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A BAIANA - Cap. XVII

                                        A BAIANA

                                          XVII


Escusado será dizer, que Olegário depois do regresso atribulado a casa e após se deitar, não foi tão cedo que adormeceu. Cogitou até que o sono tomasse conta dele. Analisou ao pormenor, ponto por ponto e tentou encontrar explicação plausível para o fracasso, buscando argumentos externos para o sucedido.
Os gatos, Maria do Tanque…
Para os gatos, diz que vai encontrar modo de os “amansar”. Maria do Tanque, que segundo ele, tem olho de periscópio, não a pode “eliminar” e nem a pode mandar dormir à noite. Diz que lhe falta homem que a carregue, e que por isso não lhe vem o sono.
Olegário acabou por adormecer tardiamente, quase à hora de se pôr a pé, mergulhado em silogismos infindáveis. Como habitualmente, Gertrudes acorda às 07.30 horas da manhã e quase de imediato, Olegário também se costumava levantar. Gertrudes apercebeu-se que o marido dormia em sono profundo e fez questão de não o acordar. Eram 11.00 horas e ainda dormia, falou para a filha e disse: acho tão estranho o sono “pesado” do teu pai. Nem sei se o deva acordar ou se o deixe dormir mais. Deixe-o dormir à vontade, assim até acordará mais bem disposto, respondeu Josy.
Olegário acordou cerca das 12.45 horas, já se almoçava em casa. Ficou na cama mais uns minutos, atónito com o que lhe havia sucedido nessa noite, que poderia ter sido inesquecível.
 Entretanto levantou-se, cuidou da higiene pessoal, a mínima, não sentia força anímica para mais e foi almoçar.
Foi notada pela filha e D. Gertrudes que alguma coisa não ia bem nele.
- Oh homem que tens, que estás tão estranho?
- Nada de especial. Mas é verdade que me custou a adormecer. Não sei que será.
- O melhor será ires ao médico. Olha que o Dr. Jesualdo é muito competente.
- Sei, mas acho que não será nada de médico. Nem se deva ir ao bruxo a Milagres. Ele tem muita fama. Cura o que o Dr. Jesualdo não consegue.
- Faz o que for melhor para ti.
- Vou ver primeiro se passa e depois decido.

A verdade é que o almoço não decorreu como habitualmente, apesar da qualidade da refeição. Sem apetite, comeu apenas sopa, saladas e fruta. Nem carne que é coisa de que tanto gosta. Nem tão-pouco bebeu vinho.
Acabado de almoçar avisou a mulher de que ia até ao Abstratus Bar distrair-se com o Calixto.
Ela recomendou-lhe que se se encontrasse mal, que viesse, para ir ao médico.
Olegário, ainda antes de ir ao encontro de Calixto, passou pelo jardim público e sentou-se no mesmo banco, onde semanas antes se havia sentado, e onde foram encenadas mentalmente, atitudes de prazer com Micaela.
Desta vez, tudo estava negro na mente deste sexagenário. Consumada que foi a decepção, tentou analisar ao pormenor o que terá inibido o seu objectivo. Não chegou a conclusão nenhuma. Aquela sexta-feira, dia treze, ocorreu-lhe como podendo ser uma das explicações para o fracasso. É tido como dia de azar.
Esta foi a primeira vez que Olegário não deu conta do recado. Não estava preparado e sofreu um rude golpe na sua auto-estima. A cabeça fervilhava-lhe e a próstata ocorria-lhe como sendo também uma hipótese de peso para o fracasso. Esta era a hipótese que ele menos gostava de evocar, porque sabe que lhe trará danos quase irreversíveis. Veja-se Calixto, já impotente por culpa da próstata. Dizia que se for a próstata, ainda vou tentar com o Dr. José do Egipto, de Salvador, se posso recuperar nem que tenha de “pôr” uma nova. Afinal já se mete corações, rins, fígados… Mas, ainda antes de dar este passo, ainda me vou testar na minha Gertrudes. Só depois concluirei das minhas necessidades terapêuticas. Se a “coisa” der como até aqui, não há próstata. Não pode ser. Então terei de buscar outras explicações. Além dos gatos pretos e de Maria do Tanque e do seu mau-olhado que me constrange e de que maneira, aquela sexta-feira treze, também pode ser a grande culpada. Ainda assim e para retirar dúvidas, devo ir ao bruxo a Milagres, para que me diga se os gatos por serem pretos, poderão enviar-me mau-olhado. Tenho de admitir que tenham aprendido com a dona, ou que esta os tenha ensinado a fazer maus-olhados. Este assunto é muito sério. O mau-olhado empece. Há relatos de coisas mirabolantes que o mau-olhado fez a pessoas de bem, como eu. Disso tenho muito medo e respeito.
Esta conversa interior terminou por aqui. Fez-se à “estrada” e foi ao encontro de Calixto. Chegado ao bar, entrou, cumprimentou quem estava e perguntou pelo amigo. Ficou a aguardar até que chegasse. Com ele queria tirar uma dúvida. Chegado o esperado amigo, as saudações da praxe tiveram lugar, mandaram vir bebidas, cerveja para Calixto e água para Olegário. A conversa entre eles, não se encaminhava para temática que Olegário gostava de abordar e este teve de timidamente trazer para a conversa, o sexo.
Diálogo acontecido:
- Calixto, permita-me a indiscrição de uma pergunta que me ocorreu fazer-lhe, na sequência daquela conversa de homens, que há tempos tivemos aqui neste sítio.
- À vontade. Comigo não há tabu.
- Você já alguma vez lhe aconteceu, estar com uma grande ideia de fazer…
- Fazer o quê, homem?
- Fazer sexo, dar uma queca e não conseguir?
- Sim, muitas vezes, até pode acontecer em moço novo.
- Você também via gatos pretos?
- Você já da outra vez me falou em gatos pretos. Agora volta a falar. Que é que os gatos pretos ou brancos têm a ver com isso? Alguma vez um gato ou seis ou sete, pode impedir um homem de dar “uma”.
- E as sextas-feiras, dias treze?
- Oh homem, essas coisas não escolhem dia. Acontecem de segunda a domingo. Sabe Olegário, a última vez que isso me aconteceu, foi quando marquei encontro com uma vizinha. Eu nunca tinha sido infiel à minha mulher, e logo com ela, que era uma boazona. Não sabe como me custou a aceitar o fracasso. Até perdi o apetite. È a vida.
- Sabe Calixto. Vou ser franco consigo, mas não quero que passe daqui. Nem fale à sua mulher. Sabe como são mulheres. Ontem estava-me a preparar para dar “uma” com a “minha” e não consegui. Fiquei meio assustado. Pensei em si, na sua próstata. Quanto ao apetite, como muito bem. Até parece que aumentou.
- Olhe para o que lhe digo. Você prepare-se que ainda vai ter mais situações iguais. Tudo é normal na vida de qualquer homem.
- Obrigado Calixto, não sabe como me tranquilizou.

Quem não precisou de cogitar nessas coisas, foi Micaela. Ela, mulher inteligente, percebeu que Olegário não conseguiu por razões psíquicas. Que a ansiedade e os fantasmas do medo, que lhe pulverizavam o subconsciente, o impediram de consumar.
As cogitações de Micaela direccionavam-se para Alfredo. E agora, cada vez mais. É nisto que ela pensa. Impôs a si mesmo, regras de sedução, acreditando que mais dia, menos dia, lhe trarão o almejado homem. Sabe que vai ter de perseverar sem tibiezas, porque acredita no fascínio dos seus olhares e palavras. Não irá abdicar deste rumo, enquanto não vir Alfredo casado. Sabe que até aí, tudo é possível. Que há casamentos que se deixam de fazer até ao último dia.
Quem passa mal de saúde é a jovem Rosa Maria. Perda de apetite, emagrecimento e insónias permanentes. Perdeu dez kg em duas semanas. A mãe começa a ficar preocupada. Falou ao marido da situação da filha e de um súbito emagrecimento e perda de humor. Achava a princípio, que seria dela agora ser “mulher”, mas admitiu ser coisa mais grave. Disse que iria amanhã a Salvador para consulta no Dr. Jivago, mesmo sem consulta marcada. Dizia que nem que tivesse de esperar para o fim. Ele não costuma deixar ninguém por atender, dizia.
O namoro de Josy/Francisco, entrou numa fase de pouco entusiasmo. Ele é apagado demais para o gosto de Josy, salva-se pela figura, por ser bom moço e ainda, por vir a ser médico.
Josy, por vezes tem momentos de profunda reflexão, que se acentuam à medida que na caixa do correio, aparecem aqueles bonitos versos, que ela guarda com inesgotável ternura. A última noite, quando reflectia e porque o sono não havia maneira de vir, sentou-se na cama e leu-os a todos novamente, terminando a leitura de cada um, com um beijo sibilado. Questionava-se sobre quem será o autor e ao mesmo tempo dizia que até é bom nem saber. Causar-lhe-ia perturbação e isso não quer. Entristece-se e lamenta a falta de romantismo de Francisco. Josy adora receber flores e ainda mais poemas, porque estes não murcham nem se apagam no tempo. Não haverá nada a fazer, apenas respeita-lo na sua maneira de ser, dizia.
Em alta está Romeu. Pujante de entusiasmo, força, energia, belo. Trata-se bem e cuida-se melhor. É dos jovens mais sedutores que Tucano tem. Goza feliz o amor sem a mulher amada, através da transcrição de poemas, que ele também lê avidamente quase todas as noites, antes de adormecer e que enche de beijos. Aos poemas chama-lhe josys. Chega a adormecer com os “josys” debaixo do travesseiro, para de manhã, quando acordar, os voltar a ler e beijar. Curte o amor de modo sui generis, expectante em melhores dias e concretos dias. Não vai deixar-se abater, dizia. Enquanto há vida há esperança. Aquele orelhudo não vai ficar com a minha amada. Hei-de ser pertinaz na luta, dizia para si.
Na sequência deste diálogo interior, dirigiu-se à biblioteca pública, com o intuito de transcrever mais poemas. Chegado e quando se preparava para iniciar a transcrição, deu de frente com Francisco, que àquela hora estava a consultar bibliografia médica. Romeu não contava com a visita rival. A última vez que se encontraram frente-a-frente, tinha sido na barbearia do Cristóvão. Romeu está em boa fase e altivo, não se intimidou com a “concorrência” e chegou-se para lugar mais recatado. Fez leitura de poesia de diversos autores. Não transcreveu naquele momento nenhum poema, deixou isso para melhor hora. Não queria dar pistas, acerca do depositário dos poemas, na caixa de correio de Josy. Foi entretendo o tempo, até que o desgaste psicológico se tivesse apossado de Francisco, que se sentia constrangido com a presença de Romeu. Francisco acabou por sair, prometendo a si mesmo, voltar noutra hora. Romeu aproveitou a extemporânea saída, para transcrever mais uns “josys”.


                                   LUZ DO CÉU

                  Que vos disse, meus olhos tentadores!
                  Disse-vos que se há muito vos não sigo,
                  É porque nunca em vida achei abrigo
                  Senão dentro em mim mesmo às próprias dores.

                  Nem um só de meus tímidos olhares
                  Que não levasse um férvido gemido,
                  Mas que nunca podia ser ouvido
                  Da pomba que voava nesses ares…

                  Nessas alturas onde tudo é brilho,
                  Harmonia, pureza, formosura;
                  Nas regiões da plácida candura…
                  Tão distantes dos trâmites que trilho.

                  Dos trâmites onde ando taciturno,
                  Insensível, inerte, ouvindo a espaços
                  O eco surdo de meus próprios passos
                  Como o voar de um pássaro nocturno:

                  Deste cárcere frio, escuro, imundo,
                  Desta vida sem vida, esta cadeia
                  Onde uma vaga de luz me bruxuleia
                  Como o pálido olhar de um moribundo!

                  Mas tu, ó luz do Céu! Cheia de graça!
                  Tu, cuja cinta meço a toda a hora,
                  Tu para mim és o listão da aurora
                  Que me encobre a montanha da desgraça:

                  Em te avistando ao longe, como eu pinto
                  Já de outra cor oCéu! Mal te ouço o voo
                  Como eu digo contente: eu te abençoo,
                  Oh dia em que nasci! Eu amo! Eu sinto!



Romeu em cada poema lido e transcrito sente um imenso deleite. É como se trocasse carinho com a sua amada. Chega até a iludir-se, de que assim o amor tem mais encanto e uma convicção de que Josy não poderá ficar insensível à sua leitura. Este caminho trilhado vai para além das razões iniciais, tendo passado a estratégia de desgaste na afectividade de Josy por Francisco. Romeu irá apostar tudo para reconquistar o amor perdido. Sente que agora está em condições físicas e mentais para isso.

                                  DESCALÇA



                  Quem és, que ao ver-te o coração suspira
                  E em puro amor desfaz-se?
                  Raio crepuscular do sol que nasce,
                  De lâmpada que expira?

                  Como os teus pés são lindos! Como é doce
                  A curva do teu peito!
                  Oh! Se o meu coração fosse o teu leito,
                  E o teu amado eu fosse!

                  Que preciosas pérolas descobre
                  Teu meigo, húmido lábio!
                  E, virgem! Como Deus foi justo e sábio
                  Em te fazer tão pobre!

                  Não tens fofo veludo onde se atole
                  Tua angélica imagem;
                  Mas quando é belo o céu, bela a paisagem?
                  E quando é belo o sol?

                  Limpo de nuvens, nu, derrete a neve,
                  E a águia até desmaia!
                  Tu não tens mais do que uma pobre saia,
                  E essa, curtinha e leve:

                  Onde o corpo te alteia, a saia avulta;
                  Onde te abaixa, desce…
                  És como a rosa, a rosa nasce e cresce,
                  Não para estar oculta…

                  A ti pois que te falta? Os teus desejos
                  Quais são? De que precisas?
                  Ah! Não ser eu o mármore que pisas…
                  Calçava-te de beijos!





O procedimento habitual, levou Romeu até à papelaria para tirar fotocópias. Aí encontrava-se Rosa Maria, para comprar papel fantasia, que na padaria utilizam para fazerem bonitas embalagens de bolos de aniversário. Ela quando reparou na presença dele, ficou um pouco nervosa, contudo enfrentou com esforçada força anímica e muita simpatia, o frente-a-frente. Cumprimentaram-se com um beijo e Romeu até a tratou por Rosinha. Ele não esquecerá nunca que por aquelas mãos de jovem, muitas vezes passaram dúzias e dúzias de pães e litros e litros de leite com que foram saciados os seus apetites primários, bem como dos seus irmãos e pai. Romeu paga a sua gratidão com reconhecimento cívico. Agora não tem precisado, porque do Centro de Dia, a D. Guidinha faz questão de lhe encher a casa do bom e do melhor.
 Enquanto aguardavam pela vez de serem atendidos, tiveram o seguinte diálogo:
- Rosinha como vais de saúde?
- Estou bem, mas não tão bem como tu.
- É... Graças à ajuda do teu pai e de outros amigos, felizmente passo bem.
- Estás lindo... Um garotão...
- Obrigado. E tu? Que se passa contigo? Estás mais magra um bocado e pálida. Andas doente?
- É... Realmente estou um bocado mais magra. Perdi o apetite e olha agora…
- Eu, como tu sabes, também estive escanzelado.
- Lembro-me bem.
- Sabes, há coisas na vida que nos fazem perder o gosto de viver e por arrastamento perde-se o apetite, e vai daí, a gente afunda-se cada vez mais.
- Sei lá se também padeço da mesma enfermidade...
- Eu, sei donde me vinha a essa “doença”.
- Sabias? Conta.
- Rosinha, o meu mal era de amor não correspondido.
- Era… e já não é?
- Fui ao Dr. Jesualdo e falei-lhe do meu caso.
- Ai sim!!! E que te disse ele?
- Nem fazes ideia da forma como me resolveu o meu caso.
- E resolveu?
- Resolveu. Olha, ele deve ser muito esperto. Sabes que nem me receitou medicamentos?
- Realmente estás com aspecto... E sem medicamentos!!! Posso saber o que te receitou?
- Podes. És a única pessoa a quem vou contar. Não poderia deixar de o fazer. Tenho muita consideração por ti. Teus pais valeram-me nas horas mais difíceis da minha vida. Não esquecerei nunca.
- Conta então.
- Olha. Vais ficar espantada pela maneira como resolvi o meu problema.
- Já sei… O Dr. Jesualdo arranjou maneira de te encontrares com a tua amada.
- Não. Muito melhor...
- Muito melhor? Ainda há melhor?
- Há. Mandou-me ler poesia romântica.
- Ai sim!!! E resultou?
- É como vês. Olha bem para mim. Não achas que estou com bom aspecto?
- Ai isso, estás. Quem me dera estar como tu…
- Vai lá. Conta-lhe a verdade e ele vai-te arranjar maneira de ficares boa. Tu mereces.

Ficou-se por aqui este encontro agradável, que Rosa Maria irá ainda saborear por mais alguns dias.


Romeu, só depois de tirar as fotocópias, pensou na oportunidade para as deixar na caixa do correio. Irá estar atento a uma saída de Josy ou então terá de recorrer a uma saída nocturna.
Povo Lusitano
Enviado por Povo Lusitano em 26/09/2007
Código do texto: T668764

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Povo Lusitano
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