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A BAIANA -Cap. XVI

                                 
                                   A BAIANA

                                        XVI

Finalmente o tão aguardado dia. O dia de Olegário e com o qual ele há muito fantasiava. Pensou maduramente os timings de actuação e procedimentos, para que nada falhasse. Nem mesmo o seu habitual acto sexual intramuros foi esquecido, mas por omissão, com o objectivo segundo ele, de se apresentar na máxima força.
O banho, barba, perfume, camisa e calças que iria vestir, também foi pensado.
No banho, até usou os sais da filha, que deitou desmesuradamente, de tal modo que a espuma saía pela banheira fora, tendo molhado o chão. Ao banhar-se passava a mão na zona dos genitais, falava para eles e acariciava-os com o cuidado de não se excitar, com medo de perder energias que na hora certa lhe iriam fazer falta. Posto que a espuma se intensificou com a agitação da água, teve necessidade de limpar o chão da casa de banho, com a esfregona.
Verdade, o Olegário de esfregona na mão, quem diria.
Gertrudes ia a passar no momento em que ele saía da casa de banho, de balde e esfregona e perguntou:
- Que aconteceu?
- Nada de especial. O chuveiro abriu-se e deitou para fora da banheira. Estive a apanhar a água com a esfregona.
- Está bem, mas tu nunca fizeste isso. Era preciso eu apanhar a água.
- Isso é verdade. Mas as tuas varizes têm de ser poupadas, minha querida.

A barba foi feita por três vezes, para evidenciar um rosto macio e jovem. O perfume, só o iria colocar na hora do “ataque”. A camisa e as calças que escolheu para vestir, foram as mesmas que levou na festa de anos de Otília.
Tudo estava pensado. O dia iria decorrer com o máximo de discrição possível para que não se levantassem quaisquer suspeitas.

Micaela, andava também excitada por um nervosismo que se sentia tomar conta dela, à medida que a hora da “consulta” se avizinhava.
De manhã, como habitualmente, foi ver se tinha correio e encontrou o que Olegário lá havia deixado de véspera, à noite. Leu a carta e levou para dentro as prendas que não abriu, esperando pela hora da “visita” para abrir. Colocou-as num sítio alto, para a filha não as poder ver e as abrir pela curiosidade de criança. Micaela vai resistir à tentação de as abrir, contudo dirá para si: deve ser uma coisa interessante. O Olegário não me ia oferecer uma coisa comprada nas lojas chinesas.
Sendo certo que Micaela não sabia o que era fazer amor há cinco anos, um misto de desejo e pesar de consciência avassalou-a. Fazer sexo com o cunhado mexia com a memória do falecido Januário, um homem que ela adorou pelas múltiplas virtudes que possuía. Por outro lado Olegário tinha tantas semelhanças físicas com o irmão, que o mais desprevenido o poderia confundir e que funcionava positivamente no pensamento de Micaela.
Esta dizia, que mais do que recorda-lo em missas, fazer um orgasmo com ele no pensamento, valeria por quantas missas passadas e futuras se venham a realizar. Mas, há sempre um mas… Fazer sexo com o cunhado? Não seria melhor apostar tudo em Alfredo? Dúvida que ela iria mascar todo o dia, e cada vez mais, à medida que a hora do encontro se aproxima.
Tentou disfarçar a si mesma o nervosismo que a invadia, e decidiu aliviar-se desse peso, saindo à rua para se distrair.
Foi um dia pleno de actividade. Deixou a filha com a prima Josy e partiu, não para fazer compras, essas surgiram compulsivamente em resultado da tensão que a carregava, mas para se libertar.
Trajava roupa simples, que constava de saia de ganga justa ao corpo e uma blusa lilás, com um decote discreto e bem justinha a evidenciar-lhe a forma perfeita dos seios. A silhueta física ficou bem vincada. Ela precisava de se sentir bem e sabia que o seu bonito corpo de mulher de trinta e cinco anos era alvo dos olhares alheios, de novos e velhos.
No roteiro do passeio procurou andar pelas ruas centrais de comércio e centros comerciais. Parou na Pastelaria Ding Dong para beber uma água fresca e repousar os braços dos sacos de compras. Aproveitou para ler as revistas Caras e Contigo, de conteúdos mundanos e que ela leu atentamente, relatos de casamentos, separações, divórcios, novos amores, enfim, tudo o que diz respeito às figuras que as televisões nos trazem portas adentro.
Não sendo supersticiosa, pelo sim pelo não leu o horóscopo, o qual dizia para essa semana, o seguinte: Energia é o que não lhe vai faltar esta semana. Como luta para dar início a novas actividades, quem sabe se não será este o momento ideal. Doseie a ansiedade e obterá o que espera. Tudo indica que esta semana você vai despertar para uma nova vida a dois. Agite o romance com muito carinho. A sorte está a bater-lhe à porta. Crie clima propício ao amor, principalmente no fim-de-semana. Procure curtir com emoção e magia.
A sua postura de perna cruzada na cadeira, com exposição da coxa direita, fez despertar a atenção do empregado da pastelaria, Sr. José Manuel, que não conhecia aquela cliente e que por trás do balcão a mirava com olhos rutilantes de brilho intenso, mas estáticos, a beleza da coxa, que parecia torneada à mão por Leonardo da Vinci.
Findo este momento de repouso, levantou-se, pagou a despesa e passou pela casa de banho, para diante do espelho se ver e compor o visual que a vai levar outra vez à rua na continuação da caminhada “terapêutica”.
As compras e a observação das montras deram-lhe o alívio que a casa não lhe teria dado, senão tivesse saído. Ainda assim, e antes de fazer o regresso a casa, fez questão de ir até ao Golden Center, e na praça da alimentação, comeu uma fatia de pizza e bebeu um sumo natural de laranja. Só depois fez o regresso a casa, já com as mãos carregadas de pequenos sacos de compras que aqui e ali ia fazendo, tendo no roteiro de regresso passado pelas ruas centrais de Tucano. Passou junto à Farmácia Brito, e cumprimentou o Sr. Martins que lhe disse que não a via há muito, mas que ontem tinha estado com o cunhado Sr. Olegário aqui na farmácia, onde ele comprou um perfume para a mulher.
Depois desta breve saudação e conversa, Micaela prosseguiu vagarosamente a caminhada enquanto o Sr. Martins se manteve junto ao tranqueiro da porta até que desaparecesse na curva.
Ao passar à Ourivesaria Oliveira parou demoradamente a olhar a montra, que estava muito bem organizada e com peças de ouro expostas em pequenos bustos negros, que realçavam o dourado das peças. Aí, os seus olhos caíam-lhe de “inveja” por não poder ter alguns daqueles conjuntos. O seu rendimento não lhe permitia desfrutar desses prazeres, que valorizam alguns egos femininos.
A dada altura o Sr. Oliveira notou a presença dela demoradamente a olhar a montra e veio até junto da porta e interpelou-a.
Olá menina Micaela. O Sr. Oliveira tratava-a por menina. Já a conhecia desde criança, já ele respeitável chefe de família. A montra não é só para olhar. Há que comprar. Olhe que o seu cunhado Olegário, ainda ontem comprou aqui uma peça distinta, como aqui não há nenhuma, para oferecer à mulher dele. Teve muito bom gosto. Dizia-me ele, que a mulher tudo lhe merecia e que não era demais. Se a menina Micaela gostar de alguma coisa exposta, faça o favor. Olhe que é a conversar que a gente se entende.
Micaela agradeceu a simpatia, esboçou um sorriso cândido mas bonito e despediu-se.
Até casa não mais parou, a não ser quando lhe pareceu ouvir a buzina da carrinha do peixe, que procurou identificar na sua localização. Realmente, minutos depois a carrinha surgiu e Micaela ainda que com as mãos cheias de sacos, mandou parar o Alfredo, e comprou-lhe sardinhas para assar. Alfredo como reparasse que já tinha muitos sacos, disse-lhe que se ela quisesse, ao passar à casa da cunhada Gertrudes, as deixaria. Micaela pagou e aceitou a sugestão de Alfredo. Este homem que lhe ocupa muito do seu tempo de reflexão, continua a mostrar-se indiferente às simpatias recebidas de Micaela. Ela só de o ver fica feliz.
Ao chegar à casa da cunhada, chamou por Otília que já trazia as sardinhas e agradeceu por a terem cuidado. Despediu-se sem que se tivesse feito conversa.
Olegário estava para a rua. Algo nervoso pela sua primeira infidelidade, foi até ao Abstratus Bar e conversou com o amigo Calixto até à hora do jantar e avisou que à noite não vinha até lá. Dizia-lhe que sentia que tinha o sono por refazer e que se iria deitar mais cedo. Calixto aceitou e compreendeu. Afinal Olegário ainda não está habituado a fazer noitadas de bar até às tantas. Falou-lhe das prendas que comprou para oferecer à “sua”, pelo muito mérito dela. Calixto ouviu e não comentou. Falaram de coisas laterais aos mesmos. O futebol e a política ocupou-os mais demoradamente.
Olegário não se sentia entusiasmado para conversas longas. O “compromisso” retirava-lhe iniciativa e paciência para falar ou escutar, já que ele lhe tridimensionava a mente em fantasias que queria realizar no concreto. Ainda assim, pensava que se as coisas lhe correrem mal, o que seria dele, que toda a vida apregoou uma vitalidade e energia de vinte anos.
Olegário fez o regresso a casa, sempre solícito a cumprimentos que o ajudavam a libertar-se da tensão que o apoquentava.
Jantou, viu televisão e depois disse à mulher que ia conversar até ao Abstratus com os amigos habituais. Como era sexta-feira, poderia vir mais tarde porque amanhã não é dia de trabalho, dizia. Se calhar antes das 02.00 horas não chegaria. Que estivesse descansada…
Saiu então de casa e foi vê-lo encaminhar-se até à esplanada do bar Juventude. Hoje não era dia de Calixto. Já se tinha despedido dele. Aí se deteve um bom bocado de tempo. Bebeu águas com gás. Nada de álcool. Mais vale prevenir… Olhava quem passava e muitas vezes em pensamento voava até Micaela, que lhe era sugerido por mulheres que fisicamente se lhe assemelhavam e que passavam na rua junto à esplanada. Por muitos momentos abstraía-se e dava consigo em altos pensamentos, na produção de cenas em série, de situações pré-programadas e que iria pôr em prática.
Assim, surgiram os seguintes pensamentos, que lhe serviriam de “roteiro”, para o bom sucesso da “empresa”.
Quando estiver junto dela a primeira vez, vou beija-la à maneira. Com a língua e tudo. No meu tempo de moço, não havia essa moda. A minha mulher nunca se quis habituar, diz que mete nojo. Verdade se diga… nela até mete.
Ah, também a quero despir toda, pô-la nuinha. Gertrudes nunca a vi nua. Mas agora, quem não quer, sou eu. Só pele casca de laranja...
Vou aperta-la contra mim. O peitinho dela deve ser firme, lindo, nada como as mamas da Gertrudes, que quase chegam ao umbigo…
Micaela deve ter carnes duras, firmes, nada como a “minha” que parece gelatina…
Aquele traseiro e anca dela devem ser um sonho, nada como da “velha” que tenho lá em casa…
E as pernas sem varizes, devem dar um T., nada como as da minha mulher que em vez de dar, tira…
Que noite louca cá o Olegário vai passar…Pena não poder ser toda a noite, mas até às 02.00 horas, já não vai ser mau. Ainda vai dar para esfolar uns cabritos. Vou fazer em quatro horas, o que era preciso fazer em oito. Sinto-me bem, como nunca. Vai ser um viradinho.
Era assim, que divagavam os pensamentos daquele homem sedento de sexo de mulher jovem e que o fazia sentir-se enganado quanto à sua realidade e potencialidades. Olegário não se quer admitir envelhecer e via na cunhada a prova provada de que ainda se pode sonhar, apesar da idade caminhar inexoravelmente para o fim. Calixto que é da sua idade, já não pensa assim. A realidade da vida para ele foi mais cruel e o grande símbolo de vigor já se tinha ido. Outro tanto não pensava Olegário, que não aceitava a verdade e a caminhada do calendário, como determinante no destino final. Daí essa irreverência, que muito pouco tem a ver com infidelidade.
Findos estes pensamentos que o levitaram, mandou vir mais uma garrafa de água com gás, bem fresca, que lhe melhorava o espírito.
Não mais teve pensamentos como os que vimos, até à hora do encontro. Os que surgiram, eram de estratégia no terreno, para o bom êxito da “empreitada”. Pensou maduramente nela. Sabia que nada podia falhar. A sua integridade moral e cívica estava presa por ténue linha.
Maria do Tanque, gatos, escadote e muro. Era por aqui que agora passavam os seus pensamentos.
      Maria do Tanque com uma vida tão estranha, que de noite nem à cama ia, causava-lhe preocupação. Nunca se sabe onde está e o que está a fazer. Os gatos, esses perscrutadores da noite com os seus “miaus” insondáveis, também geravam enorme preocupação. O escadote, também era motivo para alguma preocupação. Uma queda abaixo dele pode ser a morte do “artista”. A transposição do muro, feita com cuidado, não deve oferecer problemas.
Era por aqui que passavam os seus últimos e bem burilados pensamentos. Ainda antes de se fazer à “estrada”, bebeu dois iogurtes líquidos, um Ginseng e outro Ginkgo Biloba, que segundo ele lhe forneceriam nutrientes e compostos ao organismo. Nisto, andava bem elucidado. Tinha cuidados acrescidos com a saúde. Ele sabia que o Ginseng é um potenciador de ajuda ao corpo na adaptação ao cansaço, stress emocional e mental e ainda na provocação de baixa de açúcar e colesterol no sangue e que O Ginkgo Biloba, é bem referenciado como activador da oxigenação, nutrição e metabolismo energético celular e diminuidor de acidentes micro circulatórios por activar a irrigação dos tecidos.
Ele tinha muita fé nesta sinergia. Achava mesmo que serão os grandes responsáveis pela sua boa saúde.
A esta hora, Micaela já “arde” expectante num misto de desejo e ansiedade. Ela sabe que vai ter de intuir tranquilidade, porque se assim não for, Olegário pode nem “conseguir”…
Os esquemas mentais de Olegário estavam montados, só faltava iniciar a etapa até casa de Micaela.
Esta epopeia iniciar-se-á na esplanada do Bar Juventude e seguirá pelas principais ruas de Tucano, em ambiente altivo e confiante no sucesso. À medida que se aproxima, faz um desvio por ruas de menor luminosidade, para evitar ser reconhecido e logo adiante trezentos a quatrocentos metros virará à esquerda e ei-lo próximo da casa de Micaela.
Agora junto do “pombal”, e com a pontualidade combinada o cuidado deverá ser acrescido.
Olegário olhou para todo o lado e não viu ninguém. Os gatos também não os viu nem ouviu. Avançou em direcção ao muro das traseiras, tirou uma pedra para colocar o pé em segurança, impulsionou o corpo para a frente e com as mãos assentes na parte superior do muro e já em completa segurança, salta para dentro. Apanhou um pequeno susto, porque ouviu um barulho, que resultou de ter caído em cima de uma garrafa de Coca-cola. Pé ante pé, passou sob as árvores do jardim e por baixo da janela do quarto de Micaela, procurou o escadote que lhe havia recomendado colocar à vista. Como estivesse por perto, Micaela não se deu ao cuidado de o pôr por baixo. Olegário procurou no escuro e acaba por o encontrar com um pontapé dado inadvertidamente. Novo e pequeno susto lhe provocou o barulho originado pelo pontapé.
Diria para si mesmo: com estes sustos posso bem, o pior é os gatos e a Maria do Tanque.
A etapa mais difícil estava para vir. O acesso por escadote e entrada pela janela. Mas tinha de ser. Não se pode voltar para trás, dizia.
O quarto de Micaela estava iluminado com uma luminária muito fraca, que só iluminava a zona da cama. Não chegava à janela a sua difusão.
Nervosismo, medo e coragem era o que assaltava Olegário naquele momento.
Iniciou a subida do escadote, com muito cuidado e já com Micaela à vista, ouviu um estridente “miau” da Moranga que o catapultou para o interior do quarto, tendo até caído de bruços. Pediu desculpa a Micaela pelo “tropeção”.
Já dentro, beijaram-se com um beijo de saudação, e antes de se iniciarem movimentações de afecto, sentaram-se na beira da cama e falaram do que fizeram hoje.
Micaela contou que saiu para se distrair e aliviar-se da tensão, que fez muitas pequenas compras, que esteve no bar a lanchar e a ler revistas e o horóscopo. Ele por sua vez também lhe falou em pormenor do que havia feito hoje. Que tinha estado toda a tarde na esplanada do Bar Juventude a pensar neste dia e neste momento.
Olegário lembrou-se que ainda não tinha posto perfume, meteu a mão ao bolso e retirou-o, perfumando-se em dose adequada.
Enquanto a conversa se desenrolava, as mãos de ambos já se envolviam com algum entusiasmo.
Micaela pediu desculpa, levantou-se e foi buscar as prendas que ele lhe ofereceu, sem que saiba do que consta.
Diálogo entre ambos:
- Meu querido, ainda não sei o que me ofereceste. Quis guardar esse momento da abertura, para agora.
- Vê se adivinhas.
Dizia-o com um brilho nos olhos, que faria supor serem prendas interessantes.
- Não faço a mínima ideia.
- Então abre e vais ver que vais gostar.
Micaela abriu com suspense as pequenas embalagens. A primeira a abrir foi o perfume.
- Oh meu querido. Como tens bom gosto. Nunca pensei vir a ter algum dia um perfume tão bom e logo da marca DKNY. Devia ter ficado cara a brincadeira!
Micaela deu-lhe um beijo na testa de agradecimento
- Abre agora a outra prenda.
- Tá meu querido.
Micaela abriu com redobrado suspense, olhando-o fixamente nos olhos, querendo adivinhar que esta prenda ainda seria melhor. O brilho dos olhos de Olegário, confirmavam-no. Assim foi. Micaela retira da pequena embalagem um colar entrançado de inigualável valor. Micaela ficou sem palavras. Estas foram substituídas por beijos e abraços. Olegário ficou impávido a saborear todos esses carinhos.
- Querido, levaste longe demais o teu gosto, nas prendas que me ofereceste. Não sabes como me sinto a mulher mais feliz do mundo. Este foi um bom momento para mim.
Olegário sentiu em Micaela uma felicidade extrema e a ocasião proporcionava-se a investir…Foi então que ele se (ainda sentados na beira da cama) virou de frente para ela e encaixou as pernas dela entre as suas e com a mão acariciava-lhe os joelhos. Lentamente ganhava terreno e já com as mãos a meio das coxas, ouviu outro estridente “miau”, que o fez recuar para a posição inicial.
Micaela avisou-o que estivesse calmo, que os gatos também devem andar a namorar e de felicidade davam “miaus” agudos de contentamento. Olegário é que não pensava assim. Achava que Maria do Tanque pudesse estar por perto e quem sabe se ela não o terá visto subir e entrar pela janela.
Olegário, vai ter este fantasma na sua cabeça por algum tempo mais. Micaela sabedora dos comportamentos habituais dos felinos, seus vizinhos, manteve-se sempre tranquila e tranquilizou Olegário com palavras e afagos que ele intuía de felicidade.
Olegário, agora aparentemente mais calmo, voltou a afaga-la. Dava-lhe abraços, beijos e com as mãos acariciava-lhe os seios. Ela desapertava-lhe os botões da camisa um a um, em compassos de tempo metodicamente calculados, a ponto de lhe fazer provocar excitação, que tarda em aparecer. Micaela percebeu que a ansiedade estava a tomar conta dele, e que muito “trabalho” teria pela frente.
Entretanto, ele respondia-lhe com o desapertar dos botões da blusa em movimentos bruscos, que evidenciavam nervosismo, e descobriu-lhe os seios nus por baixo. Sensação única. Beijou-os avidamente, enquanto lhe despia a blusa. A cabeça recordava-o das fantasias que antes congeminara na esplanada do Bar Juventude. Estava tudo a sair como pensava, com ligeiros percalços que em nada iriam influenciar negativamente.
Já nus da cinta para cima, ela com seios exuberantes e firmes, de mamilos largos e ele com peito pelado e ossudo, sem carnes a compô-lo, contrastavam na beleza dos corpos. Micaela naquele momento sentiu uma queda de desejo que irá procurar combate-lo.
Os próximos movimentos vão ser os mais difíceis para Olegário. Não irá manifestar vontade de tirar as calças. Não sente a libido a actuar. Os fantasmas ressuscitaram na sua cabeça. Micaela percebeu que a ansiedade, nervosismo e outras imperceptíveis causas estão a inibi-lo. Para tentar remover as causas, Micaela pega-lhe na mão, levanta-se da cama e com as duas mãos sobrepostas desaperta o fecho da saia que lhe cai no chão. Apenas uma tanguinha a cobre. Olegário esboçou sorriso e percebeu que agora, estaria mais perto de a “comer”. Num aceno de coragem, desce as calças como que a desafia-la. Micaela que já antes havia tido uma queda de desejo, agora mais se acentuou.
Olegário, apesar de ainda ter boa figura, atendendo a que se trata de um sexagenário, o corpo estava com evidentes sinais dos tempos. As pernas sem pêlos, esbranquiçadas, com carnes ressequidas, os tendões retesados e as rótulas a furarem-lhe os joelhos, não eram cartaz atractivo para uma mulher jovem, bonita e sobretudo de corpo alucinante. Perante este quadro, Micaela também perdeu entusiasmo, contudo as prendas falavam mais alto e diziam-lhe que teria de fazer mais qualquer coisa e buscar disfarce para o que lhe ia na cabeça.
Agora diante um do outro, apenas com as cuecas vestidas, Olegário continuava a não dar sinal de virilidade. Micaela procurou “pica-lo”, beijando-o nos lábios. Olegário queria mais, queria beijos húmidos, mas Micaela retirou o contacto da boca, talvez por sentir nojo.
Lá fora os felinos, já em grupo, davam correrias, subiam às árvores, miavam com sonoridade, os machos davam miaus diferentes e potentes, como que a demarcar território. Estes miaus dos gatos, traziam-lhe à lembrança Maria do Tanque. Achava que ela devia estar por perto a vigiá-los nessas “cabrioladas”. Era impossível não estar junto dos seus “meninos”, pensava ele.
A ansiedade tomava conta de Olegário e pensava no arrependimento que já começava a sentir pela vergonha de tanta “promessa”…
Micaela sentia que a primeira experiência extramuros o havia ansiado e que os “medos” que foram interiorizados, impediam o racional de funcionar. Ela sabe que as coisas funcionam assim. Vai tentar tudo para que ele não se sinta frustrado e amesquinhado. Decide tirar-lhe as cuecas, por sinal uns boxers bonitos que havia comprado para este dia. Olegário aceitou esse rasgo de Micaela e esforçou a erecção, em contacto de pé. Micaela aproveitou esse impulso e levou-lhe a mão direita às suas provocadoras cuecas, também elas adquiridas para este momento, e em conjunto tiraram-nas. Já nus, Micaela encostou-se a ele e apertou-o contra si. Olegário por momentos afastou os fantasmas e a erecção começa timidamente a dar sinais. Ela sente que vai conseguir e que Olegário vai ter o seu dia “D”. Este por sua vez, ainda não se sentia seguro quanto à firmeza da erecção, para conseguir a penetração. Os prelúdios vão continuar e já com erecção máxima, Micaela deita-se e puxa bruscamente Olegário para cima dela, mas este bate com o joelho na beira da cama e sentiu uma dor de ver estrelas. Azar. Todo o “trabalho” foi por água abaixo.
Micaela pediu desculpa pela impetuosidade do puxão. Olegário aceitou e compreendeu.
 Falaram mais um pouco, com o objectivo de se tranquilizarem e ela aproveitou para lhe beijar o joelho no sítio do “dói”. Olegário já se mostrava outra vez optimista.
Não fosse aquele azar, e a esta hora já tinham conseguido o propósito. Ambos nus, reiniciaram os afagos. Já mais soltos, os contactos passaram a ter no roteiro as “partes”, que antes quase nada tinham sido exploradas. Olegário lançou-se em gestos mais ousados. Finalmente tudo parece bem encaminhado para o sucesso da “empreitada”. A firmeza regressa na máxima força. Micaela experimenta posição por cima. Olegário agradece, dizia que nunca o tinha feito com a mulher, que segundo ele, era uma antiquada. A penetração está prestes a acontecer, e eis que um morcego, que tinha vindo até à beira da janela para apanhar insectos que procuravam a luz que se difundia, bateu na janela com força. Olegário ficou muito assustado. Não tinha visto o que tivesse sido. A erecção caiu em queda livre. Apercebeu-se que não foi nenhum dos gatos. Só poderia ter sido Maria do Tanque. Desta vez não se ouviram “miaus”. A esta hora ninguém anda a pé, só ela poderia ter sido. E aliás o pensamento de que ela o poderia ter visto entrar pela janela também lhe estava presente, embora nunca o tivesse dado conta a Micaela.
Olegário olha para o relógio, vê que as horas avançam e que possivelmente não irá chegar a casa à hora que anunciou a Gertrudes. Micaela dizia-lhe que a noite era deles, que não olhasse para o relógio.
Ela sabia interpretar os estados de espírito e o que eles representavam negativamente no desempenho sexual. Procurou uma vez mais passar-lhe a sua serenidade. Sabe que, se se mostrar calma, ajudá-lo-á à realização.
Olegário sentiu-se descoroçoado. Começou a dizer que o melhor seria marcarem outro dia para encontro. Ela não quis contrariá-lo. Sabia que hoje era de todo impossível. Que podia estar toda a noite e nada aconteceria.
Aceitou o convite e Olegário disse-lhe que ainda não sabia qual o dia que lhe daria mais jeito, contudo deixar-lhe-ia na caixa do correio com dois dias de antecedência um papel a marcarem encontro. Micaela disse que sim com a cabeça. Vestiram-se. Beijaram-se. Não se trocaram palavras.
Olegário iniciou o regresso, descendo pela janela, através do escadote. Quase ao chegar ao chão, os gatos que estavam debaixo da árvore a acasalar, assustaram-se e assustaram Olegário, que se atirou abaixo e deu a correr em direcção ao muro por onde havia subido. Numa pedra mais viva, rasgou as calças à altura do joelho esquerdo.
Mais uma chatice para resolver, dizia. Tudo me correu mal. Não percebo o que aconteceu. Agora, com esta das calças é que não contava. E eu que gostava tanto delas. Vou ter de mentir à minha mulher, ou então mete-las no contentor do lixo, dentro de uma saca plástica.
Já sei, se Gertrudes estiver acordada, minto-lhe que as rasguei na farpa duma cadeira do bar, se estiver a dormir, como espero, meto-as numa saca e lixo. Esta última hipótese era a desejada, por isso entrou em casa pé ante pé e só depois do pijama vestido e as calças no contentor, é que avisou a mulher da chegada.
Gertrudes mal acordou, estava ainda no primeiro sono, disse-lhe para apagar a luz e dormir.
Povo Lusitano
Enviado por Povo Lusitano em 25/09/2007
Código do texto: T668078

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Sobre o autor
Povo Lusitano
Portugal, 62 anos
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Povo Lusitano