sem ter quem amar sinto-me vazio
e tu dás-me toda a vida

Fazes a luz nascer dentro de mim
sublimas todo o amor
que tenho dentro de mim

Que viaja à velocidade da luz
encontrando-te em cada pedaço
da viagem ultrasónica

Encontras a paciência
no meio do caos
da minha alma
a vida não pára

Passo horas a viajar
desde que te conheço
mulher linda de morrer
eterna no meu coração doido

Amo-te como um louco
quero-te inteira
de corpo e alma
antes que o coração pare

Susana de minh'alma
a vida é feita de amores
de dores e odores
contigo os milagres acontecem
e o amor é vida!

Queres casar comigo?»

... e só de pensar que ele lhe tinha lido aquele poema em plena praia, perante os olhares curiosos da multidão que da curiosidade passou para os aplausos sem fim, todos se encantaram naquele momento e até procuravam por câmaras, à espera que fosse a gravação de alguma série de televisão, alguma novela, aquilo era bom demais para ser verdade. Mais parecia um sonho, uma comunhão de doces momentos que se tornavam realidade de uma forma nunca esperada. Benjamim, era tão recatado e pedia-a em casamento daquela forma inusitada, absolutamente alucinada! E nessa noite fizeram amor nessa mesma praia, enquanto todos dormiam o sono de justos e pecadores usuais.

Era uma mulher realizada que cumpria o desejo numa hora de pura dor e desencanto pela morte de uma amiga que Benjamim também conhecia, que estava unida aos dois de forma indelével.

Num pequeno quadro tinha uma foto de Thaynara, sorrindo sem medo da sua beleza estonteante, sem medo da morte que a levou de forma tão trágica.

Como é bom seguir de cabeça erguida!

CAPÍTULO 4 - THAYNARA - VIDA E MORTE


1.
Um dia, em Campos do Jordão, longe do rebuliço de São Paulo, em comunhão com a natureza selvagem, mais parecendo estar numa montanha gelada da Áustria, talvez pela influência da sua formação como jornalista, Thaynara foi observar, em absoluto silêncio a copa da sua árvore preferida no Bosque do Silêncio, lembrava-se com uma certa nostalgia da primeira vez em que avistara Giovanni, numa das suas viagens a Itália. Foi de curta duração, ambos se roçaram ao de leve um no outro e os olhos azuis de Thaynara enfeitiçaram aquele latino de famílias abastadas, como a alma da jovem mulher. Como o silêncio cúmplice que ficou desse dia para sempre gravado nas almas doravante apaixonadas.

Foi uma paixão avassaladora que seguiu durante muito tempo através do msn. Como era possível que um pequeno ecrã motivasse um amor tão forte, tão poderoso que levaria aquele homem a viajar até ao Brasil, para viver com uma sereia que fazia vibrar todos quantos com ela se cruzavam. Só que em vez de ir viver com ela, comprou-lhe uma casa, por amor, pelo prazer que tinha em ver aquela mulher feliz. Arriscou na ultima cruzada da sua vida.

Mas o amor teve os dias contados, uma brutal doença levou Giovanni na flor da vida e Thaynara ficou com o coração abandonado a uma sorte sem gosto. Fixou-se então na profunda paixão que nutria pelo jornalismo e acima de tudo pelo seu pai, o obreiro da personalidade fascinante daquele anjo que amava muito para lá dos simples galanteios.

A sua mãe, abandonara-a na infância, comportando-se como uma víbora sem escrúpulos que tentaria por todos os meios minar a felicidade da filha. Era o seu grande desgosto, a sua grande decepção estava na ausência do calor materno. Isso veio a torná-la muito fechada ao mundo que a rodeava. Apesar disso a cada dia que passava era uma mulher cada vez mais atraente, e sentia que o corpo dela é que dominava a vontade dos homens se aproximarem dela. Afastou-se cada vez mais deles e com isso fechou o coração, ferido com a morte de Giovanni. Ainda teve que levar com a inimizade da família do italiano que depressa se tentou apropriar da casa que este deixara à sua amada.

Foram tempos difíceis, deixou mesmo de navegar na net, de viajar pelo mundo como tanto gostava, fixou-se pelo intenso mundo que é o Brasil e começou a viajar sobretudo para o extremo sul, rumo ao frio que vinha das Pampas, algo que nunca lhe arrefeceu a dignidade.

Quando se fixava em Campos do Jordão, nas passeatas longas, intensas e introspectivas que fazia, passando sempre pelo Capivari, zona central daquele pequeno paraíso onde morava, era sempre motivo de piropos, de galanteios, mas os seus olhos azuis, quase sempre protegidos por óculos escuros seguiam noutra direcção. O amor que lhe escapava por entre os dedos.

2.
Um dia, em casa, olhando para o computador, chorou desalmadamente, mas como que sentindo um anjo protector, sentou-se e voltou a ligá-lo, entrou no Orkut para poder contactar mais facilmente com alguns amigos e colaboradores de filiais do jornal onde trabalhava. Foi lá que veio a conhecer Benjamim. Foi lá que ficou a conhecer o amor que nascia e se consolidava entre ele e Susana, foi lá que ganhou dois amigos para a vida e que o amor renasceu.

- Faça algo Benjamim, de verdade, para que vocês se vejam...- ele no inicio desconfiou, como bom português que era - Não deixe que esse amor se vá....ou pelo menos fique ao 'léu'.

Quase no início, tendo nascido uma cumplicidade quase imediata, muito provavelmente pelas parecenças subtis de ambos, ele recebeu correspondência dela, abrindo o coração pela primeira vez em muito tempo, tal como ele lhe fizera na noite anterior movido por um impulso de ausência que ainda não sabia muito bem como lidar. Benjamim apenas queria ganhar asas e cumprir algum sonho e Thaynara deu-lhe a força necessária para continuar...

Ela insistia sempre neste ponto, a ausência era sempre o ponto fraco dos amores que se querem fortalecer e apenas se vão tornando em amizades profundas, dignas, mas que não chegam a ser completas. O amor faz-se, também, de muita presença e persistência na qualidade dessa mesma presença. Quão difícil é manter esse pressuposto.

- É engraçado que ela diz mais ou menos isso...eu é que acho que se amam... creio que pelo meu passado, eu queira que todos virtualmente sejam realidade e felizes...

O amor ao próximo era uma presença constante no discurso de Thaynara, ela abandonava a sua própria alma em prol do amor eterno que jazia violentamente no seu coração por cicatrizar.

De vez em quando falavam de Maria que Thaynara chegou a conhecer e a confidenciar. Era inacreditável a força das palavras que vinham daquele coração de ouro, fechado, amargurado, mas de ouro.

- Ela diz que ama você, mas não mais como antes, não mais com tanto desejo, mas o homem Benjamim, o ser humano....que as ausências trazem saudades, preocupações, mas acabam sendo amenizadas pelo dia a dia.

Nessa altura era a impressão que Benjamim tinha de Maria, que se viria a mostrar um logro total...

- Pelo menos resta o amor fraternal, e isso me deixa bem....um pouquinho.... queria recebê-los aqui em Campos.....mas não será possível pelos vistos, pelo menos não os dois, juntos....
Um abraço e desculpe estar conversando por aqui com você!

Benjamim apesar do amor cada dia maior por Susana sentia saudades daquelas palavras doces, primeiro acerca de Maria, depois de Susana. Ele que não acreditava em Deus, sentia-se protegido em pleno por aquele anjo, inacreditavelmente integro.

- Ela me diz a mesma coisa! Incrível!!!! Vocês sempre vão ter algo..inexplicável, mas terão....

Mesmo depois de Maria ter passado à história Thaynara tinha palavras de conforto, uma vez que ela se havia tornado adepta das novas tecnologias, mas isso e quase tudo o resto Benjamim nunca viria a conhecer... e ambos se correspondiam por email e ele apesar do coração ferido por Maria ouvia sempre Thaynara com atenção.

«Ela já anda com outra pessoa há tempos, e você um dia com amor também ao teu lado,  que te dê certo!!!! Porque és do bem e tem que ter felicidade diária com você...
Mas saiba que ela te quer muito bem, te defende....tem ciúmes...rs

Cativem sempre a amizade que tiveram e não deixem nada abalar isso....podem ser sempre cúmplices...

Conte comigo, e fale com ela, porque ela está muito mal hoje....parece que faleceu alguém muito próximo, em acidente...»


A morte levou quem não devia ter levado

«Esta Páscoa será comemorada por você em grande estilo hein!!!!
Duplamente alegria....
Se cuida , viu e nada de desistir!
Ah...nossa amada não está nada bem....hoje a vi e a coisa está brava... o corpo a cobra pelas situações....
Sem te magoar, desculpe-me, mas ela tem que ter alguém com ela mesmo, para lhe ajudar.... eta menina de vida árdua e, mesmo assim, tão feliz, alegre...eu não entendo isso.
Abraço apertado.

Thaynara»

E Benjamim aproximava-se cada vez mais de Susana, sem lhe dar a entender que havia um anjo na vida dos dois. Curiosamente na vida dos dois mesmo.

« Imaginei que fosse por isso, e nossa amiga também comentou acerca disso.....

Espero que tenha aproveitado bem seu dia....

Cada dia mais...suce$$o.

Obrigada por tanto carinho....é recíproco, embora saibas que a minha intenção seria sua união com a Maria.
Mas estou me conscientizando que isso está ficando utópico, e vou aos poucos, desencantando disso..ok?
Perdoe-me pela chatice.

Thaynara »


Thaynara tinha o condão de sentir pelas palavras dele que apesar de Susana ser quem o fazia viver de verdade, Maria ainda não estava esquecida. Mas como a vida é feita de presente ela confortava-o com a Susana que praticamente se tinha tornado a sua melhor amiga.

- Mas amo vocês dois....é um lindo casal.

Algo que nunca lhe vai sair da memória é a ultima mensagem que ela lhe enviou, foi mesmo no Orkut, na profunda vertigem de loucos que contrastavam com a sua infinita sabedoria...

«Aff...endoidou de vez, foi?
Que raio de perfil é esse?...rs

Mas a Susana me disse que é hoje seu aniversário....

Parabéns, muita paz, saúde e discernimento.
Força, coragem e esperança sempre!
Um abraço apertado e cuide-se.
Vá sempre em busca da felicidade, que ela está ao teu alcance....

Te adoro.»

Alguns dias mais tarde, tiveram uma ultima conversa no msn que se prolongou pela noite dentro, de Sábado para Domingo, a primeira vez que ele falava com ela por aquele meio. Ter-lhe-ia passado o trauma da morte de Giovanni? A conversa azedou, Benjamim era extremamente orgulhoso para admitir qualquer intromissão nos seus assuntos amorosos, mas Thaynara tinha aquele sonho de o juntar com Maria e começou a falar-lhe de tudo o que pensava. Por mais estranho que pareça e apesar da fúria de Benjamim, Thaynara manteve-se sempre calma, apenas procurando pela verdade, para que ninguém andasse por ali enganado. Mas ainda mais marcante tinha sido o primeiro email que ela lhe mandara...

«Boa noite, Benjamim.

Percebi que você 'abriu' sua vida para mim, em síntese e agradeço por isso.

Bem, minha vida é corrida, trabalho bastante, moro só por opção de saúde, pois tenho bronquite, alergias, mas não que eu goste daqui, é uma cidade pacata demais, fica movimentada apenas de Junho a Setembro (inverno nosso).
Vou resumir um pouquinho para você saber quem sou.
Minha família é de São Paulo, de um bairro simples, da zona sul.
Sempre trabalhei em qualquer coisa, pois tenho uma família muito, muito humilde.
Consegui este trabalho que estou através de um amigo, e vim morar aqui por causa da saúde, mas mando meu salário para São Paulo, e lá estou todo fim de semana, desde que não tenha nada a fazer aqui.
Minha vida afetiva está muito abalada, fechada, triste, de luto.
Em 2000 eu encontrei num chat da UOL, um italiano, e passamos a nos falar, mandar mensagens em celular, email (não havia Orkut), não demorou um mês, para começarmos a 'namorar', se é que você crê que isso exista....namoro sem ver, tocar, cheirar.
Nos apaixonávamos mais a cada dia, o tempo passou, e combinamos de nos falar todos os dias, aqui há o cartão da Embratel, e eu usava-o.
Eu não tinha condições sequer de comprar uma passagem para passear por aqui, quanto mais para a Itália; ele não queria vir, pois não queria deixar suas coisas por lá.
Foram três anos de amor, com fins, ciúmes....etc.
No meio de uma volta de uma briga, ele soube que eu estava com uma doença muito grave, uma pancreatite, e que poderia falecer, se não fizesse um transplante imediato.
Esse homem ficou louco, tamanho o medo de me perder.
Voltamos.
O mundo dizia-nos loucos.
A família minha, dizia que ele poderia ser um impostor, que poderia querer me levar para lá, para ser garota de programa....quanta baboseira!
Depois de um ano e nove meses de namoro, ele descobriu estar com uma doença...aqui se diz câncer.
Ele e eu enlouquecemos.
Ele veio para São Paulo em menos de três meses.
Não tenho como descrever para você a sensação de ver ele no aeroporto...fui de ônibus, humilde eu, sem graça pela minha simplicidade, e quando o vi, parece que não existia mundo ao nosso redor.
O rapaz com uma plaquinha do hotel dele e de outros passageiros ficou parado nos olhando....
Nos abraçamos, beijamos, como se já tívessemos nos visto (pela cam sim).
Foram duas semanas de amor em tudo, tudo o que fazíamos, eu trabalhava numa loja de shopping, ele ia me levar e buscar.
Fui a mulher mais amada deste mundo.
Ele voltou para casa, e aí começou a encrenca, eu não deixava minha família, que dependia de mim, ele não queria deixar a dele, os bens dele, etc.
Mas a cada seis meses, ele vinha e depois eu ia, nas minhas férias, ele sempre pagando as passagens.
Não deu tempo, Benjamim, de continuarmos nosso amor.
Ele comprou dois imóveis aqui, colocou no meu nome, e queria que eu cuidasse, pois seria daqui que viria nosso sustento, quando ele viesse da Itália para nos casarmos.
Foi assim por seis meses quase, alugamos os apartamentos (é um hotel, onde moro), e a loja também.
Mas Deus o levou há oito meses.
Um acidente de carro numa rodovia.
Benjamim, meu mundo acabou, desabou tudo.

Hoje, creio nesse amor que todos dizem ser loucura, que é internet, seja aqui ao meu lado ou lá do outro lado do oceano (como você disse).
Me arrependo de não ter vivido mais com ele, investido, acreditado....
Ter dito menos que ouvi, que o amava, e ele era meu mundo, meu eixo.
Ouvia e lia sempre que era amada, desejada e não dei a reciprocidade sempre, pois estávamos afastados....afastados muitas vezes, por desacreditar nessa relação, pela carência de alguém estar ao seu lado.

Minhas músicas hoje são mais tranquilas, clássicas, new age....
New Order me lembra meu amor, meu grande e eterno amor.

Desculpe o desabafo.
Você citou que é amado, minha mãe diz que temos que gostar de quem gosta de nós, e que se o amor não é em 'quantidade' igual, aprendemos a igualar.
Pena que descobri tarde demais, para meu Giovanni.

O meu msn desativei, pois era por lá que nos amávamos.

Um abraço, e ame, ame intensamente, e queira materiais para ser feliz amanhã, mas não deixe de lado seu sentimento, amanhã pode ser tarde demais.
Eu senti isso na pele, no coração, na razão, no bolso, que continua apertado como antes....

Beijos amigo.
Também te adoro.

Thaynara»

Depois apenas o silêncio, nada de surpreendente, era uma mulher muito viajada. E Benjamim andava furioso por Thaynara lhe dizer o que pensava, sem lhe ficar qualquer espinha cravada. Mas ao mesmo tempo adorava-a, tinha cada vez mais saudades dela.


3.
Quase um mês depois Susana telefonou-lhe com a voz lavada em lágrimas e Benjamim sentiu um aperto forte na garganta. Largou tudo o que estava a fazer e foi ter com ela. Num ápice, como era seu hábito escreveu um poema dedicado a Thaynara, já lhe tinha dedicado um que ela tinha exposto no seu quarto, embevecida, orgulhosa de um homem que nunca tinha visto e a mimava com o que ela gostava de dar ao próximo.

«Evitar lágrimas de dor
um oceano de amor
amizade e cores maravilhosas
a vida num contexto de entrega
de felicidade ao próximo
de crença na vitória
do amanhã entre dois seres
que desistiram
mesmo antes de começarem

Ainda me lembro dos olhos azuis
navegando num mar profundo
e se um dia reencarnares
oxalá te tragam para aqui
junto de mim
o pai que vais ter vai-te amar
e a mãe não te vai abandonar
adoro-te, adoramos-te
acreditaste no impossível
que para ti tornaste possível
e foste levada na corrente»

Saiu de casa, levou a folha e foi ter com Susana, queria saber exactamente o que se tinha passado.


CAPÍTULO 5 - ALMAS GÉMEAS

Chegado a casa de Susana, tocou insistentemente à campainha...

- Susana, estás aí? Abre lá a porta! - começava a preocupar-se, mas ela veio alguns segundos depois

- Desculpa... - entraram para dentro de casa e ela começou a chorar compulsivamente

- Pronto amor, estou aqui, tem calma - mas ele também estava quase a explodir -

Estiveram assim, agarrados mais de dez minutos e as lágrimas de Benjamim uniram-se às de Susana.

- Foi uma tragédia, há alguns dias que não sabíamos de nada da Thay, ela falava-me muito de ti, de nós... - tinha os olhos inchados do choro, de não ter conseguido dormir de noite e as lembranças ainda a faziam chorar mais -

- Eu sei... a ultima vez que falamos, fiquei com um valente nó na garganta, de me ter despedido tão mal dela, de ter sido tão agressivo, tu sabes... às vezes salta-me a tampa e vai tudo atrás...

- Ela não guardou ressentimentos de ti, falou-me da Maria... - Susana estava secretamente feliz pela conversa de Nara, o significado da fúria de Benjamim era dedicação a ela e ela sentia-se bem com isso!

- Sim, sim, não quero saber mais dessa gaja... contas-me o que se passou?

- Ela encontrou o amor da vida dela...

- Como é? - Benjamim estava surpreendido, nunca imaginara algo assim tão repentino - não lhe conhecia namorados para além de Giovanni...

- Menino, sabes bem que ela era muito reservada... e a razão disso era a débil mental da mãe dela... que a atormentou a vida toda. Não sei se sabes mas a mãe lembrou-se que a Thay existia no ano passado e o Inferno recomeçou, assim sem mais nem menos. Depois era a família do Giovanni a cobrar-lhe da moradia em Campos, sabes bem como é, só pensavam que ela se estava a aproveitar do dinheiro -

- É nojento, é sempre nojento - Benjamim lembrava-se sempre de algumas histórias mal contadas da sua vida -

- ... pois é, então ela apaixonou-se por um desses meninos bonitos que andavam no Orkut... num mero acaso, já nem me lembro qual era a foto dela

- A dos olhos azuis - Benjamim dedicou-lhe esse poema, algo triste, mas fora essa a ideia que ela lhe dera - ou era essa, ou a do gato ou a do hotel... poema que Thaynara imprimira e tinha no seu quarto em Campos.

«Olhos Azuis

Fragilidade encimada num olhar azul emanando solidão, atenção
porventura mera fantasia ao decidir atracar naquele campo de ideias
de saudade eterna , incompreendida, inatacada pela doçura dos momentos sem retorno.

Só a ausente ternura dos olhos azuis, atenuados em viagens pelo dito infinito
apazigua a amargura da dura consternação, da brutalidade aniquiladora de sentido
ou talvez admiração, um pouco da fútil atenção que leve ao lucro, mesmo
que a inocuidade do gesto, lesto, tudo deite a perder.

A complicação pelo encontro efémero, difícil, ansiado
motivos de serenidade ou provocação enlouquecida em dias aziagos
ficam os teus olhos azuis envolvidos num rosto cor de leite puro!»


- Sim... é deveras emocionante aquela história! Faz lembrar um conto de fadas - e virou-se para Benjamim ofegante de desejo repentino...

Susana pensava em Benjamim a propósito de contos de fadas e beijou-o, foi de tal forma forte e poderoso que o sonho, a tensão acumulada com o tempo se soltou e amaram-se, roçando os corpos num frenesim cada vez mais apaixonado, louco mesmo, de puro desejo. E mesmo não esquecendo a amiga que decerto estivera ali em presença espiritual, encontraram o momento fugaz de felicidade que lhes faltava para se completarem.

Assim ficaram mais de uma hora, beijando-se apaixonadamente, fazendo amor como se estivessem numa nuvem branca, transparente de desejo, pura excitação, por aquele momento tão reprimido pela vida inteira. Nada se comparava àquele momento, apesar dos homens que passaram pela vida de Susana e das mulheres que não passaram pela vida de Benjamim, mesmo fazendo amor com ele! Se havia uma boa definição de êxtase e de amor abençoado, era ali que se podia encontrar. E ficaram deitados na cama, ela com a cabeça encostada ao peito suado de Benjamim, sorrindo por dentro, viajando nas estrelas sem saírem dali!

- Mas eu quero contar-te o resto... - Susana estava agora alegre, mas ao falar da sua amiga algumas lágrimas furtivas vinda da emoção sem limites que sentia ao lembrar-se dela,  aproximavam-se sempre dos seus olhos e Benjamim prontificava-se a apanhá-las, transformando-as em fadas protectoras... - ela conheceu o Romeu, porque ele se acercou dela. É bem bonito ele, professor de ginástica, um gato... tenho-o lá na minha página...

- Dispenso essa parte, podes continuar... - os ciumes eram evidentes e ela apenas estava a provocá-lo, com sucesso...

- Ok! - sorrindo - tudo começou assim, em Abril, trocaram telefones e email, morada até... imagina só, passavam o dia a enviar torpedos...

- Torpedos?

- Mensagens, lá eles chamam-lhe de torpedos. Adiante, falavam muito pelo telefone, imagina só, dois meninos lindos, de fazer parar o trânsito assim juntos de repente... ela bem o estava a merecer... e depois, bem depois ela teve que viajar para Porto Alegre, onde partiu o pé e teve que ficar por lá. Mas estavam sempre em contacto e ele tinha sempre de falar com ela antes de dormir... faz-me lembrar um certo Benjamim...

- Ai de ti que deixes de o fazer! - beijando-a com todo o amor que se soltara por fim

- Tão bom que o menino é! Lindo! Mas voltando àquela história de amor, ela tinha ciúmes do Orkut dele, era só meninas de volta do gato dela...

- A quem o dizes! - mas desta vez não sorriu...

- ...foi então que recebeu a notícia que o pai havia sofrido um ataque cardíaco, e lá foi ela para Campos de pé engessado, e o Romeu louco para a ter nos braços

- E ela?

- Ela queria distância da casa dela, estava lá uma víbora das mais venenosas...

- A mãe?

- Sim, após tantos anos sem querer saber dela reaproximou-se para lhe infernizar a vida... mas então ela lá voltou, e até ao fim eles falavam-se todos os dias

- E tu estiveste lá nessa altura, tu contaste-me isso...

- Estive dois dias, quase até ao fim, depois fui para Fortaleza, mas ainda almoçamos juntas e tu foste motivo bem forte da conversa... mas juro, que quaisquer ciumes que eu tivesse se esfumaram naquele dia... e então, pude ver o amor em acção, era através dos torpedos, email, notebook. Era ver a felicidade estampada no rosto daquela menina! Os olhos azuis que tu tanto amavas nela brilhavam como nunca. Foram tantos os planos, tanta a vontade de o ter com ela e ele a corresponder que nada mais parecia importar...

- Mas estiveste no Hospital?

- Sim ainda lá fui ter com ela antes de viajar. Ela lá ficava e às vezes lia-me, embevecida, os torpedos dele, e encostava o telemóvel... lá eles dizem celular... ao coração, olhava para o Céu e sorria. Mas deixava-se ficar por ali, na cabeceira do pai, dia e noite, enconlhida como uma índia. Até ao dia em que tudo desabou...

- Mas afinal, estavas em Campos ou em Fortaleza...

- Depois de nos despedirmos e ela acompanhar o cortejo fúnebre fui para Fortaleza, não podia mesmo ficar por lá, meu querido... e depois fez-se silêncio...foi através de uma amiga dela e do Romeu que soubemos da triste notícia.
O destino parece que está escrito e o Romeu parece que adivinhava a desgraça que se ia abater naquela menina linda.

- «Eu a amo, eu quero essa menina!», ele estava desesperado com a falta dela...

...mas... então é assim, o pai acabou por morrer e quem é que veio cobrar tudo? A megera da mãe que fazia questão de desconsiderar a filha tomando-a por garota de programa (o nome que lá dão às prostitutas, mas isso tu já sabes)

-Sim, sim!

- ... então foram para Minas Gerais para o enterro do pai dela e no cemitério aconteceu o impensável, a mãe dela soltou a fúria demoníaca que tinha dentro dela contra a Thay, acusando-a de todos os males que se lembrava... incrível, o que conheci e senti da Thay é precisamente o oposto e houve que segurar as pessoas para não maltratarem a mãe dela ali. Antes o tivessem feito, porque a nossa querida amiga começou a sentir um forte ardor no peito e foi-se, morreu ali mesmo - Susana começou a chorar de novo e Benjamim afagou-lhe com toda a doçura que pôde os cabelos e não evitou que caíssem algumas lágrimas que pousaram na face delicada de Susana, adquirindo um brilho inesperado...

- E o resto...

- Meu amor, o resto foi que parece que a Thay ficou enterrada ao pé do pai e a velha voltou para Campos... ai que raiva, um dia tenho que lá ir... ela vai ver o que é beber do seu próprio veneno, sem hesitar... um dia há-de pagá-las!

- Deixa-te disso, cá se fazem, cá se pagam e o que é 'engraçado' nisto é que ela foi-se deste mundo a amar e a ser amada. Ao menos isso! Há quem nunca o tenha a vida toda! A mãe dela é um caso desses.... e quantas não há por aí assim!

E foi assim que Susana ganhou a coragem que faltava para assumir um amor que era desejado pelos dois. Uma vida que recomeçava depois dos trinta anos, sem o azedume típico de quem sofre frustrações umas atrás das outras.


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EPÍLOGO - AMANTES

1.
Depois de 29 de Abril, Benjamim decidiu-se a mudar o rumo à sua vida, tomando algumas decisões radicais, decidindo de uma vez por todas assumir a relação com Susana, tomado pela experiência com Thaynara, ele não queria morrer sem viver aquele amor, sem experimentar a união de algo tão simples e tão bonito que ele só sabia chamar de amor.

E assim foi. Inventou um indisposição, facilmente engolida pelo chefe, porque suava, tremia e estava tremendamente excitado com tudo aquilo, provocou mesmo um pequeno susto nos que o rodeavam, tirou a gravata e saiu. As pessoas olhavam para ele, mas só tinha um objectivo, e ele estava ali tão perto, era preciso apenas pegar nele e fugir, escapar daquela vida de rotina sem sabor, sem amor suficiente que o fizesse sentir completo. Comprou um ramo com trinta e três rosas vermelhas, uma ínfima demonstração do seu amor em crescendo, imparável. Susana fazia trinta e três anos, era o dia 19 de Junho e estava um calor insuportável.

Comprou o perfume preferido dela e marcou um jantar no seu  restaurante preferido. Lá havia uma paisagem absolutamente deslumbrante e era desta vez que a ia levar, o seu coração assim o ordenava e nãop havia nenhuma razão que pudesse impedir o que ele ia fazer. Tinha combinado com o dono que aquela noite seria apenas para os dois.

2.
No restaurante tudo estava como combinado, até a música que Benjamim combinara com o dono do restaurante estava a tocar quando eles entraram... 'Amantes' ... tal como na noite em que fizeram amor pela primeira vez. Tudo estava perfeito. Era o culminar de uma tarde alucinada para ela que tinha o mlehor aniversário da sua vida em perspectiva.

Ambos vinham o mais simples possível, tudo aquilo tinha sido uma ideia repentina de Benjamim e não houvera tempo para trocarem de roupa. Aquela era sem dúvida uma das características preferidas dele em Susana. Com aquele homem não se podia morrer de tédio. O céu tinha descido àquele pedaço de paraíso no Ribatejo.

- Amo-te menina linda! - podia até parecer lamechas, mas ele a olhar para ela com os seus penetrantes olhos cor de mel desfez qualquer dúvida.

Todos bateram palmas, não é que fosse muita gente, ambos gostavam de discrição, mas parecia que estavam em família e a felicidade estampou-se nos rostos de toda a gente.

- Eu também! - e um abraço selava uma relação que parecia um sonho igual ao de Thaynara -

Nisto o dono do restaurante recebe um bilhete de um estafeta. Algo que nunca lhe acontecera, ainda para mais com o aspecto deste, com um fato branco e a quem mal se vislumbrava a face. Vinha ao cuidado de Benjamim e Susana. Pensou que fosse algo combinado pelo homem enamorado, mas não... vinha ao cuidado dos dois. Apalpou algo desconfiado, mas sentido não haver problemas resolveu entregar aquele bilhete aos dois.

Esperou que os dois se sentassem e entregou a encomenda a Benjamim...


- Benjamim, recebemos esta encomenda

- Ah sim! Não me lembro de pedir nada! - e sorriu olhando para Susana que se sentia num qualquer paraíso ali inventado.

- Pois não consegui saber de onde veio, mas prece-me que é de confiança e pode abri-lo!

- Obrigado!

Ainda antes de o abrir, deu um lânguido beijo na boca macia de Susana!

- Vamos lá então ver isto!

«Pelo menos vejo o amor vencer entre vós, isso me deixa bem pela eternidade... queria recebê-los em Campos... mas não será mais possível fisícamente, mas acreditem meus amores que o meu espírito estará sempre vos protegendo...

Um forte abraço para vocês, dois enormes beijos no coração e nunca se esqueçam de ser felizes!

Vossa confidente para sempre!

Thaynara»

Benjamim ficou mudo e deu o bilhete a ler a Susana que deitou fora as últimas lágrimas de dor, porque o que Thaynara tinha deixado na vida dos dois foi apenas amor, apenas a vontade e união, porque essa era a mais pura verdade entre os dois!

Veio o vinho tinto, servido em copos especiais comprados por Benjamim apenas para aquela ocasião!

- Um brinde à nossa menina Thaynara!
- Sempre e para sempre um anjo nas nossas vidas!

E jantaram, felizes... lá fora uma luz intensa esvoaçava por entre o campo, já era de noite por isso ainda era mais visível. Por instantes pareceu-lhes ver os intensos olhos azuis de Thaynara, mas eram apenas os olhos da noite, que apareciam às almas gémeas em união!


FIM
Manuel Marques
Enviado por Manuel Marques em 18/09/2007
Código do texto: T658474

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Sobre o autor
Manuel Marques
Espanha, 45 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/08/17 18:37)
Manuel Marques