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Melancolia de um "eu"

Não suportava mais os juízos levianos nem as calúnias incabíveis. Ansiava, neste estado atormentado e depressivo, envolver-me com minha natureza íntima. Precisava decidir, sem a deliberação de outrem, o que deveria fazer de mim. Na minha ingenuidade me puseram neste mundo tendo que sofrer as mais dolorosas privações. Teria também que aceitar os preceitos dissonantes que me eram dirigidos? Ora, poupe-me!

Mas, eles martelavam constantemente em meus juízos. Tinha vontade de morrer, afinal não pedi para nascer. Porém, como seria o meu futuro sem a morte? O que haveria de me suceder? Daria ouvidos as opiniões maliciosas?

Lágrimas...

Deixemo-las de lado. Lembrá-las me traz constrangimento. Mas, confesso que, naquela ocasião, não dirigi minha atenção nem tomei por consideração tais opiniões. No entanto, algo estranho me envolvia me direcionando para um sentimento utópico. Descobri que não estava só, em mim havia dois eus: um era forte, decisivo, resistente; o outro fraco, flexível e maleável. E este último cedia as suas paixões e luxúrias, por isso, acabei sendo seduzido por elas, caindo nas ciladas daquele sentimento.

Um gesto aqui, outro alí, íam vazando pelo olhar. Não adiantava mais lutar, protestar, argumentar. O feitiço estava consumado. Havia sido traído pelo próprio eu e cedi a um simples e imortal olhar.

Pensava ter entrado num paraíso sem fim. Sonhava muito alto e não percebia que a realidade me acompanhava. Tentava encontrar no meu eu palavras, frases, gestos para conter meu desespero, pois, a minha avidez crescia. Procurei meu eu resistente, porém, o sentimento que me envolvia o diluíra ao meu. E agora? Já não sabia a que "eu" eu pertencia. Já não conseguia proferir palavras. Fiquei estável e atônito com a dor da derrota que se aproximava com toda a sua fúria. Na minha indolência consegui apenas respirar fundo e sentir na pele a frieza das lágrimas que desciam dos meus olhos...

Silêncio.
Chôro.
Luz...

Acabo de nascer, consciente do meu sofrimento, e padecerei sem nenhum remorso, se não houver ressurreição...

Me faltam experiências e maturidade, pois, ainda não sei como andar neste mundo, nem como dizer as primeiras palavras. Mas, neste momento, preciso de forças para mudar o tom deste discurso. Já não é o mesmo eu que falava a pouco.

Era necessário que aquele se envolvesse com seus sentimentos utópicos. Isso foi a única, e tão somente a única maneira de sentir-se feliz, ainda que a curto prazo, diga-se de passagem, curtíssimo prazo. Pobre e coitado eu. Não sabia que havia nascido apenas para padecer. Lutara tanto contra um destino traçado e conseguiu apenas manter-se garboso. Cumpriu, sem ao menos saber, sua única missão: "verter água e sangue".
Giselma Maurício
Enviado por Giselma Maurício em 31/10/2005
Reeditado em 04/11/2005
Código do texto: T65851
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Sobre a autora
Giselma Maurício
Estância - Sergipe - Brasil, 40 anos
15 textos (4607 leituras)
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Giselma Maurício