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A couve e o tomate 


Elas nasceram na hortinha de fundo de quintal de dona Deinha. 

Duas plantinhas tenras e minúsculas e mesmo dada a proximidade não se conheciam, pois, entre 
elas havia uns pezinhos de mato que as separava. 

Com o passar do tempo ambas cresceram e superaram 
em altura os matinhos e puderam se apresentar. 

Logo de início sentiram uma certa atração uma pela outra. 

Ela verdona, viçosa de folhas largas e muito nutritiva, 
diziam ser muito rica em ferro. 

Ele jovem e esguio com hastes longas, firmes e muito 
assediado pelas donas de casa. 

Em função do tropismo, vez ou outra, o tomateiro 
debruçava-se sobre o pé de couve e em muitas vezes 
chegavam a se tocar. 

A proximidade criou uma certa cumplicidade entre ambas. 

Na época de adubação se uma planta recebia mais ou 
menos nutrientes, solícitamente convidava a outra a 
esticar suas radicelas para se alimentar do que lhe 
sobrava. 

Quando de uma estiagem um pouco mais prolongada, e a 
dona Deinha esquecendo de aguar a horta, uma servia 
parte de sua reserva de água à raiz da outra. 

Adolescentes viviam em franca e promissora amizade. 

Já adultas uma protegia a outra do sereno mais ácido ou 
dos ventos frios do inverno, preservando assim a 
vitalidade da vizinha e amiga. 

Bem....... 

Sempre acontece o mesmo , tanto faz se entre pessoas, 
animais ou plantas... 

O tomateiro caiu tomado de amores pela couve. 

Nos momentos em que estavam a dormitar, ele dava asas à imaginação e fazia planos mirabolantes da vida em comum com aquela estupenda, amável  e viçosa amiga.

O pior que ele não sabia como se declarar. 

E se ela ficasse brava, onde ele poria a cara? 

O tempo passa e se aproxima a época da colheita... 

por fim seriam separadas. 

O tomateiro cheio de dúvidas e um anseio a comprimir seu tenro coraçãozinho aventa mil formas de como se 
declarar. 

Faz um pedido a fada das plantas que ela com sua 
varinha tocasse a couve para ela se declarar. 

Fez promessa a deusa dos vegetais lhe mandar uma 
inspiração. 

Pensou até em procurar dona rosa, a rainha das plantas, 
mas desistiu, o jardim era muito longe. 

Ele toma coragem e decide aventurar. 

De madrugada, quando um vento frio e cortante sacode a 
hortinha, em gesto carinhoso o tomateiro inclina-se sobre 
a couve, como a protegê-la e imagina... é agora ou nunca. 

Estica seus ramos um pouco, enlaça as folhas da couve 
num terno abraço e sussura: 

- Eu te amo. 

O farfalhar de folhas e o assovio do vento encobre suas 
palavras. 

Ela pergunta: 

- O que? 

- Eu ti amuuuuuuuuuuuu. 

Como toda mulher, finge espanto, e entre alegre, 
sarcástica e risonha responde: 

- Tolinho e precisa ficar vermelho para falar isso? 



GDaun
Enviado por GDaun em 19/09/2007
Reeditado em 19/09/2007
Código do texto: T658804

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Sobre o autor
GDaun
Lupércio - São Paulo - Brasil, 73 anos
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