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A BAIANA - Cap. XV

                                      A BAIANA

                                         XV

Hoje, véspera do encontro de Olegário com Micaela, há que tomar todas as iniciativas adequadas ao seu bom êxito.
A cabeça de Olegário tem andado numa roda-viva de criação, montagem e desmontagem de cenários conducentes ao sucesso da “empreitada”.
Tendo em atenção as muitas medidas a acertar, Olegário começou a véspera do dia “D”, com um teste “físico” na pessoa da sua Gertrudes, logo pelo raiar do dia, como que para confirmar as suas capacidades sexuais, e cujo resultado final o satisfez plenamente. Dizia a si mesmo, que nenhum homem por jovem que fosse iria tão longe. Ainda estou um jovem, como há trinta ou mais anos…dizia para si.
Tranquilamente cuidou da sua higiene pessoal. Tomou banho, barbeou-se, até a camisa passou a ferro. Este pormenor levou Gertrudes a questiona-lo, tendo nascido o seguinte diálogo:
- Porque não quiseste que te passasse a camisa?
- Porque não queria que estivesses de pé tanto tempo, sobre as varizes, minha querida.
- Mas podia ter a tua filha passado, não achas?
- Sim, mas tem tempo de passar. Ainda é nova. Quando casasse já ia enjoada de passar a ferro…
- Então daqui para a frente, és tu que vais passar as camisas? Sabes que vou continuar a ter varizes… e riu-se.
- Sei lá. Até estou a gostar.
- E cozinhar? Não queres aprender? Olha que te pode vir a dar jeito, num futuro.
- Não dizes mal. Vou também aprender.
Foi este o breve diálogo entre ambos. De seguida pensou e disse: Vou até ao Abstratus Bar, conversar com o meu bom amigo Calixto, e poderei nem vir almoçar.
Faz o que quiseres. Leva dinheiro, ao menos para o almoço, disse-lhe Gertrudes.
 Olegário percebeu nas entrelinhas que poderia até demorar-se, que ela não se importaria.
De caso pensado, foi dar uma volta pela cidade, olhando atentamente as montras a ver se encontraria objectos para oferecer à “sua” Micaela. Entrou no Shopping Santa Cruz, demoradamente observou as vitrinas e começou a ficar confuso com a panóplia de coisas que poderia oferecer.
Disse para si mesmo: quanto mais vejo mais confuso fico. Se pudesse comprar tudo o que gosto, gastava uma fortuna e não a tenho. Acho que o melhor é ir ao Oliveira da ourivesaria e à Farmácia Brito. Já que tenho crédito, compro e depois pago em prestações.
Ainda devo cinco, mas eles o que querem é vender e vou pagar estas em mais seis. Assim nem vou sentir.
Se melhor pensou, melhor o fez. Entrou na ourivesaria, como estivessem pessoas, chamou à parte o Sr. Oliveira, disse-lhe ao que vinha e aguardou pela vez para ser atendido. Entretanto foi lendo o jornal A Folha de S. Paulo para passar o tempo.
Posto que tivesse chegado a sua vez, o Sr. Oliveira chamou-o
 Iniciou-se entre eles o seguinte diálogo:
- Queria então ver uma pecinha distinta para a “Minha”, do género das que usa a D. Francelina, esposa do Dr. Jesualdo. Digo mais, se possível melhor. A “Minha” tudo merece.
- Concerteza, Sr. Olegário. A “Sua” deverá ser merecedora de toda a generosidade. Com este gesto nem sabe como ela ficará feliz. Com uma pecinha destas você ainda arranjava uma amante…e riu-se.
- Calculo, calculo e nova…
- Posso dar-lhe um conselho?
- Faz favor, até agradeço.
- Como da outra vez o Sr. Olegário levou uma gargantilha, para que ela não pense que o Senhor não tem bom gosto e imaginação na escolha, dava-lhe de parecer comprar um colar, todo entrançado, em ouro de 19 kilates, produzido em Portugal pelos melhores artesão de Travassos, lá no norte de Portugal numa terra chamada Póvoa de Lanhoso. Já ouviu falar de filigrana?
- Não. Nunca. Nem faço ideia o que isso é.
- É esta arte que o Sr. Olegário me está a comprar e que vai fazer estalar de felicidade os olhos da “Sua”.
- Mas isso deve ficar caro, Sr. Oliveira.
- Não se preocupe com o preço. Arranjaremos modo de pagar suavemente. O Sr. Olegário goza de todo o crédito, que a outros clientes não faço.
- A ser assim, tudo bem. Qual o preço desse colar de fili….. Quê?
- Filigrana. Estava marcado 2 000 reais, mas faço-lhe uma atenção de 10% de desconto. Fica em 1 800 reais. Acho que já não tem nada que dizer. Ah, e ainda vai poder pagar em seis prestações, o que dá 300 reais por cada, e por mês.
- Muito bem. Faça um embrulhinho bonito Sr. Oliveira, para que a oferta tenha mais impacto.
- Concerteza.

Feito o negócio, cumprimentaram-se e Olegário saiu em direcção à Farmácia Brito, que tinha uma boa secção de perfumes e onde ele havia comprado para si, há uns tempos.

- Sr. Martins, muito bom dia.
- Bom dia Sr. Olegário.
- Que o traz até nós?
- Quero um perfume para a “Minha”.
- Sim senhor. Vou buscar para ver.
- Quero coisa boa, como os que compram as senhoras finas.
- Concerteza. Trago o que melhor tiver para o senhor Olegário escolher
- Ena pá, tanta coisa!
- Temos aqui estes que, quer uns quer outros são os mais indicados para a sua esposa. São mais discretos.
- Que quer dizer com isso? Que ela é velha? Que consoante a idade assim deverá ser o perfume?
- Mais ou menos isso.
- Não. Quero um perfume jovem e que apele ao amor.
- Ah, Desculpe. Temos aqui estes com essências afrodisíacas.
- Que quer dizer isso?
- Que fazem despertar desejo sexual.
- Então já podia ter dito há mais tempo. É disso que quero. Qual o preço?
- Estes são bastante mais caros, mas vai ver que vai valer a pena… e riu-se. Temos de 150 a 250 reais.
- Então um dos de 250 reais. Olhe que é para pagar a prestações.
- Tudo bem. Você aqui, tem todo o crédito.
- Faça uma embalagem bonita, que a “Minha” até os olhos lhe vão estalar.
Feitas as compras, teve necessidade de estudar a melhor maneira de as fazer chegar à Micaela sem que a mulher ou filha em casa as vissem. Pensava que daria uma bronca de todo o tamanho se fossem descobertas, não que eu não me soubesse desculpar, mas ainda assim devo evitar…, dizia.
Ocorreu-lhe uma ideia luminosa para as guardar de hoje até amanhã. Resolveu introduzi-las na caixa do correio, acompanhada de uma carta, a qual dizia o seguinte:
 

Minha adorada Micaela

As prendas que junto, são o resultado de um apreço louco que tenho por ti. Não há palavras que possam testemunha-lo. Fico ansioso a contar os minutos e segundos até ao nosso primeiro encontro a sós, amanhã sexta-feira.

                                                               Beijos húmidos
                                                                   Olegário

PS. – Conta comigo a partir das 22.00 horas. Deixa a janela do teu quarto encostada e o escadote à vista.

Ao cair da tarde e com o sol já posto, Olegário iniciou o percurso até à casa de Micaela em passo lento, escolhendo o percurso mais longo e fora do habitual para que não fosse surpreendido por ninguém conhecido.
Chegado já com noite, olhou para todos os lados, não viu ninguém, e meteu tudo na caixa do correio.
Aprestava-se para reiniciar o regresso a casa e ouviu o “miau” da Moranga, que de cima do muro viu tudo. Foi um “miau” de saudação. Nada que o devesse preocupar, era ainda cedo e Moranga não estava em missão de vigilância.
Contudo, Olegário não conhecia como Maria do Tanque, os “sinais” que eles transmitiam, que ora eram de saudação, preocupação ou medo. Nisso ela era mestre. Conhecia-lhes toda a psicologia. Eram o seu alerta.

Quem não registava melhorias de saúde, era a jovem Rosa Maria.
Um dia destes, Romeu passou na rua, junto à padaria. Rosa Maria viu-o, chamou pela mãe e perguntou-lhe se sabia quem ali passava. A mãe não conseguiu reconhecer.
- É o Romeu do Felismino sapateiro, a quem nós mandávamos pão e leite. Olha como ele está bonito e gordinho. A fome não deixava ver o que estava nele.
- Realmente. Como está diferente!
Este reconhecimento da mãe, fez crescer nela mais admiração por Romeu.

Os namorados Josy/Francisco tiveram um dia normal, sem nada de registo. Francisco não é um moço para grandes surpresas. Josy chega a ter momentos em que a sós, se pergunta se o ama verdadeiramente. Depressa as dúvidas se dissipam, porque pensa que não é possível um namorado ter tudo, e Francisco não foge à regra. De resto ele é muito bom moço. Irei fazer o que quero. Não será nunca do tipo machão.

Romeu, quando passava na rua junto à padaria na altura que Rosa Maria o viu, dirigia-se à biblioteca para transcrever mais poesia para Josy.
Foram estas as poesias escolhidas para enviar.

                                       AMO-TE

                            Amo-te a ti e a Deus.
                            Teus sonhos são riquezas
                            Talvez e fasto; os meus,
                            És tu que me desprezas.

                            Deixa-lo. Amor acaso
                            É racional? Não é.
                            O fogo em que me abraso
                            É como a luz da fé;

                            Que além de cega, apaga
                            O facho da razão.
                            Ama-se e não se indaga
                            Se se é amado ou não.

                            Amo-te, e o mais ignoro;
                            Mas os meus ternos ais
                            E as lágrimas que choro
                            Podem dizer o mais.

                            Que choro; se te admira,
                            Nunca tiveste amor;
                            Quem tem amor suspira,
                            E o suspirar é dor.

                            Ah! Quando abraço e beijo
                            O travesseiro, e assim
                            Acordo e te não vejo;
                            Vejo-me só a mim;

                           Não sei, mulher! Que anseio
                           Se me traduz num ai!
                           Confrange-se-me o seio,
                           Rebenta o pranto e cai.

                           Então se por encanto
                           Falando em ti, mas só,
                          Todo banhado em pranto
                          Me visses, tinhas dó;

                          Tinhas; a piedade
                          É filha da mulher,
                          Que sempre quis metade
                          De uma aflição qualquer.

                           Havias ao teu rosto
                           De me apertar a mim,
                           De encher, fartar de gosto
                           Todo este abismo, sim;

                           Vós desprezais embora
                           Culto e oração
                           De quem vos ama; Agora
                           As dores, essas não.




                                     SEMPRE

                       Pensas que te não vejo a ti? Bom era!
                       Gravei tão vivamente na alma a doce
                       E bela imagem tua, que eu quisera
                       Deixar-te de contemplar só que fosse
                       Um momento, e não posso, não consigo!

                       Foges-me, escondes-te e, que importa? Esculpes
                       Mais fundo ainda os indeléveis traços!
                       Realça-te o retrato! E não me culpes!
                       Culpa-te antes a ti!... Sigo-te os passos!
                       Vejo-te sempre! Trago-te comigo!




                                      INDIFERENÇA


                       Ora diz-me a verdade:
                       Tu já sentiste por mim
                       Uma sombra de saudade,
                       De amor, de ciúme; enfim,
                       Uma impressão que indicasse
                       Haver em teu coração
                       Fibra, corda que vibrasse,
                       A minha recordação?

                       Parece, mas o contrário;
                       Sim o que devo supor
                       É deserto e solitário
                       O teu coração de amor!
                       Não digo por outro; Invejo
                       Talvez a sorte de alguém…
                       Mas o que eu sei, o que eu vejo,
                       É que me não queres bem!


Romeu, aproveitou a ocasião de não estar ninguém na biblioteca àquela hora, e transcreveu mais poemas que o habitual. Estava felicíssimo. Aliás, anda muito bem física e psicologicamente. Merece-o.
Quem já deu conta desse bom momento de vida, é Rosa Maria que não perde uma ocasião para o espreitar quando passa junto à padaria. Se lhe ouve a voz, que identifica muito bem, mesmo à distância, vem para junto da porta para o contemplar.
Quem identifica não a voz, mas a buzina da carrinha do peixe é Micaela, que mal a ouve, sai para a rua, ainda que não seja para comprar peixe. Aquele peixeiro está-lhe presente no pensamento. Arranja-se antes de sair, vai ao espelho, mira-se e remira-se em movimentos de volteio que a farão sentir-se atractiva, àquele que supostamente seria o homem da felicidade edénica.
Micaela, não irá desistir à primeira, à indiferença de Alfredo. Acha que a persistência a poderá fazer atingir o almejado homem, que à face da terra a realizaria.
Povo Lusitano
Enviado por Povo Lusitano em 25/09/2007
Código do texto: T668071

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Sobre o autor
Povo Lusitano
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Povo Lusitano