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A BAIANA - Cap.VIII

                                        A BAIANA

                                           VIII


Pelas 10.00 horas da manhã, passava todos os dias o carteiro, montado na motoreta, no seu roteiro habitual de distribuição do correio.
Nessa manhã, antes de chegar próximo da casa de Josy, já se ouvia a presença dele no trabalhar inconfundível da sua mota.
Sempre que deixava correio na caixa, fazia um aviso, fazendo tocar uma corneta. Assim foi. Josy ouviu o sibilar da gaita, veio à porta, desceu as escadas e foi direitinha à caixa do correio. Tinha um postal-aviso do Centro Regional de Saúde, em nome da mãe, a convoca-la para rastreio visual, diabetes e colesterol. Aviso de rotina, que era muito bem visto pela população em geral.
Além deste postal, estava também a folha original com a transcrição do poema Amor, que Romeu havia deixado na noite de véspera.
Josy leu com atenção, gostou e voltou a ler.
Disse para si mesma: Quem deixaria este poema lindo? Amanhã vou perguntar ao carteiro se foi ele.
Reparou que no rodapé da folha tinha o número um (1), mas ainda assim não deu importância. Do que se lembrou, foi de o guardar religiosamente, afinal não é todos os dias que se recebem poemas. Ainda que não tenha sido o Francisco a escrevê-lo, para me fazer uma surpresa, é sempre um poema lindo. Vou guarda-lo. Quando estiver com o Francisco, vou puxar conversa disfarçada para ver se noto que foi ele que o escreveu. Afinal ele também é romântico e podia querer fazer-me uma agradável surpresa.
Na tarde desse dia os namorados encontraram-se, falaram das saudades de se não verem há dois dias, trocaram mimos de acordo com as circunstâncias e a dada altura, Josy disse:
- Francisco, aquele ramo de flores que me deste no dia de aniversário da Otília, ainda não murchou.
- É como o nosso amor. Não vai murchar tão cedo.
- Se fossem uns poemas, esses é que de certeza não murchavam.
- Ai isso não. Mas isso não sei fazer. Já tentei fazer-te uns, mas não saiu nada de jeito. Não é poeta quem quer.
- Pensei que se te esforçasses serias capaz.
- Está bem está. Se fosse assim, o valor dos poetas não era reconhecido. Toda a gente fazia poemas.
- Desculpa. Foi uma brincadeirinha minha. Como seria lindo a tua gatinha receber poemas de amor. Afinal nós estamos tão apaixonados.
- Deixa para lá.

Josy ficou com a certeza que não foi Francisco. Se o tivesse sido, ele não teria resistido tanto. Tê-lo-ia confessado.
Quem teria sido? Disse para si mesma. Romeu, que sei ainda ter por mim muito amor, não seria capaz. Se Francisco não é capaz e vai ser médico, muito menos Romeu, que só tem a instrução básica. Quem teria sido? Algum colega de Francisco para fazer qualquer brincadeira?
Não sei. Não importa. O que importa é que são lindos. Não vou dizer nada ao Francisco. Amanhã vou perguntar ao carteiro se foi ele que deixou, a pedido de alguém.
Os namorados ficaram mais algum tempo em alegre convívio. Contudo Josy parecia estar inquieta. Mostrava velada vontade de que Francisco fosse embora. Os versos daquele poema não lhe saíam da cabeça. Estava morta por os voltar a ler e reler. Tudo fez para que o namoro não se prolongasse, e deu de desculpa, que estava a arrumar o quarto dela, afinal o quarto que há-de ser dos dois e que nem a meio da arrumação vai.
Francisco, aceitou e disse que também tinha de passar pela Farmácia Brito, para comprar umas vitaminas para a mãe, que andava muito cansada.
Foi o que Josy quis ouvir.
Trocaram-se beijos e um até amanhã.
No dia seguinte, de manhã, Josy estava possuída de um nervoso miudinho e que crescia à medida que se aproximava a hora da chegada do Sr. Felisberto carteiro. Eis que já se ouve o trabalhar da mota junto ao mercado. Josy está tensa. Vómitos de nervos. Desceu as escadas e aguardou ao portão, o carteiro.
A Sra. Gertrudes apercebeu-se dos vómitos e disse: Que tens rapariga?
- Nada minha mãe, apenas um escarro.
- Pensei que estivesses a vomitar.

Como não houvesse correio hoje para a casa do Sr. Matos, Felisberto não tocou a corneta de aviso, contudo Josy mandou-o parar.
- Bom dia Sr. Felisberto.
- Olá juventude. Então que há?
- Sr. Felisberto, diga-me: ontem só houve aquele postal-aviso para nós? Não veio mais nada? É que estou à espera de correio para mim do Centro de Emprego e Formação Profissional.
- Não menina. Não houve mais nada.
- Tá. Muito obrigado. Então até amanhã. Boa viagem.
- Adeus menina.

Adensam-se as pistas para chegar ao esclarecimento e origem deste bonito poema.
Dizia para si mesma: Francisco não foi. Romeu muito menos. Quem será?

Pelo sim pelo não, e tendo em conta que no primeiro poema em rodapé tinha o número um, Josy abriu a caixa do correio na expectativa de ver se haveria um segundo envio e encontrou outra folha com o seguinte poema.


                                    CASTO LÌRIO


                                Meu casto lírio,
                                 Terno delírio,
                               Glória e martírio
                                Do meu amor!
                                Amo-te como
                              A haste o gomo,
                              O lábio o pomo,
                               E o olho a flor.
                             Se ao meu ouvido
                              Chega o rugido
                              Do teu vestido
                               Indo a roçar,
                             Que som me vibra
                              Não sei que fibra,
                              Que me equilibra
                                A mim no ar?

                              E que harpa santa
                              É que me encanta
                              E enche de tanta
                                Consolação,
                             Quando uma fala
                                Terna se exala
                               Donde se embala
                                  Teu coração?

                                  Quando te vejo
                                De um simples beijo
                                   Corar de pejo,
                                   Mudar de cor,
                                Que susto é esse
                                 Que me parece
                                 Te empalidece,
                                 Rosa de amor?

                                Quando no leito
                                Teu níveo peito
                                Sonho que estreito
                                 E aperto ao meu,
                                 Vendo tão perto
                                 O céu aberto,
                                 Porque desperto,
                                   Anjo do céu?

                                  Não fujas, rosa,
                                  Não fujas, goza
                                  Manhã mimosa,
                                 Manhã de amor!
                                 De folha em folha
                                  A flor se esfolha
                                  Bem cedo, e olha
                                  Que és uma flor!...



Perante este facto, Josy ficou muda de espanto. Quem poderá fazer-me assim poemas tão lindos? Então este? Quem quer que seja deixa-os à noite na caixa do correio.
Vou estar atenta esta noite para ver se apanho o “pinga amor”. Vou guarda-lo junto ao outro. Nem à minha mãe digo nada. Ela não poderá saber. Quem nunca o poderá saber também, é Francisco. Nem às paredes confessarei. Que lindos. Vou lê-los muitas vezes e guarda-los para sempre. Ainda hei-de saber alguns de cor.

Romeu sabe que estes poemas vão fazer mossa, e que Josy nunca desconfiará dele. Contudo, sabe que ela vai estar atenta a movimentações à noite, junto à casa dela. Afinal é à noite que eles são metidos na caixa do correio.
Está a pensar que não deverá manter aquela rotina, para não dar pistas à sua descoberta.
Doravante, vai estudar novo esquema de entrega, para baralhar as adivinhadas estratégias para a descoberta, por parte de Josy.


Olegário Matos continua sair à noite, para criar nova rotina de hábitos na sua mulher.
Disse para Gertrudes:
- Mulher, vou até ao Abstratus Bar. O Calixto me espera, para conversarmos um pouco.
- Tá bem. Não te demores muito.
Foi o que ele quis ouvir. A mulher está a interiorizar a ideia de que ele já não passará sem ir até lá um pouco, demais ele diz que vai para conversar com Calixto. Ela não vê mal nenhum nisso.
Chegado ao Abstratus Bar, encontra Calixto, de pé ao balcão a conversar com o Sr. João da Esquina e sua mulher Teresa Violante, os nossos conhecidos proprietários do bar.
- Boa noite meus senhores.
- Ora viva Sr. Olegário. Bons olhos o vejam por aqui, respondeu a Sr.ª Teresa.
- Ainda bem que apareceu, diz Calixto.
- Sr. João, duas cervejas fresquinhas. Sr.ª Teresa quatro bolinhos de bacalhau à portuguesa, bem quentinhos. Quem paga sou eu, disse Calixto.
 Estava feita a recepção a Olegário.
- Ora aqui está, disse O Sr. João da Esquina.
- Estão bons os bolinhos e quentinhos, disse Olegário.
-Ah pois estão. Foram feitos agora mesmo. Não são bolinhos de batata com batata. Levam bom bacalhau da Noruega. E muito. Disse a Sr.ª Teresa.
Calixto conversa e sabe de tudo um pouco. Fala de política, futebol e até mais vagamente de outros temas, resultantes de leitura diária da Folha de S. Paulo. Estava com vontade de falar.
- Olegário, já pensou em quem votar?
- Ainda não. Da outra vez votei no Lula, mas estou um pouco desiludido. Apetecia-me votar desta vez no Alckmim. Estou a gostar das suas palavras.
- Olhe, eu por mim ainda vou dar outra oportunidade ao Lula. Acredito que não tenha sabido escolher as pessoas certas para o acompanhar. Aquela do mensalão…
- Verdade se diga, o Alckmim fala assim porque não está no governo. Depois de ir para lá, o mais certo é que seja como os outros. De quem gostei mesmo foi do Henrique Cardoso. Homem muito sério. Pena não ter feito mais pelos pobres.
- Sabe de quem gostei mais, Olegário? Foi do Collor de Melo. Um mulherengo. E riu-se. Esse levava tudo à frente. Nova risada.
- Ora ora Sr. Calixto, disse a Sr.ª Teresa. Se estamos mal, com esse já estava tudo na banca rota.
Calixto gostava de animar a conversa e trazia assunto para dar boa disposição. Agora achou que se deveria falar de futebol e da copa mundial.
- Olegário, você já viu que nós na Copa ainda fizemos menos que aqueles portugas.
- O Filipão foi dar a sorte a Portugal. Fez-nos muita falta.
- Verdade. Nós nem com dois técnicos no banco. O Parreira e o Zagalo.
- Os nossos jogadores não podiam com uma gata pelo rabo. Então o Ronaldinho Gaúcho parecia que andava a pastar.
- Aquele francês deu água pelas barbas e já velho. O tal….
- Zidane.
- Isso mesmo. Nem é bom recordar esse nome.
- Bem bem, esteve Portugal.
- Aquilo não é só trabalho de Filipão. Eles têm bons jogadores. O Figo, o Maniche.
- O Ricardo.
- Isso. Defendeu três penaltis contra Inglaterra. Dizem que em Portugal ele dá bons frangos. Na Copa nem cheiro deles.
Como a hora já fosse adiantada, Olegário pediu desculpa ao amigo e disse que noutro dia falariam mais. E que esse dia seria já amanhã. Fez o regresso a casa por caminho não habitual, de modo a passar à porta de Micaela. Queria sentir a adrenalina da paixão emergente, e saber se ela ainda tinha luzes acesas.Viu que no seu quarto a luz ainda estava acesa, sinal de que se deitaria tarde.
Regressou a casa, já passava das 11.00 horas da noite.
- És tu Olegário?
-Sim, porquê?
- Pensei que virias mais tarde. Ainda só são 11.00 horas.
Foi o que ele quis ouvir.
Disse para si: Alto. A coisa está a correr-me de feição. Para a próxima até posso vir mais tarde. Ela não desconfiará de nada.
- Não amor, a conversa com o Calixto chegou ao fim. Não estava lá a fazer nada, vim-me embora. Amanhã vou até lá mais um pouco. Não se pode falar tudo num só dia, senão nem saberemos de que falar.
Ficou-se por aqui o diálogo entre os dois.
Povo Lusitano
Enviado por Povo Lusitano em 21/09/2007
Código do texto: T661587

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Povo Lusitano
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