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A BAIANA - Cap. III

                                      A BAIANA

                                          III

       Vai de vento em popa o namorico destes jovens. É caso em Tucano. Não se fala noutra coisa. O futuro médico, namora a filha da Gertrudes. É vê-los felizes. Ele vive a felicidade da conquista da moça que em sonhos lhe aparecia e quando acordado o perturbava de não a possuir. Ela, por sua vez anda alegrada, porque não sabia que o Francisco era um dos seus pretendentes.
Josy nunca pensou que aquele rapaz por ela se motivasse. Por isso, nunca alimentou com proximidade a ideia de algum dia ser sua namorada.
     Romeu, quando souber deste namoro irá ficar mordido de ciúme, ele que mal saboreou o namoro por este ter morrido à nascença. Nem um beijo lhe ficou para recordar. Agora ver Josy na mão do futuro médico vai custar muito a digerir. A frustração vai tomar conta de si.
Enquanto isso, os jovens namorados passeavam-se com pavoneio na principal rua de Tucano. Trocavam olhares, afectos, mais olhares e mais afectos. Sentavam-se nas esplanadas dos bares, comiam sorvetes, trocavam sorvetes.
Enfim, uma felicidade imensa os tomava.
Numa dessas saídas, Romeu reparou na Josy e de assalto abeirou-se para lhe falar, quando não foi o seu espanto, ela estava de mão dada com o Francisco. Romeu refreou a investida. Naquela hora terá ficado branco como cera, por não contar com esse cenário, para si deprimente.
Via agora ali um rival para nunca mais esquecer.
Josy não se terá apercebido e continuou tranquila, de mão dada com Francisco.
Francisco era vê-lo ufano entre os rapazes da sua idade. Ela, também fazia do seu namoro alarde. Passou a cuidar-se mais primorosamente. Todas as semanas cabeleireira, manicura, depilação. Uma alegria invadia aquele jovem coração. Francisco ofereceu-lhe um perfume agradável que ela nunca esquecia de colocar sempre que saía.
Enquanto no reino dos namorados tudo corria bem, Romeu começou a interiorizar a sua pouca sorte, de tal modo que um mês depois daquele encontro na esplanada do Bar Juventude, já não parecia o rapaz vigoroso e saudável que até então era.
O Sr. Calixto, já nosso conhecido e muito sabedor e atento às vidas, encontrou Romeu sentado debaixo de uma mangueira, resguardado do sol intenso que naquela hora se fazia sentir, junto ao caminho que liga à igreja, com a cabeça segura entre mãos.
O Sr. Calixto, que o conhecia desde menino de fraldas, achou que ele não estaria no seu melhor e perguntou-lhe:
- Romeu, que se passa contigo moço, não pareces o filho do Felismino que ainda há um mês vi. A tua saúde não vai bem moço?
- Sr. Calixto, você podia ser meu pai, por isso percebo porque me faz essa pergunta. Sabe, os dias não são todos iguais. Este quis ser diferente dos outros em que você me viu. Estou num dia menos bom.
- Olha rapaz. Dias assim também tive muitos na minha vida. Eles nunca são iguais, mas há uns melhores ou piores que outros. A vida quis-nos presentear com esta diversidade. És jovem. Estás a vir para o mundo. Habitua-te a esta realidade.
- Sr. Calixto, os meus dias não vão bem por falta de saúde. Muito pior. É por falta de amor prometido.
- Como assim, moço? Fala. Diz o que te vai na alma, se achares que é momento oportuno. Conta com a minha vivência. Saberei dar-te conselho de amigo.
- Sr. Calixto, não sei se conhece a filha da Sr.ª Gertrudes, uma tal Josefa.
- Sei. A Josy, como é conhecida por todos.
- Essa mesma.
- Que tem a moça?
- Não é a moça que tem. Quem tem sou eu.
- Não percebi. Mas que tens o quê?
- Amor por ela.
- Oh moço, na tua idade é normal. Que tem isso a ver com tu estares assim hoje?
- Tem muito Sr. Calixto. Ela trocou-me pelo filho do alfaiate. Pelo Francisco, o futuro médico.
- Ora moço. Mulher é o que há mais. Também tive na minha mocidade situações iguais à tua e como vês ainda aqui ando. Uma paixão resolve-se com outra paixão. Nada que não se resolva. Olha só quantas moças tu podes ver no final da missa de domingo. Todas tão lindas. Só me queria com a tua idade. No meu tempo não era nada disto. As moças de agora são mais bonitas e apresentam-se melhor. E com aquelas saiinhas curtas…
- Obrigado pela força que me dá. Mas como a Josy não há mais em Tucano.
- Oh moço, não é assim. O que tem uma, têm todas. Percebeste?
- Olha a Rosa Maria, a filha do padeiro. Anda mortinha por caçar um rapaz. Tu faz-te a ela. È bonita e o pai tem, muito dinheiro.
- Mas… Sr. Calixto, no que o coração quer… a cabeça não manda.
- Grande sofrimento irás ter se não fizeres o que te digo. Olha que já cá ando há mais de sessenta anos. Muitos Invernos passados e primaveras também. Percebeste o que te quero dizer?
- Percebi sim. Obrigado pelos seus conselhos.
- Adeus moço. Da próxima vez que te vir quero-te ver já forte, sem esses fantasmas.

Romeu seguiu a sua vida, ao encontro da mocidade do seu tempo. Resta lembrar que Romeu joga futebol na equipa de juniores do Tucano, onde ocupa o lugar de centro avante.
O Sr. Calixto, esse foi direitinho até ao Abstratus Bar pôr a conversa em dia entre umas cervejas e uns joguinhos de damas ou dominó.
O Abstratus Bar, é um espaço de entretenimento muito agradável, composto por duas alas, de um lado a juventude com as diversões adequadas à idade, do outro lado é o espaço frequentado pelas pessoas acima dos 40 anos e que é aproveitado para longas conversas sobre futebol, política ou simplesmente banalidades.
O proprietário, o Sr. João da Esquina, homem bom, de estatura média-baixa, anafado de carnes, sempre bem disposto e com piada fina. Uma paz de alma.
Sua mulher, a Teresa Violante, muito sabedora de cozinha, fabrica petiscos com muita qualidade que aprendeu com sua avó, de origem portuguesa, da região do Minho, mais propriamente de Braga, e que a clientela devora avidamente, acompanhado de bom vinho português, da região de Borba, no Alentejo. Quando a animação vai alta ou alguém faz anos no grupinho, abrem-se algumas garrafas de vinho do Porto, tão apreciado mundialmente pela sua singularidade.
Entretanto, Francisco foi fazer a matrícula na Faculdade de Medicina da Universidade da Bahia, em Salvador, acompanhado da sua namorada. Ela não conhecia Salvador. Ficou estupefacta com a grandeza da cidade. Largas avenidas. Belos jardins e muito bem conservados. A praia. A praia que ela também nunca tinha visto.
A Faculdade de Medicina da Bahia, que funciona num imponente e magestático edifício, foi inaugurada no ano de 1909, situa-se na Praça XV de Novembro – Largo do Terreiro de Jesus.
Foi aqui que os jovens de dirigiram. Ela estava muito bonita e vaidosa por o seu namorado vir a ser médico. Trajava um Top, da marca Benetton, com um decote pronunciado que dava graciosidade aos seios. As calças Jeans muito justas ao corpo faziam sobressair as formas perfeitas da anca que se prolongava por uma coxa longa. Uma beleza.
Ele exibia-se com agrado junto dela. Parecia ter o mundo nas mãos. Muitos sorrisos. Muita simpatia.
Foram dois dias de grande folguedo.
No primeiro dia foi de visita à cidade. No segundo dia, foi todo para a praia.
Visitaram-se os principais monumentos, tais como as Igrejas de São Bento, Conceição da Praia, Rosário dos Pretos, do Bonfim, A Catedral e o Palácio do Arquiepiscopado. Mereceu especial atenção a igreja de S. Francisco, onde Josy fez questão de se demorar em oração em acção de graças pelo namorado que tinha e que tanto adorava. A igreja com o nome do namorado não seria nunca mais para esquecer. Tiraram-se fotos para mais tarde recordar.
A Igreja do Rosário dos Pretos foi demoradamente apreciada, particularmente a sua rica talha dourada.
Também se visitou o Museu de Arte da Bahia
A culinária de Salvador e os inevitáveis Acarajé, Caruru e Bóbó de camarão foram amplamente degustados. Terminou o dia com um bailarico que se prolongou noite dentro.
O dia seguinte foi todo para a praia. Uma sensação nova para Josy, que nunca tinha visto o mar.
Praia do Farol, local escolhido, localizada junto ao Porto da Barra, é local ideal também para apreciar o pôr-do-sol de Salvador.
A princípio a medo e sempre de mão dada a Francisco, entrou nas águas límpidas e esperou o quebrar das ondas, que lhe afagavam as pernas e morriam à altura dos seios provocando-lhe ligeiras apneias, para logo se retirarem e darem a vez a nova ondulação, que novamente ritualizava os movimentos.
Já mais segura de si, dispensou a mão de Francisco e autonomamente recebeu o embate de nova ondulação que se desfazia, esbarrando-se no seu corpo. Sensação impar. Nunca tinha tido momentos destes.
Muita alegria e largas risadas soltavam aqueles ufanados peitos.
Eis senão quando, em momento de distracção e de forte ondulação, o encontro das ondas com os jovens, mergulhou-os, tombando-so sob as águas, o que provocou alvoroço, particularmente na Josy.
Esta nova sensação foi desagradável, mas as seguintes foram de contentamento.
Este último dia terminou com um jantar num restaurante com vista panorâmica para o mar, muito acolhedor, situado numa falésia e iluminado à luz de velas.  Do jantar constou um grelhado de peixes diversos, tipo parrilhada à espanhola, acompanhado de uma garrafinha de vinho branco da casta Alvarinho, produzido no norte de Portugal. De sobremesa comeram-se viennettas.
Após o jantar deu-se um passeio na avenida marginal. Tiraram-se muitas fotos para rever no futuro e recordar o passado.
Findo este, dirigiram-se à gare para tomar o trem de regresso a casa.
Povo Lusitano
Enviado por Povo Lusitano em 19/09/2007
Código do texto: T659552

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Povo Lusitano
Portugal, 62 anos
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