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A BAIANA - Cap. IX

                                    A BAIANA

                                        IX


No dia seguinte, Olegário voltou a sair. Desta vez levava novidade com ele no pensamento.
 Dizia para consigo mesmo: A minha Gertrudes, para que eu a tenha na palma das mãos e a possa manipular a meu jeito, também terei de fazer qualquer coisa.
Se eu lhe desse uma prendinha de cortar a respiração, ele ficava babada e eu demonstrava-lhe um amor que ela nunca sentiu.
Flores, não. Murcham depressa e são para deitar fora. Roupa, também não. Não tem a pujança de uma peça de ouro, não tem o fascínio e o brilho que o ouro transmite.
Isso sim. Com uma peça de ouro encastrada com brilhantes, coisa que não seja fora de preço para as minhas posses, ela vai ficar de “cu”. Fica-me na mão. Terei dela toda a confiança para sair à noite, até às horas que me apetecer.
Vou direitinho à Ourivesaria Coral do Sr. Oliveira. Ele é boa pessoa. Saber-me-á indicar a peça mais adequada, para aquele efeito que pretendo.
Se melhor pensou, melhor o fez.
- Gertrudes, hoje vou sair mais cedo um pouco. O Calixto convidou-me a passar pela casa dele antes de irmos até ao Abstratus Bar. Disse-me que tinha lá um vinho vindo de Portugal, que um amigo lhe enviou, que era de cortar a respiração. Faz questão que eu prove. Diz que se chama Barca Velha. Estou para ver, se é como diz.
- Oh homem, tu é que sabes. Esse Calixto deve ser realmente muito teu amigo.
- Por acaso. É boa pessoa. Toda a gente gosta dele.
Verdade que não estava Calixto nenhum à espera. O que o esperava era a Ourivesaria Coral.
Olhou a montra, voltou a olhar, tentou ver os preços, mas como não levava óculos, ficou sem saber.
Disse para si: Vou ter de entrar. Calha bem, o Sr. Oliveira estar. Com ele tenho confiança.
Muito boa tarde a todos.
- Sr. Oliveira passe muito bem.
O Sr. Oliveira, não reconheceu a voz, levantou vagarosamente cabeça, acertou a posição dos óculos e só depois reconheceu o Sr. Matos.
- Ora viva Sr. Matos. Por aqui?
- Verdade, Sr. Oliveira. Andava há muito para oferecer uma prenda à minha Gertrudes. Não me saía do pensamento uma prendinha em ouro.
- Bom gosto. Temos aqui muitas coisas que poderão fazer a alegria da sua Gertrudes. Por falar na sua esposa… Já há muito que não a vejo. Ela passa bem?
- Sr. Oliveira, se está. Ela está como aço. Eu é que não estou tão bom.
- Não diga isso. O seu aspecto é de homem saudável. Você, ainda estava aí homem para lançar a sarda a uma novata.
- Olegário riu-se.
No fundo ele sabia que o Sr. Oliveira adivinhava que sua saúde era boa e recomendava-se.
- Desculpe a brincadeira, Sr. Matos.
- Ora essa. Na nossa idade só queremos uma sopinha bem feita à noite e um terço para rezarmos umas Avé Marias.
- Bom. Vamos ao que interessa. Você tem alguma coisa na ideia?
- Ter tenho, mas o Sr. Oliveira é a pessoa mais indicada para me dar umas dicas. Olhe que este relógio que aqui trago, foi você que mo vendeu, vai para quinze anos. Trabalha certinho. Só uma vez parou, por ter entrado água nele. Só tenho razões para confiar na sua palavra.
- Nesta casa o que se vende é de confiança, de contrário não tínhamos à venda. O que sair daqui vai garantido.
 - É por isso que venho cá.
- Então se me dá licença, Sr. Matos, vou começar por lhe mostrar este conjunto de anéis e brincos. Que Tal?
- Sr. Oliveira, vi na montra uma gargantilha bonita. Ela, deve ser cara para as minhas posses.
- Sr. Matos, não vamos falar de preços antes da escolha, senão você acaba por não comprar uma coisa a gosto. O preço deixe comigo.
- É aquela, e apontou com o dedo.
- Muito bom gosto. É a mais bonita da montra. Quem tem uma igual é a D. Francelina, a esposa do Dr. Jesualdo.
- Uff. Então deve ser muito cara.
- Sr. Matos, a sua esposa talvez lhe mereça muito mais. E a dar e dar, você deve pôr a sua mulher tola. Era isso que eu faria. Ela vai sentir que você ainda a ama como se fosse no primeiro dia ou mais.
Matos concordou. Acertaram preço final.
- Sr. Matos, se você não puder pagar de uma só vez, diga como quer. Aqui o Oliveira facilita-lhe o pagamento. Os clientes são para se estimar.
- Sr. Oliveira, então se o Sr., não se importar, divide em seis prestações de 250 reais cada.
- Oh Sr. Matos, não me importa nada. Veja se quer levar mais alguma coisa.
Matos ficou a pensar nesta deixa e seu pensamento correu direitinho para a cunhada.
- Não, por hoje é tudo. Faça o favor de fazer um embrulhinho à maneira.
- Sem favor. Estamos aqui para bem servir. Com esta prenda, sua Gertrudes não espera. Lembre-se que nesta terra só a mulher do Dr. Jesualdo tem uma igual.
Despediram-se, sem que antes Olegário lembrasse que um dia destes passaria por lá de novo.
 A cunhada já o ocupava demais nos momentos mortos do pensamento. Já andava a ter medo de si mesmo e da avalanche de desejos incontidos e incontrolados. O coração já andava em velocidade desgovernada. Nada a fazer. A idade permitia-lhe o canto do cisne.

Com a compra no bolso e o pensamento na mulher, dizia para si: A minha Gertrudes vai ficar louca. Vou poder fazer o que quero. Ela vai-me distinguir com absoluta confiança. Hoje até vou mais cedo para casa. Quero ver como vai ser a reacção.

Antes de regressar a casa, foi até ao Abstratus Bar. Como não visse o amigo, perguntou por Calixto, ao Sr. João da Esquina.
- Sr. Olegário, o Calixto avisou, para lhe dizer que hoje vinha a mais tarde. Teve de ir com a mulher fazer uns exames.
- Ela está doente?
- Não. São exames de rotina.
-Ah…. Uma cerveja fresquinha, por favor, Sr. João. Que há que se coma?
- Espere, vou perguntar a minha mulher.
- Olá Sr. Olegário, disse a Sra. Teresa. Quer saber que temos para mastigar? Ovos cozidos, croquetes de carne, rissóis de camarão e bacalhau frito.
- Hoje não tem bolinhos de bacalhau à portuguesa?
- Não. Já acabaram. Têm de ser feitos e comidos na hora. Vou preparar a massa para fazer mais. Amanhã se passar por cá, já tenho. Olhe que o bacalhau ainda deve estar quente.
- Diz bem. Uma posta de bacalhau frito também vem a calhar.
- Bom apetite.
- Obrigado.

Enquanto petiscava, Olegário quis falar da prenda que ia oferecer à sua Gertrudes.
- Sr. João, levo aqui neste bolso uma prenda para a minha mulher.
- Não pode ser grande prenda. O bolso está vazio.
- Chame a sua mulher para ela ver.
João da Esquina foi à cozinha chamar pela mulher.
- Então que me quer, Sr. Olegário, mais bacalhau?
- Nada disso. Vou-lhe mostrar a aprenda que comprei para oferecer à minha Gertrudes. O seu João não lhe dá coisas destas. É muito forreta.
- Não diga isso do meu João. Ele também me dá prendas.
- Mas como esta não, de certeza. Olhe que só há uma igual cá na terra.
- Você está a pôr-me roída de inveja, Sr. Olegário. Mostre mostre.

Olegário foi ao bolso e calmamente retira de lá a pequena embalagem, carinhosamente tratada para não estragar. Abriu lentamente, sob o olhar atento de mulher e disse: Estava a falar verdade ou mentira?

- Sr. Olegário, você realmente deve ter muito amor à sua mulher. Uma gargantilha dessas não devia ter sido nada barata. Esses pendentes com as pérolas, uma em cada ponta dão-lhe uma graça e elegância. Só lhe digo. Você tem de gostar muito da sua mulher.
- Sr.ª Teresa, nunca conheci outra mulher na vida nem quero. Quem está bem deixa-se estar.
- Realmente o Sr. Olegário tinha razão. Tem uma prenda de bom gosto para oferecer.
- Tu, João, nunca me deste uma prenda assim. Só queres ter dinheiro. Ficava-te bem um gesto como este. Casados há trinta anos e tudo o que me deste foi trabalho e uma carrada de filhos.
- Ora ora. O Sr. Olegário se vai dar lá sabe das suas razões. Cada qual sabe de si. Tem lá juízo.
- Tá a ver Sr. Olegário, como ele me respondeu?
- Menina, o seu marido na hora certa também lhe vai dar uma prenda, quem sabe se ainda melhor do que esta.
Feita a amostragem, Olegário guardou cuidadosamente na embalagem a gargantilha que lhe há-de dar capital de confiança para as noitadas que se avizinham.

Findo o lanche, pagou e disse ao Sr. João para que este dissesse ao Calixto, que hoje já não passaria por ali. Recomendou um abraço para o amigo. Afinal, de modo indirecto, vai-lhe permitir ter encontros com a cunhada, em noitadas vindouras. Irá servir-lhe para muitas desculpas que terão de ser arranjadas à última da hora.
Dizia a si mesmo: Um amigo destes será sempre para estimar. E pode até nem chegar. Mais um ou outro amigo é preciso ter. Muitos não. Mas mais um ou outro certinhos e estimados vão fazer falta. As desculpas a arranjar podem ser muitas e Calixto não se aguenta com tantas. Tenho de preparar antecipadamente muitas desculpas a dar à Gertrudes. Vou falar ao Calixto para trazer dois amigos dele até ao Abstratus Bar, de boa cepa, que inspirem total confiança. Se me perguntar porquê, direi que é para podermos jogar umas cartadas. Ele não precisa de saber das minhas intenções.

Lanche no papo e pago e eis Olegário de regresso a casa.

- Já vieste homem? Cada vez vens mais cedo.
- É. Calixto depois de eu ter estado na casa dele a beber o tal pingato de Portugal, não pôde sair. Chegaram visitas. Uns colegas já aposentados, que trabalharam com ele na Bandeirantes. Um deles tu até devias ter conhecido quando eras garota. Ele era daqui. Filho do João Penetra, o Luís.
- Sei. Ele já há muito que foi para S.Paulo. Era um moço novo e bonito. Chegou a namorar para a Rita Guerra, filha do Sr. Octávio e da Sr.ª Joana Guerra, da Rua do Fojo.
- Lembro-me sim senhor desse moço. Mas tu ainda tens melhor memória que eu. Até esses pormenores sabes. Eu era muito pequeno ainda.
- Felizmente ainda estou bem das ideias, disse Gertrudes.
- Estive lá pouco tempo, não quis ser intruso no meio daqueles amigos.
- Fizeste bem.
- Vim pela Rua do Ouro e ao passar à montra da Ourivesaria Coral, do Sr. Oliveira olhei-a e deixei-me perder por uma peça de ouro linda que ele tinha exposta.
- Tá lá calado homem. Para o que te deu.
- A minha gatarrona tudo me merece. Queres ver?
- Foi para mim que compraste? Mostra.
Olegário mete a mão ao bolso e tira o pequeno embrulho com uma tranquilidade de criar suspense. Só mesmo de homem apaixonado.
- Olha. Toma. Abre.
Gertrudes pegou no pequeno embrulho e nem queria acreditar no que via. Uma gargantilha com pendentes com pérolas verdadeiras.
- Oh homem, tu perdeste cabeça.
- Não perdi não. Tu, tudo me mereces Gertrudes. Foste sempre a mulher da minha vida. Outra nunca me daria a felicidade que contigo alcancei. Trinta anos do mais puro amor que nos irá acompanhar até aos nossos últimos dias.
- Olegário, dá cá um beijo. Não é por me dares esta linda prenda que te amo mais, não penses. Sempre foste o homem que eu gostei e gosto de ter.
- Gertrudes, sei que posso contar contigo em todas as horas, nas boas e nas más. Sei também que se algum dia tiver alguma falta serei perdoado. Tens um coração do tamanho do mundo.
- Olegário casei contigo por o mais puro amor. Nunca outro homem me esteve nos pensamentos, desde que subi ao altar para darmos o nó.
- Eu também não. Nunca uma mulher se me atravessou à frente nos meus pensamentos de homem. E olha que a oferta é muita. Serei eternamente fiel à minha muito querida gatinha.

Feita a oferta, e depois destas falas cheias de amor e fidelidade prometida, beijaram-se ardentemente. Os olhos de Gertrudes raiavam como dois feixes de luz. Olegário sentia-se amordaçado nos impulsos que a cunhada despertava.
Dizia para si: A minha cunhada está boa como milho. Não devo deixar escapar esta oportunidade. Oportunidade perdida não volta mais. Afinal desde que se não saiba, que mal tem? Eu já não sou nenhuma criança. Não posso esperar muito mais por outra oportunidade. A idade avança e depois quero e não posso…Terá de ser agora ou nunca. E para já ainda estou para as curvas. E então o corpo dela é de levantar um morto. Que sonho de mulher. A minha mulher já deu o que tinha a dar. Com ela acho que até envelhecerei mais depressa. Com a Micaela sentirei o canto do cisne na maior pujança. Vou dar muitas alegrias a estes ossinhos. Vai ser um bota fora.
Foi com esta conversa interiorizada que Olegário se foi deitar. Gertrudes não o acompanhou. Ficou a arrumar a cozinha e a passar um pano no chão. Quando foi para a cama já o marido dormia. Deitou-se lentamente para não o acordar. Afinal estava ali um homem que lhe “queria” tanto. Merecia um descanso tranquilo. Ainda assim despediu-se dele com um beijo.
Povo Lusitano
Enviado por Povo Lusitano em 21/09/2007
Código do texto: T661589

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Povo Lusitano
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Povo Lusitano