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A BAIANA - Cap. I


                                         A BAIANA
                                           
                                               I

       No Nordeste brasileiro, no estado da Bahia e entalado no sertão, agita-se a pequena e bela cidade de Tucano.
Nela se espelha com verdade e em pequena escala o quanto a Bahia representa de anterior colonização feita por Portugueses, que levaram nos anos quinhentos do primeiro milénio, através das caravelas de Cabral a negritude africana que aí se fixou e encontrou adequadas condições para viver de acordo com as suas necessidades e hábitos.
     Desses povoamentos e cruzamentos de raças, haveria de nascer a pequena Josefa, que viria a ser tratada mais carinhosamente de Josy.
Menina nascida de família humilde e honrada, de bons valores éticos, a pequena e traquina Josy cedo se manifestou uma criança inteligente.
Era o enlevo de pais e a admiração de vizinhos e amigos. Fez o seu crescimento com normalidade de criança na escola, entre vozearias e os joguinhos de meninos da sua idade.
     Passada esta idade linda de inocente criança, começa a despontar pujante de energia e com desenho de corpo lindo, que há-de fazer dela, a jovem dos falatórios da juventude masculina, ávidos de a tocar ou simplesmente falar.
    Dentre eles, destacava-se um jovem alto, o Romeu, de corpo exuberante, pele torrada, cabelos e olhos pretos, a quem aquela jovem o fazia sonhar.
    A dada altura, quando ela vinha de regresso a casa, após uma ida à casa de uma amiga, o jovem rapaz confrontou-se naquela viela estreita, com a mulher dos seus sonhos. Era a Josy. Os olhares cruzaram-se, mas os dele foram direitos ao seu coração, de tal modo que a voz se lhe embargou na hora da saudação. Vezes sem conta, esses olhares se repetiriam, sem aquele abalo de coração que as primeiras vezes tanto o castigaram. Olhares que se seguiram acompanhados por sorrisos cândidos e subtis, que receberam da jovem Josy, aceitação. Estava lançada a semente para aquele que viria a ser a primeira vivência amorosa daqueles jovens. Paixão ardente nasceria naqueles corações.
    Ao princípio, às escondidas, não fosse a mãe da Josy, a confessora de todas as horas, perturbar o namorico. Horas houve de mostrar vontade de assumir às claras o fogo daqueles amantes corações. Tardou a acontecer.Até que um dia, foi surpreendida pela mãe, com surpresa desta, para pequenos movimentos e gestos de amantes em atitudes primárias de afagos.A mãe percebeu e discretamente passou sem parar, saudou-os, e seguiu seu caminho. Momento difícil para aquela jovem, que não contava com tamanha surpresa.
Um sentimento de cumplicidade invadiu-a, por não ter avisado a mãe dos seus rebates de coração. Logo ali terminou esse dia de namoro.
Cabisbaixa regressou a casa, respingando-lhe as lágrimas aqui e ali. Dele recebia o conforto que ela justificava. Afinal ela era a mulher da vida dele e por quem o seu coração haveria de suspirar as suas ausências vindouras.
     O regresso da mãe a casa, foi pensadamente feito por outro caminho para não perturbar os púberes namorados.
Chegada a mãe a casa, esta reparou que o quarto da filha estava com a porta fechada à chave. Não era normal. Bateu à porta e a filha, a Josy inicialmente não respondeu. Ela insistiu.
- Josy, Josy, que tens minha filha?
- Nada minha mãe. Apenas me dói a cabeça.
- E é preciso estar com a porta fechada só porque te dói a cabeça? È muito estranho.
- Abre a porta rapariga. Olha lá te não faça falta um chá para essa “dorzita”
- Tá bem. Vou já.
Entretanto a porta abre-se vagarosa e timidamente.
- Que coisa rapariga. È preciso chorar só porque te dói a cabeça? A dor é assim insuportável?
Sem dar uma palavra, a filha agarra-se à mãe em choro convulsivo.
- Que tens rapariga? Agora estou a ficar preocupada.
- Minha mãe, o que me dói não é a cabeça.
- Então que é, coisa pior? Não me ponhas a mim agora doente.
- Não estejas preocupada mãe. O que me dói é a consciência.
- A consciência? Consciência? Tu não deves estar boa rapariga. Vá, diz então que dor é essa. Sou toda ouvidos para a minha querida filha.
- Minha mãe, há um bocado quando passaste no caminho, eu estava com um rapaz de quem gosto muito. Eu namoro para ele há três semanas.
     Fiquei muito atrapalhada por nunca te ter falado desse rapaz e achei que não fui justa contigo. Tu não merecias saber por essa forma que eu já tinha namorado. Foste sempre uma mãe que me inspiras confiança mas como sou tão nova, os meus 14 anos não me deram coragem para te falar, por achar que te poderia desgostar.
- Oh minha filha, só por isso é que tu estás assim chorosa e triste?
Deixa para lá. Da tua idade também namorava. Tua avó namorava. Tua bisavó namorava. Nunca foi diferente. Tu és uma menina jovem, tens a tua vida pela frente. Isso é viver. Vive minha filha, vive. Apenas peço para que te saibas respeitar. Respeita-te que me respeitarás a mim e ao teu pai também.
     A dona Gertrudes, assim se chama a boa mãe, soube perceber e aceitar os primeiros impulsos do coração da sua bela e estimada filha Josy, sempre o orgulho da família, ainda agora demonstrada na “dor de consciência” que a preocupava e que a boa mãe atenciosamente escutou e aconselhou, dando força para a fazer entender que na vida essas coisas são o condimento dos amantes.
Povo Lusitano
Enviado por Povo Lusitano em 19/09/2007
Código do texto: T659534

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Sobre o autor
Povo Lusitano
Portugal, 61 anos
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Povo Lusitano