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A BAIANA - Cap. VI

A BAIANA

VI



A festa ainda foi recordada amiudadas vezes pelos namorados. Mas quem não a vai esquecer tão cedo é Micaela e Olegário. Quer um quer outro, viram as suas noites cobertas de insónias. Então ele…, sentiu que podia com habilidade cortejante conquistar Micaela.
A D. Gertrudes, nunca mais pensou ou desconfiou que aquela festa algum dia lhe podia trazer problemas de natureza emocional. Verdade se diga que nunca teve razão de queixa do marido, sempre muito certinho…

Romeu teve dias felizes. Afinal foi o marcador do golo que deu a vitória do Tucano sobre o Euclides. A felicidade dele difundiu-se em todos os Tucanenses.
Era muito felicitado. Desejavam-lhe sorte na vida. Romeu agradecia discretamente as felicitações que vinham de todos. Mas aquele golo não mudaria toda a sua vida. Outro “Golo” ficou por marcar.
Inconformado com a sua sorte de rejeitado, angustia-se, perde o apetite, emagrece. Um mês depois de grandes alegrias vividas no futebol, Romeu está um moço desfigurado.
O Sr. Calixto, encontrou-o cambaleante, a vir do cemitério, onde ele tinha ido em visita à campa de sua mãe. Ter-se-á aí demorado escassos dez minutos. Colocou a seus pés um ramo improvisado de flores silvestres, apanhadas com muito carinho nas bermas dos caminhos. O dinheiro era escasso, não daria para comprar uma palma de flores na florista.
O que terá levado Romeu a ir ao cemitério? Só ele o saberá. O Sr. Calixto quis saber pormenores. Romeu foi evasivo. Contudo o Sr. Calixto, foi-lhe dizendo que ele estava com muito mau aspecto. Travaram breve diálogo. O Sr. Calixto sempre foi dado a paternalismos.
- Moço, eu já há tempos falei contigo. Disseste-me que andavas mal de amor.
- Verdade, respondeu Romeu.
- Ainda é disso que te queixas?
- Infelizmente.
- Moço. Não te quero ver assim. Lembra-te que podes ser alguém na vida. Tens muito talento para jogar futebol. Podes vir a ser como o Ronaldinho Gaúcho. A continuar assim não chegarás lá.
- Sr. Calixto, sei do meu jeito para o futebol. Mas de que serve, se sou infeliz?
- Ora, moço. Se tu fores um jogador famoso, as raparigas vêm-te comer à mão. Vais ter oferta maior que a procura. Essa tal que tu pensas, poderá também vir-te a comer à mão.
- Obrigado Sr. Calixto, pelas suas palavras encorajantes. Que Deus lhe dê muita saúde. Você é um homem que eu nunca esquecerei. Sempre me deu muita força.
Posto que a conversa tenha chegado ao fim, despediram-se com o Sr. Calixto a dar-lhe um reconfortante abraço.
O Sr. Calixto tinha por este jovem um carinho especial. Romeu tinha ficado sem mãe muito pequeno, morrera de tuberculose. A pobreza dentro de portas era muita. O pai, Sr. Felismino era sapateiro. Pouco trabalho e mal pago. A subsistência era dura. Muitas vezes se deitavam sem jantar
Calixto ficou a matutar na pouca sorte e muito talento perdido, do jovem Romeu. Dizia ele: uma moça a causar tamanho dano no melhor jogador do Tucano? Não pode ser. Este rapaz vai ter de ressuscitar para a vida. Ainda nos vai dar muitas alegrias.
Calixto não mais vai parar descansado sem que ajude a resolver ou minorar esta situação dramática de vida, que à mistura com pobreza material se juntou mal de amor. Este, Calixto não pode nem sabe como resolver. O outro, vai fazer tudo por tudo para resolver.
Assim, foi falar ao Ambrósio padeiro, pai da já conhecida Rosa Maria, que Calixto uma vez se lembrou de atirar ao Romeu como moça disponível e endinheirada, para que Ambrósio ajudasse na medida do possível a matar a fome àquela família. Ambrósio sempre respeitou muito o Sr. Calixto desde os tempos em que seu pai, Sr. Fortunato esteve doente com grave doença e Calixto se prontificou a dar sangue todas as vezes que fosse necessário. Ambrósio ficou de mandar quinze pães e dois litros de leite, diariamente até que Romeu estivesse bem de saúde.
Calixto agradeceu como se fosse para ele. Inconformado foi falar também ao Dr. Jesualdo, médico de clínica geral e relatou-lhe o drama de Romeu.
O Dr., disse-lhe para o levar lá para consulta. Falou no talho Boi do Povo para saber da possibilidade de uma ajuda em carne para aquela pobre família. Calixto foi recebido muito bem por toda a gente com promessa de cumprimento da sua sugestão. Era um homem feliz. Daqui para a frente terá também a obrigação de acompanhar o desenvolvimento de Romeu como se seu filho fosse.
Calixto era um homem que sabia muito da vida das gentes. Passava muito tempo no Abstratus Bar depois de se ter aposentado da companhia Bandeirantes, após trinta anos de serviços prestados naquela empresa de distribuição e venda de energia eléctrica, como técnico electricista principal, além de que era um homem muito prestável e respeitado. Numa das últimas noites conversou demoradamente com Olegário Matos, que nessa noite foi até ao Abstratus Bar, coisa não habitual. Este, costumava ir até lá ao sábado de tarde, jogar dominó. Calixto notou a presença dele e como se respeitam e estimam deu para conversa animada.
- Então por cá hoje, Olegário!?
- Verdade. Não é costume.
- Não. Só costumas passar ao sábado.
- É. Desta vez apeteceu-me vir até aqui ver os meus amigos.
- Fizeste bem. Aparece mais vezes.
- Pode ser. Realmente não tenho o hábito de sair fora de sábado.
- Aparece. Jogamos umas partidas de dominó. Conversamos. Oh, muita coisa para fazermos conversa. Sabes que por aí há umas viuvinhas que “esfolam cabritos”. Quem sabe…
- Isso não é para a nossa idade. Tá lá calado. Nós queremos um terço na mão para rezar.
- Sim sim. Tomaras tu. Por falar em viúvas, a tua cunhada é a única que não tem má fama. Tem-se portado muito bem. Tem sabido respeitar a memória do falecido.
- Micaela é uma mulher com muito nível. Qualquer um gostaria de ter assim uma mulher. Saberíamos que à nossa morte ela nos respeitaria. Até morreríamos mais em paz.
- Sim sim. Adiantavas muito com essa paz.
- Eu sou um homem respeitador. Devemos também respeitar a memória dos mortos. Também gostava que a minha memória fosse respeitada.
- Ok. Mudando de assunto. A tua filha teve uma sorte danada com o namorico que arranjou. Vais ter um genro médico. Pelos vistos o moço é inteligente.
- Não sei. Não me meto nessas coisas.
- Anda por aí um moço já meio “apanhado” por a tua filha lhe ter dado com os pés. O Romeu, o filho do Felismino sapateiro. Coitado do moço. Um dia destes aparece morto de tanta paixão. Se tu o visses nem o conhecias.
- Qual? Aquele rapaz que fez a alegria de todos nós no jogo contra o Euclides?
- Sim. Esse todo.
- Lamento, mas não posso fazer nada. Ele que se vire para outras moças. Há muitas aqui na terra e de boas famílias. Já vai sendo tarde Calixto, vou ter de ir até casa. A minha mulher não está habituada a que saia à noite, até tão tarde.
- Habituaste-a mal. A minha só estranha se ficar em casa.
- Dizes bem. Vou passar a vir mais vezes.
- Isso é que é falar.
Então até amanhã.
Calixto ainda ficou. Costuma ser dos últimos a sair. O dia dele está ganho logo que se põe a pé. Tem boa aposentação. Filhos criados. Não pensa em mais nada que não seja passar o tempo.
Olegário foi direitinho para casa.

O nosso conhecido Romeu vive agora uma paixão platónica, com entusiasmo. Resolveu ir até à biblioteca ler poesias românticas. Leva consigo uma folha de papel e caneta. Transcreve as que mais gosta para as ler dezenas de vezes em casa, à noite, antes de se deitar. Este ritual já se repete há duas semanas.
Quem o viu lá de todas as vezes, foi o Ismael, um funcionário público, amante da leitura, que um dia interpelou Romeu.
- Por aqui Romeu? Já te tenho visto há uns dias.
- É. Vim a conselho do Dr. Jesualdo.
- A conselho do Dr. Jesualdo? Ele é médico, não professor de português.
- Andava doente e o Sr. Calixto, arranjou-me uma consulta nele. Disse-lhe qual era a minha doença. Achou que não me devia receitar medicamentos. Disse que primeiro deveria fazer leitura. Que o meu mal era psicológico.
- Ah. Agora percebo porque vens para a biblioteca.
- E estou a gostar.
- O Dr. Jesualdo também te indicou as obras que deverias ler?
- Deu-me uma ideia do género a ler. Disse-me que o romântico em poesia deveria ser o mais indicado para começar. Estou a gostar de ler João de Deus, um autor português.
- Não conheço. Vou ter também a curiosidade de conhecer. Sei que em Portugal há bons poetas. Camões, Fernando Pessoa, António Gedeão, Florbela Espanca. Eu só sei destes. Mas Portugal é um país de poetas e prosadores românticos. Vou começar a ler trabalhos de autores portugueses. Também reparo que trazes contigo uma folha de papel e caneta. Posso saber qual a finalidade?
- Pode. É para transcrever as poesias que eu mais gosto. Depois em casa leio as vezes que me apetecer.
- Sim senhor. Grande ideia. Nunca tinha pensado nisso. Valente.
- Agora vou ter de ir. Ainda tenho de passar pela padaria do Sr. Ambrósio.
- Ok, Vai. As tuas melhoras. Queremos-te forte para a nova época desportiva. Xau.
- Até á próxima Sr. Ismael.

Romeu seguiu em direcção à padaria. Muito mais feliz desde que consultou o Dr. Jesualdo. Dizia para consigo, que nunca pagaria ao Sr. Calixto o muito que fez por ele.
Ao passar à Barbearia Cristóvão, situada na R. Cruz de Pedra, Cristóvão chamou por ele.
- Oh moço anda cá.
- Diga Sr. Cristóvão.
- Tás a precisar de cortar essa trunfa. Por ser para ti, não te levo nada. Não pagas nada. Ficas com dívida de amigo.
- Hoje não, Sr. Cristóvão, levo pressa. Tenho de ir à padaria do Sr. Ambrósio.
- Percebo. À padaria de Rosa Maria…Riu-se. Olha que ela está sem namorado. Vê se lhe deitas a baraça, antes que outro mais lampeiro o faça por ti.
- Em todo o caso, muito obrigado. Amanhã ou sábado apareço, tá bem Sr. Cristóvão.
- Tens a porta aberta. É só apareceres.
- Uma vez mais muito obrigado. Conte comigo para uma carecada. Xau.

Como levasse pressa Romeu não fez muita conversa. Chegado à padaria, por sorte ou azar, foi Rosa Maria que o atendeu. Notou-se nela um nervoso miudinho. Romeu sentiu-o, mas manteve serenidade.
- O teu pai está, Rosa Maria?
- Não.
- Diz-lhe que já cá vim. Para não me mandar hoje a casa, o costume. Muito obrigado.
Nesse momento chega a Sr. Maria do Tanque. Olhou-o de cima a baixo. Não disse nada porque não o reconheceu.
- Quem era aquele moço, Rosa Maria?
- Não conheceu?
- Não. Nunca o vi mais gordo.
- É o Romeu, o filho de Felismino sapateiro.
- Não digas. Ele parece um cadáver em pé. Ouvi dizer que anda gazeado das ideias.
- É nada. O povo gosta de dizer mal de tudo. O que ele tem, só ele o sabe. Coitado. Tão bom moço. E um rapaz bonito. Pena estar adoentado. Ele vai melhorar. Já foi ao Dr. Jesualdo.
- E que foi lá fazer? Ele havia era de ir ao bruxo de Milagres. Ali sim. Vinha de lá curado.
- Ora.
- É o que te digo. Ele sabe mais que todos os médicos juntos. O moço deve ter espírito metido nele.
- Tá bem tá.
Como Rosa Maria não lhe desse ouvido, Maria do Tanque ficou-se por aí. Comprou o pão e saiu.
De regresso a casa e ao passar à porta de Micaela, que dista cinquenta metros antes da sua, parou junto ao portão e pôs-se a escutar.
A pequena Otília, dizia à mãe:
Que pena o pai ter morrido, senão a festa dos meus anos ainda tinha sido mais bonita.
Sim, minha filha. Nada a fazer. A mãe ainda te vai arranjar um “pai”, para teres festas de anos bonitas.
Maria do Tanque, ouviu e registou. “ A mãe ainda te vai arranjar um” pai”. A Sr.ª Maria do Tanque é uma solteirona, de setenta conservados anos, que vive com os seus sete gatos, todos pretos. Ela é muito supersticiosa. Em nova foi costureira e catequista. Também aviou muitos jovens, que nela faziam a “recruta”. De padres até os de fora da terra vinham ao “confesso”. Só o padre Lira não consta que alguma vez a tivesse procurado. Ela é uma mulher com um coração enorme, onde cabia sempre mais um. O tempo agora sobra-lhe para dar mais atenção à vida dos outros. Muita perspicácia e sabedoria de saber acumulado. Atenta aos pormenores das vidas alheias, não deixa escapar nada e ela mesma se encarrega de fazer os juízos finais. Aquelas palavras ouvidas, vão pô-la de redobrada atenção, em Micaela. Esta, terá a sua vida controlada a palmo.
Povo Lusitano
Enviado por Povo Lusitano em 20/09/2007
Código do texto: T660889

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Povo Lusitano
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