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A BAIANA - Cap. II

                                      A BAIANA

                                          II


 A este namorico inicial, outros se seguiriam. Na calha estava o Francisco, à espera da mais pequena zanga entres os jovens apaixonados.
Francisco, era o filho do alfaiate, mais velho três anos que Josy, estudante e inteligente moço, que soube esperar a hora certa para fazer a sua investida.
Assim, naquele dia que amanheceu com sol aberto e quente de Maio, o Francisco viu a Josy sair de casa e dirigir-se a casa da prima Otília, mais nova oito anos, que morava distante setecentos a oitocentos metros, em direcção ao mercado. Resta lembrar que apesar da diferença de idade, havia entre elas muita amizade.
No bar que ficava a meio caminho, O Abstratus Bar, o Francisco lia e relia os jornais para passar o tempo na expectativa de a ver passar de regresso a casa. Angustiado, com os nervos a corroê-lo, Francisco, depois de lidos e relidos os jornais, roía as unhas, numa azáfama que metia impressão, de tal modo que o Sr. Calixto, homem de sessenta anos de idade e muito sabedor de vidas, notou e deu de cotovelo para o amigo que estava a falar com ele.
- Repara no Francisco, o filho do Paulo alfaiate.
- Reparo em quê, Calixto?
- Ele não deve estar bem. Já viste como ele devora as unhas. Daqui a pouco nem dedos tem.
- Eh. Realmente não é normal.
Entretanto com o cair da tarde, uma trovoada se formou à distância, e aproximava-se a passos largos, com exuberantes iluminações do céu pelos relâmpagos e queda de faíscas que davam uma beleza impar àquele céu de Maio.
Francisco antevendo umas chuvadas fortes para esse final de dia, foi a casa buscar guarda-chuva, a pensar que lhe poderia ser muito “útil”, naquele dia.
Já pensava que com ele, poderia socorrer a Josy, uma vez que ela não levou guarda-chuva, dado que o tempo estava de sol radioso quando saiu de casa.
Se bem pensou, melhor o fez. Tomou a viela do mercado, virou à esquerda e adiante 50 metros, deu de frente com a casa da D. Micaela, mãe de Otília. Ao passar ouviu em voz de fundo, uma gargalhada de riso estridente que a Josy pronunciou, naturalmente resultante de animada conversa de jovens.
Francisco, parou por uns momentos e disse para ele mesmo: Ela ainda está.
Que devo fazer?
A indecisão tomou conta dele. Algumas alternativas para dar uma saída de acordo com o que pretendia, esbarravam na intranquilidade e num nervoso miudinho que o atormentava.
Aguardou na proximidade da casa da dona Micaela, sempre ansioso pela hora da saída da Josy. Quanto mais demorada era, mais inquietação se apoderava do jovem Francisco. Inquietação que se manifestava mais pronunciada sempre que alguém passava por ele e o interpelava com saudação ou conversa.
Foi o caso da senhora Maria do Tanque, que vendo ali aquele vulto já ao cair da tarde e sob já grande escurecimento do céu, com as inevitáveis nuvens ameaçadoras de intensas chuvadas, se aproximou para tirar as suas dúvidas quanto à pessoa que ali se mantinha impávida e serena. À medida que se aproximava, Francisco ficava cada vez mais intranquilo. Contudo achou que não haveria razão maior para essa intranquilidade e encarou de peito feito a senhora Maria do Tanque, que em passos lentos se aproximou.
- Olá Francisco, boa tarde.
- Olá senhora Maria, como vai?
- Que fazes por aqui moço a esta hora e com um tempo tão ameaçador?
- Nada de especial. Apenas vim dar um passeio até aqui. Já há muito que não vinha até esta zona. Isto aqui está a ficar muito bonito. Casas novas. Arranjo da escola. Parabéns.
- Dizes bem. Agora está mais bonito.
- Mas, oh Francisco, pareceu-me que te vi parado ou estou enganada? Tu parado não vês nada.
 Francisco tossiu para se tranquilizar e depressa se desculpou.
- Apenas parei aqui uns breves minutos a pensar na minha vida.
- A pensar na tua vida, Francisco? Disse a senhora Maria!
- Tu és muito jovem. Os teus 17 anos não são para levar a vida a pensar.O teu pensamento terá de ser os estudos.
- Ouvi dizer que para o ano vais estudar para Salvador. Que vais ser médico.
Francisco sorriu e confirmou com aceno de cabeça o que a senhora Maria dizia.
- Oxalá Deus te ilumine a inteligência. Não sabes como ficarão vaidosos e orgulhosos de ti, os teus pais.
Demais, ser médico e de família humilde, vais fazer a inveja dos ricos de cá. Quando fores médico, quero que sejas tu a tratar a minhas maleitas, disse com sorriso a senhora Maria.
Posto que Francisco não estava para grandes conversas, a senhora Maria despediu-se com saudação amiga, sem que antes lhe tivesse feito algumas recomendações.
Duas delas ficaram com Francisco e levaram-no a reflectir um pouco. Uma era de que a “vida não é para ser levada a sério naquela idade”. A outra sobre os “ estudos”.
Na primeira, a senhora Maria mexeu no ponto mais frágil que ao momento mais importuna o futuro médico.
A vida, o que fazer, se se aproxima a ida para Salvador e a “sua menina”, a jovem e bela Josy vai ficar distante dos seus olhares.

Neste entretanto e em cima dessas cogitações, a Josy aparece à porta da casa da dona Micaela a despedir-se da tia e prima Otília, manifestando alguma pressa, com receio às nuvens ameaçadoras. Trocaram-se beijos de despedida e alguns sorrisos de felicidade.
- Adeus tia e prima. Amanhã voltamo-nos a encontrar.
- Adeus Josy. Dá beijos à mãe. Cumprimentos para teu pai e irmãos.

Josy inicia em passo apressado o regresso a casa, levando no pensamento muitas das conversas havidas, particularmente com a primita Otília e que a levavam a ter sorrisos interiores.
Atrás, segue à distância Francisco, que nervoso, alarga o passo para se aproximar de Josy.
Mais à frente, Josy é alcançada.
- Olá gatinha, disse Francisco.
Josy olhou para trás para ver quem a saudava.
-Olá. És tu, Francisco!
Ela, estava calma, serena. Notou o travar da fala de Francisco como sinal de nervosismo e procurou fazê-lo sentir-se à vontade.
- Há muito que não te via, Francisco.
-Eh. Não tem calhado a gente encontrar-se. Tu namoriscas com o Romeu e eu achei por bem esquivar-me a estes encontros. Mas, pensei e entendi saber se esse namorico vai bem.
- Curioso! Riu-se Josy. Não, não namoro para o Romeu. Foi um namoro que durou pouco tempo. Sou muito nova para namorar. Sou muito nova para amar e sofrer. Disse com largo e irónico sorriso.
- Ora. És nada nova. Amar não tem idade. Também sou novo. Quero namorar e amar. Vou para o ano para Salvador e quero ter namorada aqui, em Tucano. Quero alguém que me chame cá com muita força. Salvador, só para estudar. Para amar é Tucano.
- E então? Tens cá moças lindas para poderes amar. Olha a filha do Dr. Jesualdo, a Elaine. Moça de família rica e vai ser médica como tu. Pede-lhe namoro. Ela é bonita e rica. Que mais queres?
- Dinheiro não é tudo na vida. A moça que eu quero e amo é pobre. Eu também sou pobre. Meu pai é um simples alfaiate.
- Vais perder tempo com esse namorico, se é como dizes.
- Estás enganada Josy. Nada paga a felicidade de uma vida. O dinheiro só depois dessa felicidade alcançada, faz sentido.
- E já agora, posso saber quem é a eleita do teu coração Francisco?
- Podes. És tu Josy.
Josy corou de vergonha, não contando com essa resposta. Por momentos, ambos respiraram fundo e nem uma palavra soletraram.
- Tá bem. Muito me gozas. Eu para tua namorada? Nem penses. Tu vais ser médico. Minha vida há-de tomar rumo diferente do teu.
- Josy, eu amo-te. Tu és a mulher dos meus sonhos. Só tu farás de mim médico, de contrário não vou ser nada na vida. O meu coração tem uma brecha que só tu repararás. Ninguém poderá cicatrizar essa ferida. Só os teus beijos e carinhos cicatrizarão estas chagas de amor.
- Francisco. Tu és um rapaz superior a mim. Já tens estudos mais avançados. Além de que sou ainda nova. Não te quero atrapalhar a vida. Minha vida será mais simples ao lado de um homem simples. Tu és um rapaz que vai ser médico. Mereces coisa melhor do que eu. A filha da Gertrudes casada com um médico. Onde se viu uma coisa dessas?
Francisco não conteve a emoção. As lágrimas soltaram-se gota após gota, perante a argumentação de Josy. Nem queria acreditar no que ouvia.
Entretanto a chuva aparece, primeiro leve, depois mais forte, de modo que Francisco teve de abrir o guarda-chuva.
Assim caminharam lado a lado, ela aparando as gotas da chuva segurando o guarda-chuva, ele as gotas que lhe caíam dos olhos enroladas umas nas outras, sem que uma palavra se tivesse pronunciado entre eles.
Momentos difíceis para Francisco.
Josy teve pena dele, fitou-o nos olhos, passou-lhe a mão na testa, apartou-lhe o cabelo para o lado. Trocaram-se os primeiros mimos.
Naquele momento nasceu uma paixão que há-de esquentar nos próximos tempos e que fará destes jovens o mais bonito par de Tucano.
Povo Lusitano
Enviado por Povo Lusitano em 22/09/2007
Código do texto: T663167

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Povo Lusitano
Portugal, 62 anos
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