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A BAIANA - Cap. XXI


                                       A BAIANA

                                          XXI

O namoro Josy e Francisco decorre dentro da normalidade, ainda que se note algum esfriamento com o aproximar do início das aulas na Faculdade de Medicina.
Josy particularmente, está de pé atrás e angustia-se quando se lembra que dentro de três semanas se iniciam as aulas. Quer ter uma conversa séria de acerto do programa de visitas de Francisco, quando este se ausentar para Salvador.
Logo à tarde vão-se encontrar, quando forem à missa vespertina mandada rezar por D. Gertrudes, como acção de graças pela melhoria do estado de saúde do marido. Olegário não tem conhecimento. A mulher não lhe quis falar, porque sabia que ele não iria concordar. Aliás, pediu também ao padre que não revelasse publicamente a quem se dirigia a missa, para que não se tornasse pública. Ela preferiu tê-la em ambiente de privacidade. Por isso a missa acabou por ter a presença de pouca gente. Só os íntimos ou quem D. Gertrudes fez questão de convidar. Entre os íntimos contavam-se os pais de Francisco, Micaela e filha, o casal patrocinador e os seus cinco filhos e nos convidados apenas a Sr.ª Maria do Tanque, que se encarregou de ornamentar a igreja com flores no altar do Santíssimo e na imagem do Senhor dos Aflitos, que fica no altar lateral. Os outros santos ficaram a olhar. Melhores dias virão.
O padre Lira antes do início da missa dirigiu-se a Olegário e desejou-lhe votos pessoais de melhoria do seu estado de saúde e que esta missa lhe traga a bênção do Senhor e particularmente do santo protector dos aflitos.
Olegário ficou estupefacto com as palavras que o padre lhe dirigiu e percebeu que ali havia “coisa” da mulher. Naquele momento e em respeito pelas pessoas presentes, não se retirou. O seu pensamento vagueou. Perguntava, como é que o padre sabe, se eu tenho saúde ou não! Logo agora que estou a ficar bom, se bem que verdadeiramente nunca estivesse doente. Aquela “coisa” lá com a cunhada, pelos vistos pode acontecer a qualquer um. Se o Calixto o diz, é porque é verdade. Ele é um homem que viveu muitos anos em S. Paulo e há-de saber de muitos “azares” como o que eu tive, contados até por homens mais novos. O que a minha Gertrudes não sabe, é que está a pedir e a pagar aos santos para que eu tenha mais… Até estou para ver se vai resultar. É que se valer a pena, o Padre Lira vai ter aqui um bom cliente e depois até falo nisso ao meu amigo Calixto, que está mais precisado.
Finda a missa, dirigiram-se todos a casa de D. Gertrudes que ofereceu um lanchonete ligeiro de frios e que já estava preparado, à revelia de Olegário.
Este comportou-se lindamente até ao final do lanche. Recebeu de todos votos de melhoria de saúde. O pai de Francisco, pediu desculpa por não ter sabido atempadamente da sua doença e perguntou até, se esteve mesmo doente. Que pelo aspecto não parecia.
Micaela perguntou à cunhada se podia dar um beijo no marido, ao que esta respondeu: sim, desde que não lhe ficasse com nada, e riram-se.
Josy e Francisco conversaram com normalidade até que a namoradinha quis questiona-lo acerca do programa de visitas, que ele pretende pôr em prática quando for para Salvador.
Diálogo:
- Josy, neste momento não te sei responder.
- Nem tens alguma ideia?
- Para já não. Nem sei quais os horários.
- Nem podes telefonar para lá? Se soubesses, poderias programar com antecedência. Que achas?
- Vou telefonar para te fazer a vontade.
- Ok.
- Mas não penses que as coisas serão como previamente programadas.
- Porque falas assim? Já estás a arranjar maneira de te desresponsabilizar?
- Não, nada disso. Lembra-te que há o período de exames e esses não sei quando serão.
- O que me parece, é que já estás a preparar terreno para a tal…
- És sempre a mesma. Não percebo o que tens contra essa tal…
- Não tenho nada. Simplesmente estou a adivinhar o futuro. Aquele teu jeito de falar da mãe dela diz tudo.
- Por favor, muda de conversa. Espera para veres.
- E o que vou ver?
- Vais ver um namorado comprometido, fiel até à espinha.
Findo este diálogo, selaram o compromisso de honra de Francisco, com um abraço aconchegante e beijo prolongado.
Depois de todos se irem embora, Olegário quis saber da mulher o que a levou a tomar aquela decisão de mandar rezar missa pela sua saúde.
- Gertrudes, não gostei da tua atitude, pese embora a boa intenção, de mandares rezar uma missa pela minha saúde. Eu alguma vez estive doente? Já viste que me podias ter exposto ao ridículo, se a igreja estivesse cheia?
- Mas não estava.
- Não estava só por acaso. A porta está aberta para quem queira entrar.
- Oh homem, fiz com boa intenção.
- De boas intenções está o inferno cheio.
- Sabes que não gosto de te ver adoentado. Andavas (agora estás melhor) muito em baixo e não sabes como sofro em ver-te assim.
- Está bem.
- E olha que se não fosse esta minha iniciativa, ainda hoje estavas sem ter dado um beijo à cunhada.
- Quero lá saber disso para alguma coisa. Nem me aquece nem me arrefece.
- Fui eu a brincar contigo. Sei muito bem que tu eras incapaz de faltar ao respeito à cunhada e muito menos à memória de teu falecido irmão.
- Estás a ver como tu me conheces bem. Para que estás com essa conversa sem pés nem cabeça?

Romeu continua feliz, nada na vida lhe causa mal-estar ou faz lembrar angustiantes dias passados. As transcrições poéticas continuam a ocupa-lo. Antes de passar pela biblioteca, foi à padaria lanchar e esteve a falar com Rosa Maria.
- Olálá. Vejo-te sempre feliz, Romeu.
- Também me pareces com melhor cara. Aposto que já foste a consulta ao Dr. Jesualdo, verdade?
- Adivinhaste. Como sabes?
- Pela tua cara e boa disposição.
- Gostaste dos métodos que ele prescreve, para se sair do saco?
- Gostei. Muito original. Nem comprimidos nem injecções. Que maravilha.
- Comigo resultou.
- Contigo sim, comigo também tenho esperança.
- Podes ter a certeza.
- Certeza certeza era se…
- Se que?
- Falamos noutra altura. Toma qualquer coisa.
- Era ao que vinha. Arranja-me uma sandes mista de queijo e fiambre e uma cola. Já agora a conta também.
- A conta é fácil de fazer. A filha do patrão ficou de pagar.
- Não quero isso. Fico zangado contigo.
- Não importa que fiques zangado. Hoje é assim…Para a próxima se verá…
Despediram-se com um beijo, que Rosa Maria irá recordar, até que o próximo faça esquecer este.
Romeu seguiu para a biblioteca. Na ideia leva outra transcrição para deixar na caixa de correio de Josy. Não se cansa. A ausência da amada é compensada pela poesia. O Dr. Jesualdo prescreveu-lhe adequadamente e com o mesmo resultado, também Rosa Maria vai ser feliz.


                                PRESSENTIMENTO

                             Josy! Não vês a Lua
                             Como vacila e flutua,
                             Ora avança, ora recua,
                             E não há passar de ali?
                             Tu és a imagem dela;
                             És tão simpática e bela,
                             Meiga e tímida, que ao vê-la
                             Me lembra sempre de ti!

                             Tu és o botão de rosa
                             Que abraçado à mãe formosa
                             Só folga, só vive e goza
                             Naquela estreita união;
                             Treme até de ouvir a aragem
                             Passar por entre a folhagem:
                             Josy! Tu és a imagem
                             Do mais tímido botão!

                             Mas embora: o tempo gira.
                             Um dia o botão, que aspira
                             O ar da manhã, suspira
                             E levanta o colo ao céu:
                             Vê vir raiando a aurora,
                             Abre o seio à luz que adora,
                             Correm-lhe as lágrimas, chora…
                             Chora o tempo que perdeu!

                             Porque ele, Josy! Não teme
                             Que a luz da aurora o queime;
                             Ele suspira, ele geme
                             Por ver a luz que o criou:
                             Nem também a lua pára;
                             Se algumas vezes repara
                             Numa nuvem menos clara,
                             É um momento e… passou.

                             Não há existência alguma
                             Que não tenha amor; nenhuma;
                             Porque o amor é, em suma,
                             Essência de todo o ser:
                             Há sempre quem nos atraia.
                             Mil vezes que a onda caia,
                             Há uma rocha, uma praia
                             Aonde a onda vai ter!

                             Tu andas já pressentida
                             Dessa voz que te convida
                             A encetar nesta vida
                             Ai! Uma vida melhor…
                             E em breve desenganada
                             Dessa existência isolada
                             Darás n`alma franca entrada
                             A sentimentos de amor!


Romeu depois da transcrição, seguiu em passo ligeiro para o Centro de Dia, para ajudar a servir o lanche aos velhinhos que o aguardam de olho na porta. Acabado de entrar as “avozinhas” mais extrovertidas, saudaram-no com vivas ao “nosso Meuzinho”.
Romeu não fica insensível a estas manifestações de apreço e também de carinhos efectivos, que as senhoras lhe dispensam. Ele retribui penhoradamente. Algumas dirigem-lhe galanteios. Dizem que se fossem novas, ele não lhes escaparia. Romeu ri de felicidade pela candura das expressões galantes. Apesar de ser tímido, quando está mais “solto”, também lhes vai dizendo que em novas, deveriam ter sido jovens interessantes. A Sr.ª Maria Fogaça, de todas a mais bem-humorada, gosta da piada picante. Conhece o jeito envergonhado de Romeu e atira-lhe com cada uma…A última: Romeu se te caço em nova, ias levar com cada suadouro. Escusado será dizer que a gargalhada foi geral, mesmo aquelas que se mostram mais comedidas, riram a bom rir.

Elaine já está em preparativos para o início das aulas em Salvador. Nesta altura anda a contas com a listagem de peças de roupa que há-de levar. Também vai levar uma TV para a ajudar a distrair nas horas de lazer, que não serão muitas, mas algumas. Em relação a Francisco, também pensa nele para em conjunto abordarem algumas questões da vida académica bem como de outras relacionadas com ocupação de tempos livres. Acha que se deve falar da preparação para exames e não só e da possibilidade de estudarem em conjunto, pondo questões um ao outro, de modo a melhorarem o rendimento escolar.
Para melhor entendimento, vai telefonar-lhe para que vá lá a casa. Está a pensar convida-lo para sábado de tarde.
Diálogo ao telefone:
- Olá Francisco, é a Elaine.
- Olá Elaine. Então que há?
- Olha. Já comecei a fazer a listagem de roupas para levar, contudo, achava por bem nós em conjunto abordarmos outras questões.
- Não pensas mal. Por acaso também já me tinha lembrado de ti. Se não tens telefonado, eu teria passado pela tua casa ainda hoje.
- Mas podes vir na mesma.
- Mas hoje como já falamos este bocadinho ao telefone…
- Está bem. Pode ficar para sábado de tarde?
- Ao sábado não dá jeito nenhum.
- Porquê?
- Tenho a Josy para aturar…
- Ela não te pode dispensar por uma ou duas horas?
- Sabes como ela é…
- Não sei como vai ser quando fores para Salvador!
- E se nos encontrássemos um dia à noite, no fim do jantar. Sei lá, sexta-feira por exemplo?
- Está bem. Cá te espero. No fim, tomamos um cafezinho. Xau, até sexta, um beijo.
- Xau.
Elaine irá programar uma recepção de encher o olho. Francisco não estará a pensar em nada de especial e perante a qualidade da recepção vai-se questionar se Elaine não será melhor “partido” que Josy.
Elaine é uma jovem com bons atributos de natureza cívica, superior conduta moral e espiritual que recebeu de um tio-avô, Padre Bonifácio, e que desde criança se manifestava na pena que tinha para com os reclusos, além de que é filha única e de gente de bem e de bens, e não é má figura. Este conjunto de argumentos punha Francisco a pensar e em conflito consigo mesmo. O compromisso de honra feito horas antes, diante de Josy, irá sofrer algum abalo, após sexta-feira.

A Sr.ª Maria do Tanque que vive mais para os gatos, que para si, chama-lhes os “meus meninos”, comprou comida enlatada, nomeadamente patés de frango, de fígado de vitela e de peixe e resolveu comemorar o aniversário da Moranga, a boa avó e mãe, pelos seus sete anos. Cantou-lhes os parabéns, enquanto a boa da Moranga recebia os cumprimentos de marido, filhos e netos, através de turrinhas. O almoço de aniversário decorreu debaixo do pátio, resguardados do sol intenso. À sobremesa, serviu um biscoito a cada um e de beber deu-lhes água açucarada que eles muito apreciaram. No fim pegou ao colo um a um e beijou-lhes na cabeça. Para terminar estendeu uma manta velha no chão e deleitou-se a aprecia-los nas lambidelas de asseio. Dizia para si mesma, que se estes gatos lhe faltam mais lhe valia morrer.
É este o mundo da Sr.ª Maria do Tanque, a par de umas quantas espreitadelas e escutas sempre que algo de novo acontece na vizinhança. Destes, o alvo preferencial é Micaela. A condição de viúva desta e o bom-nome que goza resultante do seu “bom comportamento” fazem-na suspeitar se não haverá qualquer coisa que lhe escape, escondida na discrição de gestos e ou atitudes. Maria do Tanque não é mulher para badalar o que vê. Fá-lo também com sobriedade e discrição, de tal modo que as pessoas dificilmente saberão qual a fonte de informação. O primeiro a saber é sempre o Padre Lira. A ele chegam-lhe as notícias em primeira-mão. Muitas delas são ficcionadas na parte, se bem que encerrem algum conteúdo verdadeiro.
O Padre Lira, chama-lhe o Jornal da Caserna. Graças a ela, tem uma informação como nenhum outro cidadão de Tucano, do que se passa colectiva e individualmente. A apetência de Maria do Tanque vai para actos que tenham Carga de “escândalo”. Disto é que ela gosta e matéria para isso não lhe há-de faltar… Ela mesma, desde nova e até à idade de sessenta anos era a melhor referência de desvios comportamentais, por isso conhece-lhes os meandros como ninguém.

Pelo Cristóvão barbeiro, também passam relatos de vidas que este gosta de esmiuçar. Logo atrás do Padre Lira, Cristóvão deve ser o mais bem informado. A diferença é que este recebe informação difundida pelos clientes, nas várias versões, que por vezes se contradizem, e o Padre tem uma central de informação difundida por uma só “repórter”.
Cristóvão sabe explorar muito bem a maneira de se sentir informado. O último cliente e único da manhã de hoje, foi Francisco, que foi cortar o cabelo, para não ir para Salvador com ele grande. Conversaram bastante. Cristóvão desejou-lhe felicidades no curso, que supostamente irá fazê-lo com facilidade, visto ser um moço reconhecidamente inteligente.  Por isso augura-lhe realização profissional e sentimental.
Quanto a este, perguntou-lhe se ainda namora para a filha do Olegário, de que resultou o seguinte diálogo.
- Dr., ainda namoras para a filha do Olegário?
- Sim, porquê?
- Não é por nada. Parece-me que cá na terra terias coisa melhor.
- Não sei se teria ou não. Agora é esta. Amanhã não se sabe.
- Isso é verdade. O futuro é sempre uma incógnita.
- Porque pergunta Sr. Cristóvão?
- Não é por nada. Gosto de ver os meus clientes bem arrumados. Lembrava-me que se tu namorasses para a filha do Dr. Jesualdo, a Elaine, poderias deixar a Josy livre para o Romeu, que como sabes foi o primeiro namorado dela.
- Você tem jeito para casamenteiro! Abra uma agência.
- Desculpa, não foi por mal que te falei. Aliás até penso que ficavas melhor servido com a Elaine. Já viste a “pasta” que os pais dela têm? E filha única. E também não é má figura. Bom, a Josy é um pedaço de mulher, mas os pais são uns pobretanas, quase não têm onde cair mortos.
- Pois. Você está a ver o casamento pelo lado material. À moda antiga, ricos com ricos, pobres com pobres. Lembre-se que também sou de origem pobre.
- Isso é verdade. Teu pai é um simples alfaiate, mas tu como médico podes vir e vais ser rico. Além de que a filha da Gertrudes, também não tem instrução como tu vais ter. Ela deixou os estudos porque a cabeça não a ajudava.
- Não pense assim. Josy é inteligente, não foi mais longe nos estudos, por desinteresse.
- Ou isso. Uma vez mais te peço desculpa, mas que Romeu deve estar de dentes afiados, se tu deixares a Josy, lá isso…Ao que consta ele até tem sofrido muito, por tu lhe teres roubado a moça.
- Eu não lha roubei. Josy e Romeu já não namoravam, quando comecei a namorar para ela.
- Mas também não consta que eles se tivessem chateado. O que se ouve dizer é que ela era nova e que ficou traumatizada por a mãe a ter visto a fazer uma coisitas…
- Coisitas? Quais? Você sabe de algumas?
- Aquelas coisitas de primeiro amor. Um beijito ou outro e um pôr a mão na mão. Nada mais que isso.
-Ah.

Ficou por aqui a conversa que se foi tendo durante o corte de cabelo. Francisco deu-se conta de como Cristóvão é atento observador e da forma como dá ideias e encontra soluções. Esta conversa de Cristóvão não foi nenhum improviso, de certeza deve ser coisa que o preocupa. Sei que é amigo de Romeu, sei lá se este lhe falou alguma coisa, para que me desligue de Josy. Sei lá. Ele vê-se cada uma. A gente a pensar que as pessoas se metiam só na sua vida e como pensam também na vida dos outros e até dão dicas…
Agora, Cristóvão também não é burro não. A “questão” Elaine até é muito pertinente e realmente ele até nem vê mal. Eu ficava bem e Romeu também. O tempo se encarregará de…Foi assim que terminou a reflexão inesperada de Francisco face à conversa de Cristóvão.
Povo Lusitano
Enviado por Povo Lusitano em 27/09/2007
Código do texto: T670337

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Sobre o autor
Povo Lusitano
Portugal, 62 anos
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Povo Lusitano