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"Morena, Linda, Sensual, de Olhos Verdes" = Romance = Capítulo 50

   Felizmente para Eliane, a batida policial fora exagerada, realizada de forma espalhafatosa e amadora, e a porta de aço fora aberta e o cômodo inteiramente devassado. O armário afundara de imediato no chão e nem uma partícula de um grama sequer de cocaína foi encontrada. A gerente da loja, inteiramente inocente e desconhecedora do que se passava discretamente nos fundos da loja que dirigia, ficou indignada com a polícia, mas sua única atitude foi telefonar para um número para o qual jamais ligara antes e queixar-se a uma desconhecida “dona Pilar”, a procuradora do legítimo e também desconhecido estrangeiro que figurava como dono do magazine. Eliane, a “dona Pilar”, tranqüilizou a gerente e garantiu a ela que tal fato desagradável não voltaria a acontecer. Logo depois deu alguns telefonemas necessários, às pessoas certas. Poucos dias depois os dois distribuidores beligerantes foram mortos no espaço de poucas horas entre um assassinato e outro e tudo voltou à velha rotina.

   Exatamente quando a loja completou os três anos de existência, de uma existência pacífica, rotineira, até mesmo um tanto quanto monótona, Eliane vendeu-a a uma enorme família de coreanos utilizando a “procuração” que lhe passara o “dono” estrangeiro do “Magazine Jeremias”. Antes, porém, de entregar o estabelecimento, teve o cuidado de mandar soldar o grande armário de alo ao chão de maneira a torná-lo imóvel. Não queria correr o risco, logicamente, de que viessem a deduzir que tipo de outro comércio acontecia ali. Desativava assim parte importante do lucrativo cômodo que lhe permitiria cuidar de Romero e viver à vontade pelo resto de sua vida.

  Uma montanha de dólares estava à sua espera espalhado por alguns paraísos fiscais. Sendo um deles o preferido pela maioria dos empresários e políticos pelo excelente conceito de que gozava havia décadas.

   Eliane tinha vontade de chorar quando pensava no quanto poderia ter ganho se tivesse começado aquele comércio muitos anos antes. Não imaginara antes o quanto o tráfico rendia de dinheiro. Lucros tão grandes, rápidos e absurdos que por eles muitos não hesitam em arriscar suas vidas, seus nomes, suas famílias e a liberdade.

   Pouco importava a ela as desgraças causadas direta ou indiretamente pelo vício, pela dependência causada pelas drogas. Pelo maldito pó branco que tantas tragédias tem causado. Afinal de contas, dizia-se ela, ela não chamava ninguém para comprar nada, não incentivava ninguém ao vício, não consumia nem difundia o uso. Simplesmente limitava-se a fornecer aos médios e grandes distribuidores que, por sua vez, entregavam aos de menor porte e poder aquisitivo. Na opinião de Eliane o consumidor final ficava a uma distância muito grande dela. Tão grande que ela não tinha nada a ver com o que acontecia a ele ou por causa dele.

  A dinheirama imensa que ela ajudava a movimentar, com muita eficiência, muito profissionalismo e dedicação, alavancava carreiras, melhorava o nível social de muita gente, enchia muitas barrigas pobres, dava emprego a muita gente que não sabia ler nem escrever, enfim, dava empregos e lucros a muitos pé-rapados que mal conseguiriam empregos de cortadores de cana. Sem contar o que se vendia a mais de carros, de armas, de aviões, de mansões e tudo mais que o tráfico exige ou propicia. Eliane sentia-se a própria empresária de sucesso mal compreendida. Ela era apenas uma empresária neste setor tão perseguido, tão combatido, mas que, queiram ou não, é parte integrante da economia do país.

  O pavor de Eliane era apenas o das conseqüências de seus atos passados ou presentes. Tinha um pavor obsessivo de ser presa, julgada, condenada e jogada em uma cela, e por isso vivia à base de tranqüilizantes. Acalmava-a pensar no montante imenso de dólares que acumulara até aquela altura de sua ainda jovem vida.
   O que Eliane possuía legalmente no Brasil era muito, mas tudo declarado, legalizado, justificado e sobejamente comprovado. Mas era apenas uma fração de sua real fortuna escondida no exterior.

  Os coreanos que adquiriram o “Magazine Luiza” ficaram maravilhados com o movimento de vendas. Aceitaram o preço pedido por Eliane quase sem pechinchar, pagaram de acordo com o combinado, e logo após tomarem posse da loja chegaram à conclusão de que o discreto cômodo nos fundos era ideal para um certo tipo de comércio ilegal, extremamente perigoso, mas altamente lucrativo. Alguns meses depois foram todos presos em flagrante em meio a uma balbúrdia incrível. Junto com os coreanos foram presos também uns vinte viciados e traficantes que faziam uma barulhenta fila em frente à porta de aço do falso cofre, exigindo pressa no atendimento.

Eliane leu a notícia no jornal e comentou com Romero:

- O que eu mais admiro nestes orientais é o senso de organização. Transformaram um magazine famoso lá em Santos, o “Magazine Jeremias”, em ponto de vendas de drogas e atacaram direto no varejo. Foram presos ontem à noite. Você viu a reportagem?
- Não, minha querida. Por enquanto estou ainda na fase de reatar namoro com a vida. Só escuto na tevê notícias de coisas boas. Esses traficantes eu quero mais é que se explodam, pra não dizer outra coisa.
- É. Seria feio dizer na minha frente que se fodam, não é mesmo?
- É isso. Sou muito pudico.
- Adoro esse seu pudor excessivo, meu querido, amor de minha vida. Já te contei que agora posso fazer tudo, tudo, tudo que você pensar em fazer na vida?
- Só umas cinqüenta vezes, mas eu não me importo de ouvir mais cem vezes, tesãozinha. Quer dizer que ficou milionária mesmo?
- Rica, meu amor, rica, rica, rica de marré, marré, marré.
- E como foi isso? Me conta tudo direitinho. Eu sabia que você estava bem de vida com aquele loteamento, ou melhor, com aqueles dois loteamentos, mas rica desse jeito eu não sabia ainda, amor.
- Fui esperta demais, paixão. Com o dinheiro dos loteamentos eu comprei alguns apartamentos na planta lá em Santos. Depois eu vi que as obras estavam indo bem depressa e que a valorização seria enorme, tomei coragem e comprei mais alguns. Aí Deus resolveu me ajudar de verdade e recebi a herança de um amigo de meu pai, quase que um tio meu de verdade, o maravilhoso velhinho chamado Jeremias. Meu amor, você nem imagina o que ele me deixou de herança...Era coisa demais. Um montão de imóveis, uma quantidade incrível de ações de todas as boas companhias e, o mais gostoso de tudo, um cofre lotado de dólares.
- Mamma mia! Tudo isso só pra você, amor?
- Pra mim não, paixão. Para nós dois. Tudo que é meu já é seu, ou você não sabe disso?
- Não sei se vou aceitar tudo isso de mão beijada. Sei lá se depois você vai exigir que eu faça coisas imorais como, por exemplo, ficar pelado na sua frente...
- E ainda com o pintão duro. Claro que vou exigir. E a toda hora.
- Então eu aceito. Já te contei, minha querida, que a perna esquerda também está reagindo bem agora?
- De verdade? Mostre.
Romero ria, feliz da vida, abraçava-a com toda a força que ia recuperando, enchia-a de beijos e depois mostrava as panturrilhas endurecendo ao seu comando, as coxas contraindo-se quando ele queria e o quanto já conseguia dobrar os joelhos.
- Tá vendo, muié? Logo a gente já pode se casar.
- O que tem a ver uma coisa com a outra, querido? O que é que te impede de entrar na igreja usando um par de muletas ou uma cadeira de rodas?
Romero encarou-a fixamente, com a expressão séria como havia muito ela não via e disse com franqueza:
- Eli, a grande maioria das mulheres não sonha em se casar usando um vestido de noiva, não sonha com uma bela festa de casamento e uma lua-de-mel completa e feliz? Pois então. O meu sonho é casar com você, mas quero me casar entrando na igreja como todo e qualquer noivo: andando até o altar sem tropeçar, sem cair, sem ter que pedir ajuda. E esse desejo é o que tem me ajudado a agüentar o tranco. A suportar as dores e a chatice tremenda da fisioterapia constante. Agora eu tenho certeza de que voltarei a andar. Certeza absoluta. E será com a graça de Deus e com a sua ajuda imensa. Uma ajuda que Deus me permitirá retribuir um dia.
- Você retribuirá me fazendo feliz, amor. Eu já tenho tudo que quero nesta vida. Menos você.
- Como que não me tem? Eu então não sou todo seu?
- Mas não é de papel passado ainda.

= Continua.
Fernando Brandi
Enviado por Fernando Brandi em 25/09/2007
Reeditado em 25/09/2007
Código do texto: T668216

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Sobre o autor
Fernando Brandi
São Paulo - São Paulo - Brasil, 70 anos
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